Entrevista com a advogada tributarista Sandra Comodaro, uma das líderes da Lide Paraná, para traçar um perfil do ponto jurídico e até mesmo de conceito sobre tributação no país

A Reforma Tributária foi novamente colocada em discussão pelo governo federal. O Brasil convive, atualmente, com mais de 80 tributos — entre impostos, taxas e contribuições — que consomem mais de 35% dos R$ 7,3 trilhões do PIB (Produto Interno Bruto/2019).
“A questão tributária deve ser pautada na equalização do binômio ‘quantidade de tributo paga – quantidade de retorno social recebido’. As obrigações acessórias deveriam ser otimizadas para o fim de reduzir os gastos das empresas com estas”, afirma Sandra Comodaro, advogada tributarista e sócia do escritório Nelson Wilians & Advogados Associados.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, que enviou nova proposta de Reforma Tributária ao Congresso Nacional, deixa claro que não se trata de uma efetiva reforma tributária a não ser que será fatiada, mas um projeto que prevê a unificação de dois impostos federais, o Programa e Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/Pasep) e a Contribuição sobre o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).
AMPLA ANÁLISE
Para traçar um perfil do ponto jurídico e até mesmo de conceito sobre tributação no país, o Paraná Portal publicou ampla entrevista, a seguir, com a advogada tributarista Sandra Comodaro, uma das líderes da Lide Paraná que tem promovido debates e levantes, as vezes silenciosos e outras barulhentos, com norte na representatividade da mulher. Para Sandra, a mulher tem capacidade de mudar o mundo.
REFORMA TRIBUTÁRIA: ENTREVISTA COM SANDRA COMODARO
Nesse momento, creio ser mais especulativo do que factual falar em restrições na proposta de reforma apresentada. Não tivemos ainda tempo hábil para estudar com o devido afinco esse modelo de tributação apresentado, seja para validar a sistemática ou para identificar possíveis inconsistências e inconstitucionalidades que nos imponham questionar o modelo proposto.Obviamente vão existir interesses políticos – representando o interesse de classes – tanto para a aprovação, quando para a desaprovação do modelo proposto, e o fato de o governo não ter atualmente tanta força nas casas legislativas pode importar numa possível supressão de trechos das reformas. Sem contar que ainda teremos a apresentação de outras frações da reforma durante o mês de agosto, conforme repassado pela equípe do Ministro Paulo Guedes.Portanto, como eu disse, falar em restrições nesse momento são apenas especulações. Motivo pelo qual não vejo como apontá-las ainda.O Brasil está endividado. O que precisa, na sua opinião, ser feito para reverter este quadro?
Quanto a esse ponto, a realidade atual nos permite dizer que essa é de fato a pergunta de “U$$ 1 milhão”. Veja que antes da pandemia tínhamos uma projeção de endividamento perfazendo 78% do PIB e hoje essa dívida já remonta 92%, com grandes chances de chegar aos 100% até o final do ano, em virtude das medidas de auxílio adotadas pelo Estado. Ou seja, para os mais pessimistas, podemos estar próximos de um cenário de depressão…Para reversão, vejo como elementar a aprovação das reformas – principalmente a da previdência e a tributária – que tem como uma das suas finalidades essa redução, propostas do governo federal no sentido de atração de investimentos para o Brasil, estímulos nacionais para o aumento da produção nacional.Há previsões, do senador Oriovisto Guimarães, de que os juros da dívida interna chegará a R$ 6,24 trilhões ainda este ano e a R$ 7,76 trilhões em 2023. Como resolve este déficit?
Com as soluções apresentadas no tópico anterior. Evidente que teremos um cenário econômico sombrio no pós-pandemia, em que as reformas serão elementares para controlar o crescimento da dívida pública e os programas destinados a captação de investimentos externos e potencialização da produção serão fatores decisivos para essa redução gradual.
O ministro da Economia está desenhando um plano estratégico para arrecadar recursos devido aos gastos do governo com a pandemia. Fala-se em uma CPMF disfarçada. Como você avalia essa manobra?
Vejo com péssimos olhos essa tentativa de implementação da CPFM, trata-se de um imposto que – por mais que tenha alíquota baixa – é muito agressivo nas rotinas operacionais das empresas. Ainda mais considerando que o cenário econômico mudou, atualmente quase a integralidade das operações são realizadas pelo meio eletrônico, tornando a tributação ainda mais perversa.
É uma nova tentativa de implementar algo que não deu certo no passado aos contribuintes. Meu palpite é o de que esse ponto da reforma não deve passar.
Qual será a resposta empresarial a isto?
Penso que teremos uma mobilização muito forte de pressão total nas casas legislativas para não aprovarem esse ponto da reforma. A justificativa utilizada pelo Ministro de que tal tributo se presta a compensar os prejuízos de terminados setores com a primeira etapa da reforma não se sustentam. Reitero, minha posição é a de que não vai passar.
A reforma tributária é um dos pontos chaves para tanto. E a ideia de tributação deve estar sempre alocada não apenas no seu caráter contributivo, mas também na ideia da onerosidade das obrigações acessórias e do retorno do Estado aos contribuintes. Veja, existem países desenvolvidos que possuem carga tributária semelhante a essa utilizada no Brasil, porém possuem retorno expressivo aos administrados, sejam com incentivos econômicos, educação, saúde e demais condições elementares para o viver bem. Ou seja, por mais que tenhamos uma carga elevada, caso tivéssemos em favor dos contribuintes de maneira geral condições suficientes para o bem estar e para o pleno desenvolvimento – conforme prenota a Constituição – teríamos a justificativa para a tributação nessa monte.O que deve ser considerado como agressivo no cenário nacional é a elevadíssima quantidade de obrigações tributárias impostas para as empresas, eis que fazem com que sejam dispendidos grande parte do tempo e profissionais para a realização de atividades acessórias inerentes a carga tributária incidente.Sendo assim, minha posição é a de que a questão tributária deve ser pautada na equalização do binômio “quantidade de tributo paga – quantidade de retorno social recebido”, chamando a atenção, unicamente, para o fato de que as obrigações acessórias deveriam ser otimizadas para o fim de reduzir os gastos das empresas com estas.
