Ernani Buchmann, escritor, advogado, publicitário, jornalista, ex-dirigente de clube esportivo (Paraná Clube), vice-presidente da Academia Paranaense de Letras (APL), proferiu uma espécie de aula magistral sobre essa “doença nacional” brasileira que é o futebol. E o fez ao saudar o jornalista especializado em futebol Antonio Carlos Carneiro Neto, que assumiu no final de julho a Cadeira 40 da instituição, em ato no auditório do SESC da Esquina, em Curitiba.
Na substanciosa análise de Ernani, conclui-se que ele enxerga Carneiro não como parte isolada do grande cenário do país, mas parte integrante de realidades erguidas a partir do futebol, bordadas por gente como Mário Filho.
O futebol, na ótica de mestre Ernani, é síntese de nossa civilização. É o que ele mostra num amplo voo de erudição e de acuidade sociológica. Vamos acompanhá-lo:
Por Ernani Buchmann
COMEÇA O ESPETÁCULO

Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Senhoras e senhores, não pude resistir à tentação de iniciar esta saudação com o bordão inesquecível criado por Fiori Gigliotti, ouvido em milhares de partidas de futebol, nos estádios, nas casas e nas ruas, a partir dos anos 40 do século passado.
Quando Antonio Carlos Carneiro Neto nasceu em Wenceslau Braz, em 7 de julho de 1948, filho do então juiz de Direito, mais tarde Desembargador Armando Jorge Carneiro e de D. Josephina Basso Carneiro, aqui presente, talvez em alguma residência ali perto alguém estivesse sintonizando a Rádio Clube de Lins, com a voz de Fiori Gigliotti narrando alguma partida na noite daquela quarta-feira.
Não se sabia, por óbvio, que naquela pacata cidade do ramal do Paranapanema da estrada de ferro, chegava ao mundo um cidadão que se dedicaria ao estudo do Direito, à carreira como serventuário da Justiça, mas, acima de tudo, ao jornalismo esportivo.
Wenceslau Braz Pereira Gomes, o presidente da República que a cidade homenageia por ter autorizado a construção da ferrovia, era mineiro. O tempo em que exerceu seu mandato, entre 1914 e 1918, foi também o da 1ª Guerra Mundial. Não sabemos qual o time de seu agrado, mas me agradaria que fosse torcedor do Fluminense. É que o clube carioca foi o primeiro a merecer referência poética. Escreveu Mário Filho:
O FLUMINENSE
“Recitava-se o time do Fluminense de 1919 como um soneto, trará, tarará.
Decassílabos perfeitos. Ouvir estrelas, de Bilac. O soneto do Fluminense, trabalhado na forma e no fundo. Depois de pronto, com Marcos, Vidal e Chico Neto; Lais, Oswaldo e Fortes; Mano, Zezé, Welfare, Machado e Bacchi. Não se podia tocar numa sílaba sem estragar tudo”.
O escritor Ruy Castro, na Folha de São Paulo, contou dia desses o violento sururu ocorrido naquele mesmo ano, envolvendo Lima Barreto, que considerava elitista o futebol, e Coelho Netto, francamente a favor. Os dois romperam como se estivessem em um Fla-Flu cultural.
Eduardo Galeano, o autor uruguaio de tanto prestígio na crítica mundial, por conta do seu clássico As Veias Abertas da América Latina, descreveu bem o ambiente do esporte no início de da saga latino-americana dos atletas pioneiros.
“Eram guerreiros formados para a batalha. As armaduras de algodão e lã cobriam todo o seu corpo, para não ofender as damas que assistiam às partidas empunhando sombrinhas de seda e agitando lenços de renda”.
SÍNTESE DA CIVILIZAÇÃO
O futebol já prenunciava ali sua vocação como síntese da nossa civilização. Ambiente propício para que surgisse, logo depois, Arthur Friendereich, filho de alemão com brasileira, mulato de olhos verdes e incrível capacidade de marcar gols. Gilberto Freyre afirmou, no prefácio de O Negro no Futebol Brasileiro, do já citado Mário Filho, que “O futebol teria numa sociedade como a brasileira, em grande parte formada de elementos primitivos em sua cultura, uma importância toda especial que só agora vai sendo estudada sob critérios sociológicos ou para-sociológicos. E era natural que aqui tomasse o caráter particularmente brasileiro que tomou”.
Prossegue o Mestre de Apipucos:
“O desenvolvimento do futebol, não num esporte igual aos outros, mas numa verdadeira instituição brasileira, tornou possível a sublimação de vários daqueles elementos irracionais de nossa formação social e de cultura”.
O processo de amálgama racial que os portugueses haviam dado início no Brasil pela miscigenação, foi cimentado e calafetado pelo futebol.
“VÍCIO INSANÁVEL”
No seu belo livro, O Trapicheiro, Marques Rebelo já nos conta como andavam as coisas na seleção brasileira, em 1938:
“Segue hoje pelo ‘Arlanza’, a delegação de futebol ao campeonato do mundo que será realizado na França. Salvo leves injustiças, a equipe que irá é a melhor. Delegados é que há em demasia, mas isso é vício insanável, porque afinal passear no estrangeiro é coisa agradável e cultural. E a atmosfera de expectativa que começou a se criar com a partida dos nossos craques, duvido que seja benéfica. Nossa autossuficiência não permite derrotas, mas nossa inexperiência em prélios internacionais já tem sido brilhante e continuadamente posta à prova”.
De tal forma o futebol havia se transformado em esporte nacional que ao voltarem da França, com o terceiro lugar na Copa do Mundo, os jogadores foram recebidos em delírio popular ao descerem do navio ‘Almanzorra’.
Zorra era o nome do navio, bem entendido.
Não era essa a opinião do Prêmio Nobel, Gabriel García Marquez, autor de diversas maravilhas na área da ficção:
“Com esta santa ignorância de que me vanglorio – entre muitas outras – em matéria de futebol, não posso menos que confessar meus sentimentos de respeito por aqueles que se instalam em uma arquibancada, desde as primeiras horas do dia e sob um sol que certamente não deve ter nada de esportivo, para esperar que 11 cavalheiros vestidos de criança se empenhem em demonstrar a outros 11 igualmente vestidos que, com as extremidades inferiores, se pode fazer, em determinadas circunstâncias, muito mais do que habitualmente se faz com a cabeça”.
(PROSSEGUE)
