O ex-procurador Janot em seu livro “Nada menos que tudo” conta muitas coisas que lhe interessam, algumas que todos conhecem, e outras sob as quais silencia em seus detalhes.

Por Antenor Demeterco Junior (*)
Convidado em maio de 2017 para a casa de um ministro do Supremo Tribunal Federal, foi indagado pelo mesmo se estava sendo investigado, com lágrimas nos olhos (não conta quem era o anfitrião chorão).
Tal cidadão, possivelmente, tinha comprometimento de alguma ordem no festival de lapsos que assola o país.
FORTE TENDÊNCIA
Janot tem uma tendência em desqualificar atuações profissionais alheias:
o ex-procurador Antonio Fernando de Souza, o homem sério que denunciou o “mensalão”, teria dado um recado, já como advogado, a favor do comprometidíssimo deputado Cunha.
O seu antecessor no cargo, Roberto Gurgel, que corajosamente denunciou o senador Renan Calheiros às vésperas da eleição para presidência do Senado, teria tomado decisões que acirraram os ânimos.
JOSÉ DIRCEU
O petista José Genoíno condenado à prisão com trânsito em julgado mereceu a defesa extraoficial do procurador Eugênio Aragão, “muito ligado ao PT”.
Ao deflagrar a execução da pena do mesmo, Janot foi procurado pelo ministro Ricardo Lewandowski “que queria se certificar do conteúdo da minha petição”.
CHOROU PELO PETISTA
E confessa, ele Janot, que chorou pelo ex-guerrilheiro, pois estava “enterrando de vez o sonho de uma geração”.
É preciso lembrar que em guerrilhas macaqueadas de Cuba, quando guerrilheiros adentram o mato, caso Genoíno, não o fazem para caçar borboletas.
Chama a atenção que Genoíno tenha merecido lágrimas e defensores tão ilustres.
HOMENAGEM A JANGO
Como Procurador-Geral participou de uma homenagem pós-morte ao presidente João Goulart.
Este, como noticiou seu homem de confiança, Samuel Wainer, em suas memórias “Minha Razão de Viver”, colhia propinas de empresários e preparava um golpe de Estado.
A atuação de Janot na luta contra a propinagem não se compatibiliza com a homenagem prestada ao finado presidente de 1964.
PROPOSTA DE MÁRCIO
Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da justiça do governo Lula, e advogado de empresas como a Camargo Corrêa e Odebrecht, propôs o esquecimento do passado de trampolinagens, e a realização de um acordo com pagamento de uma multa de 1 bilhão de reais.
Chegou à Procuradoria Geral um pacote de sete horas de conversas gravadas entre Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, com a tróica de seus cúmplices, ou seja, Sarney, Calheiros e Jucá.
Em jogo a cabeça de Dilma Roussef e a sua substituição por Michel Temer, com o fito de “estancar a sangria” da operação Lava Jato.
VELHA BANDEIRA
Entrava em foco nestas prosas “impedir o cumprimento de pena de prisão a partir de condenação em segunda instância” (cf. “Nada Menos que Tudo”, p. 130).
Esta velha bandeira da corrupção volta à tona nos dias que correm, tudo para beneficiar diretamente um único indivíduo.
Até o voto de um desembargador que seria favorável a um estuprador de vulnerável foi abordado, assunto possivelmente do Maranhão.
Janot após sair da Procuradoria Geral, valorizando sua atuação, acredita que a Lava Jato perdeu força, teria havido recuo nas ações concretas.
DIA DE FAMA
Para ele a operação estava se transformando “num passaporte para um dia de fama em Harvard”.
É preciso que se constate que a universidade americana, em que estudaram os jovens que deflagraram a Lava Jato, causa uma ciumeira danada entre alguns ministros e procuradores.
Estes, ligados intelectualmente à comunidade jurídica portuguesa, parecem sofrer de certo complexo de inferioridade com relação a Harvard.
É algo incompreensível e, diga-se injustificável.
“SOBERBA” DE MORO
Ministros do STF comentavam (diga-se, invejosamente) sobre a suposta “soberba” do juiz Sérgio Moro, quando atuou auxiliando na corte.
Um deles afirmou, literalmente, que ele andava aqui, como se fosse um ministro.
É humanamente compreensivo que cidadãos vaiados em público se recintam de cidadão aplaudido em idênticas aparições.

A relatoria da Lava Jato, por um feliz sorteio eletrônico, caiu nas mãos do ministro Edson Fachin, e não em mãos do principal algoz da operação.
(*) ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, advogado, desembargador aposentado do TJPR, estudioso da História do Século 20.

