Rodolpho Feijó (*)
Não vivemos sem um mundo multipolar ou bipolar. Vivemos sem um mundo caótico. Em Paris, Bruxelas ou Ancara, a expressão perversa da desordem global manda uma clara mensagem: ninguém está a salvo.
Terror, do latim terrere, significa assustar, causar medo. Ele cresce. A estratégia terrorista ganhou novo dinamismo, em especial na Europa, e consolidou o medo como base para a construção do seu discurso. A fobia enraíza-se, ramifica-se e acomete, da cúpula à base, os países mais poderosos do mundo.
A nova onda de ataques resulta também na busca por novos conceitos de identidade nacional. Fatores socioculturais que expliquem a radicalização passam pela desintegração, marginalização do indivíduo e sentimentos de inferioridade social. Uma busca dostoievskiana por respostas na condição humana para atos de barbárie de natureza política.
Amídia ocupa papel fundamental neste panorama e hoje é a principal arma do Estado Islâmico para atingir seus objetivos políticos. Isto se deve em parte a uma ênfase na caracterização religiosa do fenômeno, rótulo herdado da Al-Qaeda e sua retórica de perseguição contra ‘infiéis’. Produções hollywoodianas e compartilhamentos individuais por mídias sociais complementam o estratagema propagandista do grupo, evidenciando a relevância dos meios.
O véu que cobre as relações de poder no Oriente Médio muitas vezes transforma a disputa por influência em nebulosas tramas de crime e castigo. Estados como Arábia Saudita e Turquia viam o Estado Islâmico como realizador de uma agenda política de oposição ao regime de Bashar al-Assad e permitiram a expansão do grupo. O financiamento externo, livre-trânsito e militarização de setores radicais somaram-se à impossibilidade de forças moderadas se oporem às forças ditatoriais da região, decretando o fim da Primavera Árabe.
A capacidade de influência externa, em especial americana, compõe inevitavelmente uma das camadas de complexidade do tema. A longa guerra civil da Síria transformou toda a região em uma zona de convergência geopolítica, internamente alimentada por uma atóxica narrativa de divisão entre sunitas e xiitas. Um macabro teatro do absurdo, palco de indescritíveis horrores e crimes contra a humanidade – condições que fazem daquele país o centro de gravidade do Estado Islâmico.
Alternando-se entre ocupações na Síria, mídias de massa e saguões de aeroportos, o radicalismo ameaça as liberdades individuais e propõe a exclusão da pluralidade de valores. Suas claras táticas de desagregação institucional através da propagação do medo e perseguição de minorias não são apenas uma adversidade local. Dizem respeito a todos os governos e cidadãos.
(*) Rodolpho Feijó é curitibano, mestrando em Políticas Públicas na Universidade das Nações Unidas (ONU), em Maastricht, Holanda.
