Por Marcus Vinicius Gomes (*)

Em outubro de 2002, a caminho do segundo turno que confrontava Lula e Serra na disputa à presidência, a revista “Veja” publicou capa célebre em que anunciava a existência de alas revolucionárias dentro do PT. Eram 30%, agiam em silêncio e mais cedo ou mais tarde iriam cobrar a fatura.
Passados quase quinze anos, eis que o terço de ‘porralocas’ – denominação dada a organizações trotskistas que adotaram a política do entrismo no PT – parece o melhor do pior.
HELOISA HELENA
Heloísa Helena, aquela que cuspia fogo contra as oligarquias na tribuna do Senado era uma delas. O ministro Antônio Palocci (Fazenda) deveria ser outro. Afinal era trotskista desde a adolescência, sonhava com a revolução permanente, a IV Internacional e tinha um codinome manjado na Organização Socialista Internacionalista (OSI), a facção que publicava o jornal “O Trabalho”. Algo assim como Noel ou Leno, um anagrama de Leon (Trotsky).
ESTUDIOSOS
O poderoso diretor-geral da Polícia Federal, Romeu Tuma, dizia que os trotskistas era o grupo de esquerda que menos lhe causava preocupação. O que faziam era estudar. Toneladas e toneladas de documentos entregues aos militantes semanalmente. A Palocci também.

O LADO TROTSKISTA
Na carta enviada ao diretório nacional do PT em que oferece sua desfiliação, é o trotskista quem fala. A expressão não é usada, mas está implícita. Eis a “correlação de forças” medida segundo aqueles que defendem o líder e os que apoiam a leniência partidária.
Palocci é duro na carta. Logo nas primeiras linhas diz que havia se preparado para enfrentar um procedimento de natureza frente a sua condenação de 12 anos. Em vez disso, a direção do PT decidiu abrir um processo ético em razão das declarações dele a respeito do ex-presidente Lula.
CASA DO “LOBBY”
Palocci, que seria o escolhido de Lula para sucedê-lo, não fosse a derrocada da “Casa do Lobby” em 2006, reafirma o que disse diante do juiz Sérgio Moro no dia 6 deste mês. A compra do prédio para o Instituto Lula, as doações da Odebrecht ao PT, a reunião com Dilma e Gabrielli, a campanha de 2010, entre outros, “são fatos absolutamente verdadeiros”.
“Não posso deixar de registrar a evolução e o acúmulo de eventos de corrupção em nossos governos (do PT) e, principalmente, a partir do segundo governo Lula”.
LULA SUCUMBIU AO PIOR DA POLÍTICA
Palocci admite os erros e ilegalidades que cometeu, mas diz que não pode deixar de destacar “o choque de ter visto Lula sucumbir ao pior da política no melhor dos momentos de seu governo”, referindo-se ao primeiro mandato do petista (2003-2006).
Aquele que era “o cara”, nas palavras de Barack Obama, “dissociou-se definitivamente do menino retirante para navegar no terreno pantanoso do sucesso sem crítica, do ‘tudo pode’, do poder sem limites, onde a corrupção, os desvios, as disfunções que se acumulam são apenas detalhes, notas de rodapé no cenário entorpecido dos petrodólares que pagarão a tudo e a todos”.
ELEGER E REELEGER UM MAU GOVERNO
Em outro trecho, Palocci dispara contra o governo de Dilma Rousseff, sem citá-la diretamente: “Alguém já disse que quando a luta pelo poder se sobrepõe à luta pelas ideias, a corrupção prevalece. Nada importava, nem mesmo o erro de eleger e reeleger um mau governo, que redobrou as apostas erradas, destruindo, uma a uma, cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão custosamente alcançados, sobrando poucas boas lembranças e desnudando toda uma rede de sustentação corrupta”.
REUNIÃO NO ALVORADA
Palocci rememora ainda uma reunião na biblioteca do Palácio Alvorada, com a presença de Dilma e Gabrielli, em que o tema era o pré-sal. Foi quando Lula “encomendou as sondas e as propinas, no mesmo tom, sem cerimônias, na cena mais chocante que presenciei do desmonte moral da mais expressiva liderança que o país construiu em toda nossa história”.
DE CARNE E OSSO
Por fim questiona o critério da direção do PT ao abrir um procedimento contra ele. Qual o embasamento? Processos em andamento contra o filiado? Condenações proferidas? Se este é o caso, a possibilidade de expulsão do partido não deveria cair apenas contra ele. Mas não é esse o caso. O processo se sustenta nas acusações que Palocci fez contra Lula. É esse o ponto. Ele pergunta: “Afinal, somos um partido político sob a liderança de pessoas de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?”
HORA DA VERDADE
Palocci encerra a carta dizendo que é hora da verdade, que chegou ao porto e queimou seus navios. Não há retorno possível. Parece bonito e definitivo. Mas a direção nacional do PT já se pronunciou. Disse que o ex-ministro mostra “fraqueza de caráter” e “desespero”. É uma das artimanhas do partido: desconstruir a imagem de um ex-convicto. Poderia ser mais original. Talvez apelando para o histórico revolucionário de Palocci, cuja tendência universitária, a Libelu (de Liberdade e Luta) entoava grito de guerra de dois versos: “Me bate, me chuta. Sou liberdade e luta”. Puro masoquismo.
(*) MARCUS VINICIUS GOMES, jornalista, colaborador da coluna, um dos organizadores do livro “Encontros do Araguaia: paranaenses que construíram o século 20”
