
A reação apriorística que muitos “leitores exigentes”, criados sob o signo de uma literatura simplista e de olhar limitado às esquinas geográficas da vida poderão ter é a de lançar ‘juízos meio enviesados’ ao livro “Ensaios Escolhidos”.
Os ‘juízos enviesados’ e preconcebidos, persistente e danosa herança da terra, eu os cito baseado em anos de observação de nosso mundo cultural paranaense. Neles, equivocadamente o escritor português/curitibano João Manuel Simões foi sendo marcado por estigmas e anátemas. Na maioria das vezes silenciosamente expressos, muitas vezes até com meu cúmplice silêncio, pois ignorei a ‘avis rara’ que Simões sempre representou.
O CORTEJO
Eu mesmo, se não fiz parte do cortejo dos que gratuitamente apodavam de “velhos” os textos de João Manuel, fui pelo menos cúmplice de dito cortejo, ao deixar passar, simplesmente, a obra de Simões, importante, rara, carregada de dois ingredientes que incomodam almas parvas: saberes e visões profundos.
Clássicos valores, sobretudo.
INCOMODA
Diga-se, a bem da verdade: é sem fim o incômodo que os clássicos provocam nessa cultura de massa acolitada pela milionária indústria gestada a partir do sonho norte-americano.
Por isso, João Manuel Simões é dos que remam contra a maré dos “streamings”, “faces”, redes sociais e associados da web, o universo dominante hoje.
Definitivamente é um infenso às estripulias do digital, embora até possa, “in extremis”, digitar em algum computador (PC).
Hoje tenho algumas certezas em relação ao escritor. Uma delas, é a de que mesmo sem “brilhar” até nas instituições culturais de que é membro, João Manuel Simões é alguém que faz a exegese de nosso tempo. Isso sem retirar um til ou ípsilon de seu espírito invejavelmente bem montado.
“GONGÓRICO”
Por questão de justiça, rememoro o que testemunhei: na geração de escritores irrompida com o grupo de Paulo Leminski, que depois viraria um “must” brasileiro e com acolhimento da mídia nacional, Simões foi tido como “um velho”. Ou ‘gongórico’, alguém que, no olhar daqueles poetas e escritores nascentes nos anos 1970 (dentre eles, meu amigo Jamil Snege) não mereceria muito crédito e acolhimento.
HUMANISTA
René Dotti, alma de humanista empedernido, no prefácio do livro vai aos quês e porquês deste segundo volume de “Ensaios Escolhidos”. Na verdade, o jurista que o Brasil reconhece entre os grandes do Direito, desvenda um mundo de realidades, mediatas e imediatas que permeiam a obra. E, o que me é também importante: cita outro curitibano a quem o julgamento dos senhores da cultura ainda não deram a justa importância – Hélio de Freitas Puglielli.
PUGLIELLI
Com igual ardor, lembra Dotti, Puglielli trabalha o amplo escrutínio que Simões faz do mundo presente e daquele que gênios, como Balzac, nos premiaram.
Eu, por último, mas não menos importante recorre a uma sugestão de Paulo Francis (quando alguns se queixavam de seus textos densos “comprem um dicionário”.
E no caso de Simões, quando alguém acusa serem seus textos de Simões carregados de “vocábulos em desuso”, recomendo também: “compre um dicionário de Português”.

