quarta-feira, 15 julho, 2026
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MUNDO DO SAGRADO EXPÕE CRIMES E DESAFIA PREVISÕES

Tanto quem atacou o cristianismo quanto os que foram à forra contra Porta dos Fundos estão cometendo crimes. Veja o Código Penal.

Dias Toffoli

No final do ano e começo deste 2020 está acontecendo aquilo que os estudiosos do chamado fenômeno religioso sabem há muito tempo: as preocupações com o sagrado, com o mistério do transcendental desafiam todos os avanços tecnológicos e previsões de que a chamada “cidade secular” estaria se impondo no mundo de hoje.

Deus e seus desdobramentos seriam, pois, para esses futurólogos, um dado dispensável.

O sagrado está mais vivo do que nunca no nosso dia a dia, aqui e no resto do mundo. Por vezes, um “sagrado” até travestido em outras roupagens. Mas sagrado.

No entanto, o que se vê, olhando primeiramente o que se passa no Brasil, é que o sagrado importa. Contra ou a favor da realidade espiritual, ele importa.

E por sagrado se entenda muito mais do que o pertencimento a uma igreja ou culto. A propósito, lembro: Pew, o respeitável instituto de pesquisas dos Estados Unidos, admite que hoje, pelo menos 40% dos americanos deístas são “desigrejados”.

Quer dizer: não pertencem a qualquer igreja.

 

VILIPÊNDIO

No final de dezembro, o Porta dos Fundos foi muito além do que se poderia esperar de um grupo de humoristas, ao cometer o crime de vilipêndio a uma fé religiosa tal como previsto no Código Penal, como bem observou o jurista René Dotti em artigo especialmente escrito para esta coluna na semana.

Se é crime o que o Porta dos Fundos fez, ao vilipendiar o nome de Jesus Cristo, Maria e São José, não será menos crime o que praticaram os que, em nome de Deus, atacaram a sede do coletivo Porta dos Fundos procurando destruí-la.

Cadeia para os personagens geradores das duas situações, é o que prevê a lei, realidade que não comporta manifestações “cheias de dedos” por temer confronto com o Porta dos Fundos. Ou com predadores de todos os matizes ideológicos.

O Brasil não reclama guerras religiosas, fique claro isso.

 

DIREITO ABSOLUTO?

Os comediantes do Porta dos Fundos foram além do admissível, em nome do direito de opinar.

Ora, o mesmo STF, que acolhe o pedido da Netflix, contra a decisão do TJ/RJ, que mandara sair do ar o malcheiroso episódio, tem repetido que liberdade de manifestar opinião tem limites. Não é absoluta, claro.

O STF nunca aceitou, em redes sociais, por exemplo, críticas a seus ministros, sendo Gilmar Mendes um dos mais atacados. Chegou a criar comissão parta averiguar e punir detratores (sic).

Mas, desta vez, o presidente Toffoli não considerou esse enunciado.

 

INDENIZAÇÃO

Essa situação do Porta dos Fundos expôs descontentamentos à esquerda e à direita do universo brasileiro. A Associação Centro Dom Bosco de Fé e Cultura, do Rio de Janeiro, autora da ação contra a Netflix, foi a Justiça também pedir indenização monetária para um fundo gerido por fundos federais e estaduais. Reclamou 2 centavos de reais por cada brasileiro que se classifica como católico. E pedia mais R$ 2 milhões de indenização.

 

TRIDENTINOS

Há indicativos de que a Associação Dom Bosco, uma sociedade civil, composta por católicos ultraconservadores, é parte de um véu de praticantes do catolicismo saudosos da Igreja Católica tridentina.

Trata-se daquela igreja toda marcada pelas linhas mestras do Concílio de Trento e a observância de uma liturgia idem, como a chamada Missa de Pio V.

Com o Concílio Vaticano II, as mudanças da Igreja impuseram-se, gerando, no entanto, blocos dissidentes. O mais expressivo deles, a Fraternidade São Pio X, nascida em Êcone, Suíça, sob o comando do arcebispo Marcel Lefebvre.

 

COM BOLSONARO

Junto com a Dom Bosco despontam outros movimentos, muitos deles tendo como astro maior o mato-grossense padre Paulo Ricardo, cognominado “de Malafaia católico”, homem de sólida formação teológica conservadora, e sobre quem o presidente Bolsonaro (vive vídeo) cita como defensor de uma doutrina católica a favor do armamento dos cidadãos.

 

A FAPESP E RELIGIÃO

A propósito do sagrado: a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) publica na edição de dezembro de sua revista uma alentada interpretação do que ocorre no chamado mercado religioso brasileiro, ao analisar o impressionante avanço pentecostal no país.

A FAPESP, como ela mesmo assinala, não está concentrada em pesquisa sobre meio-ambiente. Com a análise de sua revista, vai a fundo na questão, indicando as múltiplas encruzilhadas que levaram os 90% de católicos brasileiros de 1980 terem se tornado em pouco mais de 60% nos dias de hoje.

 

OUTRAS LINHAS

Há outras linhas, um pouco mais brandas, desse catolicismo geralmente desgrudado da hierarquia, mas inconformado com a maneira como o sagrado é enfocado no Brasil. Por exemplo, a Canção Nova, poderoso movimento católico comandado por monsenhor Jonas Abib, estaria experimentando hoje dissensões que expõem contradições internas muito fortes. Uma delas, foi capitaneada por um personagem do dia da TV Canção Nova, Tiba (com a esposa), que se rebelou contra certos “modernismos” do movimento. Ele advoga o chamado “home schooling”, o direito de garantir a escolarização dos filhos em casa.

 

OS ARAUTOS

Em meio às reivindicações dentro do catolicismo sobre quem está sendo ou não ortodoxo no guardar a fé, há ainda que considerar acusações graves feitas contra organizações como “Arautos do Evangelho”, tradicionalista, herdeira de velhos cacoetes religiosos da ex-TFP (Plínio Correa de Oliveira). É dirigida por monsenhor João Clá, ex-TFP.

Uma das acusações mais fortes fica em torno de assédio moral e opressão contra os membros dos Arautos, passando, até, por alegado assédio sexual.

João Clá, Plínio Correa de Oliveira, Papa Pio V, arcebispo Lefebvre

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BOLSONARO DIVULGA VÍDEO DE PADRE DE CUIABÁ DEFENSOR DO ARMAMENTO

Jair Bolsonaro e o padre Paulo Ricardo

“Cristão não é pacifista”, diz vigário

 

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) divulgou, na última segunda-feira (07), em sua conta do twitter, um vídeo do padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior, que é vigário em Cuiabá e defende o direito da população ao armamento. Durante a campanha, o religioso apoiou a candidatura do militar reformado e disparou críticas contra a esquerda e o Partido dos Trabalhadores (PT).

https://www.youtube.com/watch?time_continue=264&v=ynl9ojDPz54&feature=emb_logo

 

Leia mais:

JUIZ ARQUIVA DUAS DENÚNCIAS DE PROPAGANDA ELEITORAL IRREGULAR DE BOLSONARO EM MT

 

No twitter, Bolsonaro compartilhou um dos vídeos do padre de Cuiabá (veja abaixo) e comentou: “Assista a reflexão do @padre_paulo sobre o assunto”. A postagem teve 23 mil curtidas, 4,3 mil retweets (compartilhamentos) e mil comentários.

 

O padre Paulo é conhecido por seus discursos contra a esquerda e o PT. Devido à sua militância, ficou conhecido como o “Malafaia dos católicos” – referência ao pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado do presidente. “Nós cristãos buscamos a paz, mas não somos pacifistas, porque somos capazes de lutar”, diz no vídeo o padre, atribuindo a declaração ao Papa VI, cujo pontificado durou de 1963 a 1978.

Na gravação, publicada em 2011 após o massacre de Realengo, no Rio, no qual um jovem de 23 anos invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira e matou 12 estudantes, entre 13 e 16 anos, Paulo Ricardo chamou a defesa do desarmamento de “crise histérica” e “pura hipocrisia”. Na ocasião, um grupo de parlamentares defendeu que o Estatuto do Desarmamento, que proíbe a venda de armas de fogo no país, fosse submetido a nova consulta popular. Em 2005 o texto foi rejeitado.

Segundo o religioso, o direito à legítima defesa é “cristão e moral”, “uma caridade”. “É algo que existe e, mais que um direito, muitas vezes é um dever. Imagine um assaltante que entra na sua casa, agride sua esposa, violenta sua filha e dilapida seu patrimônio. Você vai ter coragem de olhar na cara delas e dizer ‘sou da sua paz, não fiz nada porque sou pacifista’?”

Na visão do padre, nem todo assassinato é “pecado”. “Pecado é tirar a vida do inocente. O pecado do homicídio é isso. Não estamos tirando a vida de um inocente, mas a vida do agressor”, defendeu.

Durante a campanha eleitoral, Paulo Ricardo fez sermões em favor de Bolsonaro que viralizaram na internet. De perfil conservador, o padre classifica as discussões sobre gênero, chamadas por ele de “ideologia de gênero”, como um câncer a ser combatido e diz que o país tem cada vez mais ignorantes graças à esquerda e ao “marxismo cultural.

Na semana passada o presidente Jair Bolsonaro disse que vai facilitar a posse de armas por meio de um decreto. Segundo ele, a ideia é acabar com a subjetividade do Estatuto do Desarmamento. “Ali, na legislação diz que você tem que comprovar efetiva necessidade. Conversando com o [ministro da Justiça] Sergio Moro, estamos definindo o que é efetiva necessidade.

Isso sai em janeiro, com certeza”, disse em entrevista ao SBT. Bolsonaro adiantou que pretende tornar o acesso mais simples a moradores de localidades com altos índices de mortalidade.

(Com informações do Congresso em Foco)

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