Hoje tomei conhecimento do Blog do Dotti, um novo exercício da inteligência e destreza cultural privilegiadas de René Ariel Dotti.
O texto cativante é ampliado por uma diagramação de craque, alguém à altura do grande criminalista brasileiro. Leia o seminal exercício de memória, a seguir, matéria do blog (http://blogdodotti.com.br/o-magico-da-palavra/):

O mágico da palavra
POR RENÉ ARIEL DOTTI
A maior sedução de minha infância era o circo. Nos domingos, na Praça Carlos Gomes, com a trupe dos Irmãos Queirollo. Equilibristas, palhaços, acrobatas, malabaristas, trapezistas e cavalos carregando bailarinas. Todo mundo ria quando Queirollo puxava a corrente que prendia sua cachorrinha de pano, gritando bem alto:
– “Pula Violeta!”
A grande atração eram as faces brancas da maquiagem, a vestimenta negra (o fraque), a destreza das mãos e a cartola do mágico. Elas dançavam em retas e curvas, para cima e para baixo, enquanto os dedos puxavam do grande chapéu de veludo preto a variedade colorida de lenços, flores, bonecas e até mesmo coelhinhos agarrados pelas orelhas. Eu me perguntava: “Como é isso? Tanta coisa não cabe no chapéu”.
Essas imagens me vêm agora lendo o 3º volume da Poesia Reunida, de João Manuel Simões. Na imaginária e fluída percepção da Divina Comédia, Simões antevê a existência de uma Santíssima Trindade Poética apresentando:
“Virgílio: foi esse o Pai.
E Dante o Filho.
Entretanto,
depois deles sobressai
Pessoa, O Espírito Santo.”
O poeta lembra a criança feliz com o soneto que abre o “inventário da infância”:
“Trouxe da infância rosas e manhãs
e tarde parecendo a vida inteira,
ribeiros, prados, pássaros, maçãs,
papagaios erguidos na ladeira,
a velha casa, e entre muitas vãs
aquarelas, a imagem verdadeira
do velho avô com suas puras cãs,
sentado, absorto, à sombra da figueira.
Trouxe da infância (de além-mar!) brinquedos,
trens, carrosséis, bonecos, instrumentos oníricos
Trouxe comigo caixas com segredos,
bolas, contos, piões, latins, inventos
de um tempo – que fui e sou – criança”.
A palavra está na cartola do poeta. Rebuscada pelos dedos da mão direita ele desenha no ar com a mão esquerda os versos de:
O menino que eu era
morreu há muito.
Assim, acabou-se a quimera:
eu sou órfão de mim.
“O mundo é uma escola, a vida é o circo”.
Marisa Monte (1967-). Cantora, uma das maiores artistas da música brasileira na atualidade.
