quarta-feira, 22 abril, 2026
HomeMemorialOpinão de Valor: curitibano Canales disseca o japonês de hoje

Opinão de Valor: curitibano Canales disseca o japonês de hoje

Dias atrás a coluna publicou, e teve grande repercussão, notícia sobre o livro que Luiz Canales, um paulistano cidadão do mundo, morador de Curitiba, ex-habitante do Japão – onde morou muitos anos – sobre a atriz Gina Lollobrigida. A obra foi editada em inglês, por primeiro. A edição em português é lida com incontido interesse por todos que amam a notável estrela.

Canales, professor de japonês e inglês, vem de família de ampla tradição circense, de origem espanhola, tal como Oscarito, de quem foi primo. Os históricos Queirolo, do Paraná, são parentes de Canales.

Mas o que mais impressiona é o testemunho que esse ex-professor da Universidade de Kyoto dá sobre a juventude japonesa de hoje e educação dos japoneses. Para ele, os japoneses são formais.

“Ser formal não é ser educado”, diz.

Leia a entrevista que ele deu à Revista Cultura, de SP, em agosto de 2014:

UNIVERSIDADE DE KYOTO

Escritor Luiz Canales
Escritor Luiz Canales

O escritor e professor e universitário Luiz Canales dá aulas de língua espanhola e inglesa na Universidade de Estudos Estrangeiros de Kyoto há quase quatro décadas. De família circense e pioneira da TV Tupi – seus avós eram fundadores do Circo Teatro Oni e Oscarito era seu primo –, ele saiu do Brasil em 1964 para estudar e trabalhar nos Estados Unidos, ficando por lá até 1974, quando foi convidado a lecionar no Japão. Autor da biografia da atriz e fotógrafa italiana Gina Lollobrigida, ele prepara para breve o lançamento de “Whip, Love & Videotapes” – The Myth of Japanese Education (Chicote, amor e fitas de vídeo: o mito da educação japonesa), no qual conta os detalhes sobre o ensino contemporâneo na terra do Sol nascente.

1 – Quais revelações sobre o ensino japonês sua publicação traz?

R – Narro o que acontece na minha sala de aula, inclusive as babaquices de muitos e as perguntas inteligentes de poucos. Exponho a ferida aberta do ensino universitário japonês, o qual deixa muito a desejar para os Estados Unidos, a Europa e a antiga União Soviética. E diria, até mesmo, para algumas universidades da América do Sul, como a Universidade de São Paulo, a Autônoma do México, ou a de Belgrano, em Buenos Aires. Isso de que aluno japonês é crânio é mito. Não digo que não haja ótimos alunos em algumas universidades do topo da pirâmide, mas são joias raras nestas ilhas.

2 – Como o chicote, o amor e as fitas, presentes no título do novo livro, se relacionam em sala de aula?

R – “Whip” é chicote imaginário, que uso para manter a ordem. Sem isso, não prestam atenção. Dormem na classe ou conversam. “Love” é o tempero que uso para não os intimidar tanto. É preciso ser uma combinação de um Che Guevara com Madre Teresa de Calcutá para conseguir algo produtivo.

“Videotape” é um de meus métodos para atrair a atenção deles e para que aprendam sem tanto falatório do professor.

3 – Mas como é o jovem japonês hoje em dia?

R – O jovem japonês não é tradicional. É totalmente desligado. Ao se formar na universidade, ele começa a fazer parte da multidão solitária japonesa, seguindo e obedecendo chefes de mais idade. Se o jovem que até ontem andava barbudo, vestindo jeans rasgado e com o cabelo tingido de verde não trocar a fantasia pelo terno escuro tradicional, camisa branca, gravata e cabelo curto sem tingir, ele não passa nem pelo portão de uma multinacional para a entrevista e nem para vender banana no mercado.

4 – Como acha que o livro será aceito por aí?

img114[2]R – Muito já foi publicado no Japão e fora dele sobre o país e seus habitantes. E a maioria desses livros é de autoria de ex-professores, ex-embaixadores e ex-diplomatas de países onde se fala o inglês. Quase todos expõem a ferida japonesa e tais obras são publicadas também no Japão. O japonês não reage. Ou são lidas por poucos ou as pessoas dão de ombros. Um ministro de Educação no Japão, o senhor Michio Nagai, escreveu em Higher Education in Japan (1978) que as universidades japonesas produzem homens que nem sabem pensar. Mesmo assim, nada mudou. Meu livro será publicado primeiro nos Estados Unidos e depois no Brasil. E, se der sorte, pode ser que seja publicado em japonês.

5- Há uma ocidentalização no life style japonês ou isso é uma postura mais de fachada?

R – É de fachada. Na vestimenta, ele quer copiar o Ocidente, mas é traído por si mesmo nos hábitos tradicionais. Dizer o que pensa é pecado mortal. O formalismo, até no falar, rouba toda a personalidade do indivíduo que em público, por valores ocidentais, é sem educação, mas formal. Há uma enorme diferença entre ser formal e ser educado. O japonês é formal.

Leia Também

Leia Também