sábado, 11 julho, 2026
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OPINIÃO DE VALOR: MENSAGEM AO JORNALISTA SR. GLENN GREENWALD

Glenn Greenwald

Por pouco não se fala de outra coisa que a petização do Planalto…

Por Vinicius Sgarbe, jornalista

Prezado Sr. Glenn Greenwald, saudações. Meu nome é Vinícius Sgarbe.

Se a informação do Wikipédia estiver certa, o senhor se mudou para o nosso país – meu e seu – no mesmo ano em que comecei a trabalhar como repórter. Poderíamos ser iguais nos assuntos do fazer jornalismo no Brasil. Imagine. Sua trajetória impressiona, e gosto do senhor frequentemente.

Por pouco não se fala de outra coisa além da patetização do Planalto. Uma parte das informações que tenho para as decisões intelectuais vem do site The Intercept Brasil. Do vosso trabalho de iluminar mensagens ocultas e escrutinar intenções poderosas e letais.

Da minha idade pra frente, parece que as pessoas morrem por qualquer motivo. Eu e a jornalista Cassiana Pizaia produzimos uma série de vídeos com entrevistas sobre a prevenção do suicídio de idosos. Uma mulher colocou fogo em seu corpo – ouvi, nesta semana, um médico que encontrei por acaso dizer que aquele fogo é para chamar a atenção.

Sr. Greenwald, nós fracassamos – no plural, para me integrar ao grupo, entendendo um fenômeno coletivo. Nós fracassamos miseravelmente.

Talvez o senhor já tenha ouvido a expressão “consertar o avião no ar”. Nós, não. Explodiu, caiu, pegou fogo, morreu todo mundo, pânico e desgraça. Estamos abandonados à crença de que não somos gente. É isso que eu penso.

MEMÓRIA INFANTIL

Nesse contexto, o que o procurador Sr. Deltan Dallagnol e o presidente da Petrobrás, Sr. Roberto Castello Branco, falam “trocado por merda sai caro” – com licença para as palavras do sádico que fez sucesso expondo cadáveres, demências e pornografias, Sr. Luiz Carlos Alborghetti. Uma memória infantil.

Esta carta pode parecer abstrusa. Em breve, explico a razão de meu descontentamento. Antes, vou contar uma coisa.

Em julho deste ano, em Curitiba, a Lava Jato promoveu uma coletiva.

Foram falas tão relevantes quanto não lembro o que ninguém falou. No papel de correspondente especial do jornal O Globo – o frila que tem prestígio – recomendei e concordamos, eu e os editores de política, que não havia notícia e que o melhor destino dos 2.842 toques escritos em português de literato era a lixeira. Uma relação ética, ética profissional. Por que não etiqueta profissional.

ELE FALOU COMIGO

No passado, ainda para O Globo, manchetei (que verbo horroroso) que o então deputado federal Sr. Jair Bolsonaro acreditava que as pessoas do PT tinham atirado contra as pessoas do PT. Ninguém tinha conseguido falar com ele. Eu consegui. Eu treino minha voz, estudo análise transacional, estudo jornalismo. Eu sei me comportar. Ele falou comigo.

No meio de uma multidão que se acotovelava, ele falou comigo.

Depois, publiquei sobre o ministro Sr. Sérgio Moro ter negociado uma cadeira no Supremo (fazendo graça, deve ser a do “terrivelmente evangélico”). E sobre a juíza Sra. Gabriela Hardt ter copiado uma sentença importante.

Estive no maior encontro islâmico das Américas – que reuniu xiitas e sunitas de muitas partes do mundo. Ninguém era proibido de entrar, e ao mesmo tempo gente sem classe não era bem-vinda. Um xeque me deu R$ 600 e disse que era “simbólico, muito simples”, que eu deveria “comprar alguma coisinha antes de voltar para casa”. E quem disse que eu soube recusar?

Sr. Greenwald, pergunto. Pareço um jornalista? Um repórter? Ou um propagandista do Ministério Público? O senhor respondeu que “se O Globo tivesse jornalistas e repórteres em vez de propagandistas para o MP” então se saberia disso ou daquilo. Estou decepcionado. E eu poderia ter me decepcionado antes.

SUBINDO O TOM DE CRÍTICA

Durante as ocupações de escolas secundaristas no Paraná, o site The Intercept Brasil me perguntou se eu poderia escrever. Em algumas horas, tínhamos 16.034 toques. A editora insistiu que eu subisse o tom de crítica à Globo. Ela enviou um exemplo, qual seja um texto ofensivo contra o jornalista Sr. Alexandre Garcia. Os comentários do Sr. Garcia parecem sair do Gerador de Lero-Lero. Quem se preocupa?

Além do mais, encontrar erros da TV aberta (e da fechada, dos documentaristas, dos sites) em uma ocupação é tão fácil. Tão fácil que desconfiei. Fiz críticas aos enquadramentos e técnicas dos meus colegas e, é claro que os entrevistei e registrei na reportagem.

Sem sentar na Globo, recebi o dinheiro, mas não foi para o ar.

“Era manhã quinta-feira, 29 de setembro, em São José dos Pinhais, na grande Curitiba. O município de 200 mil habitantes tinha, certamente, esperanças para o Natal: orgulhava-se, todo fim do ano, de exibir a Casa do Papai Noel na televisão. O mesmo grupo político governava há muitos mandatos, até que Mariana Gomiela, 16, fez uma brincadeira durante a aula. ‘A gente podia ocupar a escola’”.

Ofereci pautas que considerei grandes e que chegariam longe pelo olhar multicultural. Uma sobre nazismo em Curitiba, com fontes potentes – antes das eleições que nos marcaram. Outra sobre o uso do hijab por estudantes curitibanas estar ameaçado nas escolas municipais. Fui ignorado.

O senhor tem sucessos para os quais grandes jornalistas e repórteres da minha cidade não se inscreveram. Temos nossos orgulhos, prêmios e problemas. Não precisamos importar nada. Não fique sozinho, Sr. Greenwald. Tem muita gente em volta e poucos são piores que o senhor.

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