

Evaristo de Miranda (*)
Dentre as reações ao novo governo, muitas se referem à permanência ou não do Brasil no chamado Acordo de Paris. O presidente Bolsonaro e o ministro Salles, do Meio Ambiente, foram questionados se acreditavam no aquecimento global. Seria a melhor política para as incertezas climáticas uma questão de crença?
Os desafios climáticos não são objetos de contestação, mas, sim, a atual interpretação de tais sinais, os cálculos distorcidos referentes à contribuição do Brasil para as alterações climáticas, e, sobretudo, as negociações globais das estratégias de mitigação e redução de emissões.
MÍDIA E ONGs
O Brasil aparece como um dos maiores contribuintes do aquecimento global, segundo a mídia e as ongs. Tal contribuição se deve, teoricamente, às mudanças no uso do solo. É “culpa” da agropecuária, “responsável” pelo desmatamento da Amazônia e do Cerrado. Os bois contribuiriam “enormemente” em tais emissões. Sua digestão e fezes emitem metano, um gás ativo do aquecimento global.
CÁLCULOS PRIMÁRIOS
Muitos cálculos dessa contribuição são primários, parciais e falsos. Não levam em conta o ciclo completo do carbono (fixação menos emissão), nem incluem numerosas atividades fixadoras de carbono promovidas no meio rural. Multiplicam-se as emissões de metano dos bois pelo tamanho do rebanho.
VALE DESCONTAR
E não se desconta o carbono fixado pelas pastagens, transformado em CO2 pela respiração e “estocado” no crescimento dos próprios bois (carne, ossos, vísceras e sebo são carbono) e nos mais de 12 milhões de hectares com sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, nos quais o gado é criado sob árvores plantadas, grandes fixadoras de carbono.
Não entra nessa conta o metano não emitido nas pastagens inundáveis do Pantanal consumidas pelos bois. Parte do capim é convertido em CO2 pela respiração e armazenado em carne.
TEMPO DAS CHEIAS
Não vira metano no tempo da cheia. Não são calculadas as emissões evitadas pela incorporação de biodiesel ao combustível fóssil do transporte de carga. Quem sabe que 20% dos mais de 5 bilhões de litros do biodiesel produzido no Brasil vêm do sebo de boi? A contribuição de pastagens e pecuária à redução de emissões urbanas é relevante na compreensão do ciclo do carbono no país. Mas quem quer compreender?
Na parcialidade dos cálculos, considera-se como emissões toda a área desmatada na Amazônia. Essa estimativa “esquece” de descontar a fixação de carbono em 183.000 km2 de floresta amazônica, em processo de regeneração. É quase um Paraná. Ou 23% de toda área desmatada até hoje.
Pior: dos 7.245 km2 de desmatamento líquido entre 2016 e 2017 atribui-se tudo aos “ruralistas”.
RESERVAS EXTRATIVISTAS
Ora, 2.921 km2, ocorreram comprovadamente em terras indígenas, unidades de conservação, reservas extrativistas ou de desenvolvimento sustentável e, sobretudo, em áreas quilombolas. Outros 1.500 km2 ocorreram em áreas públicas, terras devolutas, não atribuídas ou cadastradas. Em áreas agrícolas foram cerca de 2.700 km2. Isso não significa ilegalidade, pois 20% dos imóveis podem ser explorados. Quanto de fato é ilegal ou legítimo será estimado pela Embrapa.
CARBONO FIXADO
Ainda se despreza o fato de que nem toda a floresta cortada se transforma em emissões. A maior parte do carbono estocado em qualquer mata está na madeira. E boa parte da madeira dos desmatamentos vira vigas, pilares, móveis, portas, pontes etc. É tudo carbono fixado e não emitido. Quem se preocupa em descontar esses valores e tratar sem primarismo o tema?
Nas mudanças de uso da terra não se computa toda a fixação de carbono nos solos, promovida pelos quase 40 milhões de hectares de plantio direto. Nem a conversão dos dejetos dos suínos em biogás, energia e eletricidade.
A CANA- DE- AÇÚCAR
Como não entram na conta do sequestro de carbono a produção dos 7,5 milhões de hectares de florestas plantadas.
E a contribuição da cana-de-açúcar, tão demonizada na mídia quanto indevidamente vítima da “indústria de multas”? Sozinha, ela garante combustível renovável a milhões de veículos (etanol e anidro na gasolina); produz eletricidade limpa pela cogeração; alimenta as caldeiras da própria agroindústria e produz seus fertilizantes. Cem por cento do carbono emitido no uso de biocombustíveis, subprodutos e resíduos da cana é retirado da atmosfera pelo crescimento dos próprios canaviais. Quem faz esse balanço e tenta compreender o ciclo completo do carbono?
IDEOLOGIZAÇÃO DE CÁLCULOS
Cálculos tortos e ideologizados predispõem a opinião pública urbana contra a agropecuária, quando é das cidades que realmente saem as grandes emissões de carbono brasileiras: a queima de combustíveis fósseis sem fixação de carbono; a produção industrial à base de carvão, petróleo e gás natural; os lixões e aterros sem conversão em biogás; os esgotos não tratados; as termoelétricas a gás e a diesel; a matriz de transporte, tão dependente de caminhões; a arquitetura alicerçada no uso de ar condicionado; a falta de mobilidade urbana, com excesso de veículos parados em congestionamentos, com motores ligados. Mesmo se nossas emissões urbanas são pouco significativas quando comparadas às das cidades dos países ricos.
Quantos discutem a redução de emissões urbanas brasileiras nas COPs climáticas? E quantos arvoram seu “direito” de palpitar sobre políticas para a Amazônia?
REPOSICIONAMENTO
O novo governo não se baseará em crenças ou cálculos parciais de terceiros para traçar sua política climática. Fatos, números e mapas serão a base para ações justas com quem reduz emissões. E rigorosas com quem desperdiça recursos para disseminar fake news. É preciso reposicionar o Brasil de forma correta no ranking dos países emissores.
E negociar de modo a favorecer o desenvolvimento econômico e social do país, em lugar de pagar pelas imensas emissões passadas e atuais de outros países. Quem mais preserva sua vegetação nativa não deve ficar se explicando em fóruns internacionais só para “ganhar prêmio de redação da ONU”.
(*) EVARISTO EDUARDO DE MIRANDA, doutor em Ecologia, chefe da Embrapa Territorial (Campinas, SP)
