Antenor Demeterco Junior (*)
No dia 30 de dezembro de 2016, o senador e professor universitário Cristovam Buarque publicou artigo incensando a figura do infeliz presidente João Goulart, em comentário sobre a publicação do livro “Jango e Eu – Memórias de um Exílio Sem Volta”, de autoria de João Vicente, filho do personagem.

Esta obra revela a dureza do exílio de uma família, e uma profunda manifestação de “amor filial e paternal”, como escreve Cristovam. Este último que me perdoe, mas tem uma visão histórica distorcida do ex-presidente.
Jango pode ter tido compromisso com aquilo que chamava “reformas de base”, e que pretendia realizar de qualquer modo, mas não dentro de um contexto democrático como quer Cristovam.
Goulart não teve, comprovadamente, qualquer “compromisso com a democracia”, pois, no dizer do controverso jornalista Samuel Wainer, recebia dinheiro da corrupção e círculos de seu governo preparavam um golpe. Samuel era, confessadamente, o “propineiro” de Goulart.
Convido Cristovam a ler o livro “Minha Razão de Viver” (em especial a p. 322), do único jornalista brasileiro que cobriu os julgamentos de Nuremberg.
Em seu livro, João Vicente reconhece, como Samuel Wainer, que, no arraial anarquizante da esquerda radical, preparava-se o golpe, mas exime o pai da aventura.
Quem viveu aqueles tempos sabe que as instituições foram jogadas no lixo com a quebra da hierarquia nas Forças Armadas, realização de comício provocativo diante do Ministério da Guerra (financiado pela corrupção), revoltas de militares subalternos, etc.
Tudo isto levou ao “contragolpe” militar, que não se contentou em limpar as estrebarias políticas da época, e acabou por enamorar-se do poder por duas décadas. Goulart é, indiretamente, o pai da ditadura após a de Getúlio.
Os compromissos de Goulart não eram com a democracia como a conhecemos, mas com um voluntarismo anárquico, reformista a qualquer preço. O livro de João Vicente e o artigo de Cristovam podem fazer justiça a Goulart em certos aspectos de sua vida: bom pai, pacifista, tolerante, etc..
O artigo de Cristovam é mais descompromissado com a história medíocre de nosso país do que o próprio livro comentado.
O mafioso Dom Tommaso Busqueta (alterei a grafia propositadamente e por razões óbvias), participou do aniversário de Jango de 53 anos em alegre churrasco, no Uruguai, e quase comprou-lhe uma área em Mato Grosso, com pista de pouso (“in” “Cosa Nostra no Brasil” de Leandro Demori, p. 116 e 117).
A transação foi vetada pelo general Ernesto Bandeira Coelho, chefão da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia, fato que enriquece a biografia do ex-presidente.
ANTENOR DEMETERCO JUNIOR, pesquisador da História do século 20; é desembargador aposentado TJ-PR
