quarta-feira, 1 julho, 2026
HomeMemorialOPINIÃO DE VALOR: A poesia de Adalice tem sabor de saudade

OPINIÃO DE VALOR: A poesia de Adalice tem sabor de saudade

Por Raul Guilherme Urban (*)

Adalice Araujo: magistério e crítica de artes plásticas
Adalice Araujo: magistério e crítica de artes plásticas

Em 1999, chegava às livrarias uma edição limitada a 3 mil exemplares de uma verdadeira pérola poética: “Cantos do Desamor”, poesias escritas por ninguém menos que a artista plástica ponta-grossense Adalice Maria de Araujo – que assinava Adalice Araujo, nascida em 18 de setembro de 1931, e que nos deixou em 8 de outubro de 2012. O livro, uma produção independente que contou com a participação de Heliana Grudzien, responsável pelas ilustrações, esgotou em poucos dias, é considerado uma relíquia para quem tem um exemplar em casa. Impresso na Polônia, à época teve projeto gráfico de Denize Grudzien, além de produção gráfica de Marcos Miranda, no Brasil em colaboração com a Gráfica Eurotone de Cracóvia, na Polônia.

HISTÓRIA DA ARTE

Adalice Araujo tem extenso currículo: graduada em Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná e em Licenciatura em desenho pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, deliciou, com seu farto conhecimento, toda uma geração de estudantes do curso de Jornalismo da então Universidade Católica do Paraná, ensinando História da Arte ainda no apagar da década de 1960.

DISCÍPULOS

Era um tempo de também farta produção criativa de estudantes que incluíam, entre outros, Aroldo Murá G.Haygert, Manoel Carlos Karam, Maria José Gândara Martins, Raul Guilherme Urban, Raimundo Campos Caruso e tantos outros que fizeram carreira nas décadas seguintes. As aulas de então aconteciam nas saladas da saudosa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UCP, com entrada pela Rua Tibagi.

OBRA MÁGICA

“Cantos do Desamor”, obra mágica da Doutora em História de Arte, então editada com ajuda da Lei de Incentivo Cultural da Prefeitura e com apoio da Embratel e Savana Veículos, ao longo das 185 páginas, era dividida em 19 capítulos. Exercícios do Desdizer, Cantos Nada Concretos a Ferreira Gullar, A Curitiba de Dalton Trevisan, A Ponta Grossa de Oldemar Justus, A Ilha de Cruz e Souza, Canto às Mulheres Traídas, Canto aos Poetas, aos Artistas Plásticas e aos Velhos, bem como Cantos e Desencantos Verde/Amarelos – que prestam homenagem póstuma a Tancredo Neves, falecido no raiar da redemocratização do país, são apenas algumas das passagens.

“CANTO O DESAMOR”

Nos Exercícios do Desdizer, diz Adalice: “Os poetas cantam o amor. Mas como eu não sou poeta, apenas gente… Eu canto o desamor”.

Nos Cantos Breves, o poema “Latim” é claro: “Se eu sei latim? Não…
Perdeu-se na treva do tempo; perdeu-se na clausura do tempo; perdeu-se na merda do tempo”.

No capítulo dedicado a Dalton Trevisan, o poema “Estereótipos Curitibanos”:

“Eu gosto das flores,
dos ladrilhos do meu banheiro.
As flores de verdade fenecem,
mas… as flores do meu banheiro
estão sempre alegres e saltitantes!
Enquanto as flores lá fora morrem,
na geada de Curitiba, na chuva de Curitiba, na cinza de Curitiba, as do meu banheiro me saúdam alegremente:
“Oi, bom dia! Como vai você?”

E a pequena poesia “Barco da Madrugada” diz o essencial:

“Eu navego sozinha neste barco maluco,
em plena madrugada de um dia que se foi”.

No próximo dia 8 deste outubro, Adalice Araujo será sempre lembrada por quem com ela conviveu, e há seis anos é um vácuo para quem com ela conviveu e soube desfrutar a Arte como um todo.

Manoel Carlos Karam, Campos Caruso: aprendizado
Manoel Carlos Karam, Raimundo Campos Caruso: aprendizado

(*) RAUL GUILHERME URBAN, jornalista, memorialista de Curitiba, especialista em mobilidade urbana

Leia Também

Leia Também