Por Eloi Zanetti

Nossa geração, a dos idosos, acostumou-se a tomar café de péssima qualidade. Como o preço era regulado pelo IBC – Instituto Brasileiro de Café -, o produtor não se interessava em melhorar a qualidade do café quando esse era destinado ao consumo interno pois, melhorando ou não, o preço que conseguia por saca seria sempre o mesmo para todos os produtores. Se investisse em qualidade, perdia dinheiro na hora da venda porque o seu concorrente venderia pelo mesmo preço e teria mais lucro.
Para nós, brasileiros, ficava o famoso café “milhorado”, isto é, com mistura de palha de milho, gravetos, cisco e às vezes até grama cortada.
Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes Em meados de 2001 o mercado interno de café começou a se sofisticar, foi quando os italianos inventaram a profissão de barista, nome que vem de bar – unidade de pressão – da máquina de fazer ‘café espresso’ do italiano – feito sobre pressão; ou em português expresso, com “x” para indicar café extraído com rapidez. Os italianos, desde que a moda de se tomar café pegou na Europa (Veneza -1570), sempre foram bons nas inovações do uso e na comercialização da bebida. Já os americanos, querendo levar para os Estados Unidos o modelo de consumo europeu, importaram a moda italiana e de lá espalhou-se para o mundo, inclusive chegando aqui na terra do café. A moda dos baristas pegou rápido e eles foram os responsáveis pela difusão dos cafés especiais. Cursos sobre o assunto proliferam rapidamente. O Brasil ainda é o maior produtor do mundo, disputamos com 51 países e fornecemos um terço do consumo mundial. No Brasil a onda do consumo de café especial cresce cinco vezes mais do que do tradicional.
OFENSA
Aceita um cafezinho? Se um mineiro te oferecer um cafezinho e você declinar é ofensa na certa. Produtores atentos à nova moda trataram de se adaptar rápido às exigências do mercado – é assim que a coisa funciona – na base da procura e da oferta. O Paraná já foi o maior produtor do Brasil, tendo inclusive o maior plantio de uma única espécie vegetal numa mesma região: 60 milhões de pés – cercanias de Londrina e Maringá. Porém, o desastre da grande geada de 1975 praticamente acabou com a nossa produção. Muita gente foi dormir rica e acordou pobre. Cafezais foram sistematicamente sendo substituídos pela cultura da soja, milho e trigo.
Parafraseando Drummond: fazendas de café no Norte do Paraná são apenas retratos na parede, mas como doem.
QUALIDADE
Hoje encontra-se café de qualidade na região do Norte Velho, Jacarezinho, Cornélio Procópio, Cambará, Santo Antonio da Platina e Wenceslau Braz. O Sebrae tem ajudado a tornar a região referência em café especial, mas é em Minas Gerais que a verdadeira revolução está acontecendo e o Sul de Minas se destaca com a já reconhecida “Mantiqueira de Minas”. Seus cafés, com características únicas, têm puxado a bandeira dos melhores cafés do mundo. O plantio na região é tradicional, tem mais de 150 anos. As cidades de Cristina e Carmo de Minas que já foram grandes produtores atentaram para esse novo mercado e centenas de pequenos agricultores se mobilizam para o plantio correto.
Jovens fazem cursos de especialização – plantio, manejo, classificação, torra e barista. O novo café em Minas é plantado em altitudes entre mil e 1800 metros e tem merecido prêmios e alta pontuação a cada temporada.
(SEGUE)
(*) ELOI ZANETTI, publicitário, escritor, conferencista, morador na Serra da Mantiqueira, MG



