
Por Cecilia Maria Vieira Helm (*)
Decidi publicar os depoimentos dos idosos da Terra Indígena Mangueirinha (TIM), para que seja do conhecimento das novas gerações a história do povoamento desta terra pelos Kaingang e Guarani. Essa decisão é importante, apesar dos desafios dos meus 80 anos de vida, para me manter ativa, realizando o que aprendi fazer, escrever sobre a história dos povos indígenas no Estado do Paraná. O livro deverá ser publicado nas próximas semanas.
Trata-se dos relatos dos indígenas que investiguei durante as pesquisas que realizei nesse local, no sudoeste do estado do Paraná, desde 1967, para conhecer a história da ocupação da Terra Indígena pelo capitão Antônio Joaquim Kretã, que reuniu, em 1818, unidades familiares Kaingang e deixou o aldeamento de Atalaia, em Guarapuava. Dirigiu-se à área de Palmas e, em 1819, foi se instalar junto aos rios Iguaçu e Chopim. Criou as aldeias Campina e Palmeirinha, nas proximidades do povoado Covózinho, no Paraná.
A preocupação em pesquisar os conflitos que ocorriam, devido ao contato entre índios e não índios, foi inspirada nos trabalhos de antropólogos, notadamente de Roberto Cardoso de Oliveira, meu notável professor no Curso de Pós-Graduação em Antropologia Social, realizado no Museu Nacional, em 1962-3.
AUXÍLIO NA POVOAÇÃO
Com a instalação da Colônia Militar do Chopim, os Kaingang auxiliaram os militares na abertura de picadas, para ligar a Colônia às povoações de Palmas, Ponta Grossa e de Guarapuava. Não aceitaram o pagamento em papel moeda pelos serviços prestados. Solicitaram a formalização do território que ocupavam. Foi elaborado o Decreto nº 03, em 1903, pelo ex-governador do Estado do Paraná, Francisco Xavier da Silva. O filho de Antonio Joaquim Kretã, José Capanema, viajou para o Rio de Janeiro e Curitiba, para solicitar que as terras que ocupavam fossem reservadas e delimitadas para os Kaingang.
Em 1915, um grupo da etnia Guarani Mbya solicitou ao cacique José Capanema, que herdou a posição de seu pai, para ceder um local junto à mata, para que os Guarani pudessem viver na Terra Indígena Mangueirinha.
POVOS TRANSFERIDOS
Na década de 1960, os indígenas tomaram conhecimento que a área foi dividida em três glebas, A, B e C, por decisão arbitrária das autoridades governamentais. A parte do centro (B) de seu território havia sido negociada, em 1949, pelos governos do Estado do Paraná e Federal. Em 1961, as famílias de Kaingang e de Guarani que viviam na área central foram transferidas de maneira forçada, para as outras partes (A e C) da Terra Mangueirinha.
CONFLITOS
Os conflitos estão presentes nas relações de contato entre índios e não índios, e os meus projetos de pesquisa foram fundamentados em revelar as questões geradas pelo conflito, nas relações antagônicas de poder.
A história da ocupação, delimitação e regularização da área de terras habitadas para uso, sobrevivência física, cultural, e as relações sociais dos indígenas, solicitei fossem narradas pelos cidadãos idosos.
Os seus depoimentos sobre a cultura nativa foram gravados, para ser escrita, documentada, para conhecimento das gerações atuais e às futuras.
200 ANOS DE OCUPAÇÃO
Há 200 anos, os indígenas, Kaingang e Guarani ocupam as terras, que devem ser protegidas, preservadas pelos jovens, lideranças atuais, para ser garantida a posse e o uso das terras de Mangueirinha. Os arrendamentos e as serrarias estão proibidos de serem realizados nas terras indígenas.
Na Justiça Federal, em Curitiba, foi dada, em 2005, a sentença favorável aos indígenas, em longo processo estudado, analisado em profundidade pelo competente, Juiz Federal, Mauro Spalding.
POVOS EM ALERTA
Atualmente, os povos indígenas no Brasil estão em alerta, devido às ações do governo que têm se mostrado contra a ocupação, delimitação, demarcação e homologação das terras indígenas. Mesmo as terras devidamente demarcadas e homologadas, como as de Mangueirinha, causam preocupação aos Kaingang e Guarani.
O meio ambiente tem sido ameaçado por não índios que invadem as áreas, para extrair madeiras, minérios, causam desmatamento e queimadas nas matas. O governo tem se mostrado contra o conhecimento produzido por cientistas sociais, não tem estimulado os pesquisadores, que buscam conhecer a realidade dos fatos. A situação das terras indígenas não está recebendo o necessário apoio do atual governo, causando preocupação aos antropólogos, Ministério Público Federal e de parte significativa da sociedade civil.
(*) CECÍLIA MARIA VIEIRA HELM é antropóloga especialista em etnologia indígena, professora emérita da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e membro da Academia Paranaense de Letras


