


Nesta quinta, 4, ao meio dia, Fábio Campana ao telefona. A notícia, desta vez, não poderia ser pior: morreu Pretextato Pennafort Taborda Ribas Neto, o Tato, às 9 da manhã, quando sua fiel companheira de muitos anos, Maria do Rocio, foi levar-lhe um chá, informou-me o “Barba”.
Morreu, de certa forma, com uma ‘ideal’ visita do Anjo da Morte: ouvindo o trinado dos passarinhos, sentindo o perfume da mata de 40 mil metros de árvores nativas que emolduravam sua propriedade. Morreu naquela casa de bom gosto, na adequada Rua das Camélias, onde havia espaço para reinar seu “anjo”, Maria, ela sempre acompanhada de um bem-te-vi que não a abandonava. Naquele entorno doméstico a sensibilidade de Tato estabelecera os Jardins Cazuza e Watel Branco.
Pode haver melhor cartão de apresentação de uma alma poética?
O cenário local é elegante, como Tato, habitante daquele condomínio fechado do Mossunguê, área que um dia foi toda propriedade dele.
DINHEIRO VELHO
Tato não era homem de se afetar pelo dinheiro, embora possa eu garantir que sempre foi dono de enorme patrimônio imobiliário, que incluía propriedades tombadas no Centro da cidade – como o imóvel do histórico Bar Triângulo -, imóveis de alto valor espalhados pela cidade, como no Alto da Rua XV, e por aí a fora. Os bens materiais lhe chegaram por herança paterna. Ele nunca foi homem de ‘perder tempo’ fazendo fortuna.
Preferiu o cinema, a música clássica e MPB, o convívio com astros e estrelas do teatro (foi crítico teatral no Rio de Janeiro) e, sobretudo, partilhava longos encontros com raridades intelectuais, como o crítico Wilson Martins.
PRUDENTE E DISCRETO
Um ‘gentleman’ na melhor acepção da palavra, era a encarnação do próprio “dinheiro velho”, representante de um ‘velho Paraná’ em que fora criado com prudência, com discrição, respeitando valores trazidos de berço – como a devoção, por exemplo, à sua madrinha, Nossa Senhora de Lourdes, dado que sempre me ressaltava.
“Minha Madrinha, Nossa Senhora de Lourdes”, expunha sua devoção, que convivia muito bem com o pentecostalismo de sua mulher.
Não participou da construção do patrimônio material um dia iniciado pelo pai, Pretextato Taborda Ribas Junior, que foi dono de enormidades de terras urbanas, como a áreas dos iniciais Jardim Centenário, Los Angeles e partes do Mossunguê.
Fato concreto é que poucos paranaenses de gerações de notáveis com que conviveu, dentre outros amigos Jaime Lerner, Jayme Canet Neto, Luiz Geraldo Mazza, Norton Macedo, Nego Pessoa, Antonio Carlos da Costa Coelho, Fábio Campana, Luiz Roberto Soares, Segismundo Morgenstern, Eloi Zanetti, Eduardo Virmond, Dalton Trevisan, Wilson Martins, etc. – pôde exibir uma “folha de vida” tão rica quanto a dele.
Igual a ele, alguns; mais que ele, muito difícil de identificar.
NO DERBY DE LONDRES
Assim, multiforme e multifacetado, é pouco dizer que Tato foi testemunha privilegiada do século 20. Prefiro dizer que ele esteve em grandes momentos do Brasil e do mundo daqueles dias, desde quando o moço foi conquistando seu espaço, ora como procurador do Ministério do Trabalho, ora como jornalista; mais adiante como secretário do histórico governo de Jaime Lerner ou como repórter da Última Hora (de Samuel Wainer) e do Jornal do Brasil (da condessa Pereira Carneiro).
Dono de um inglês impecável, na fala, leitura e escrita, nisso foi também raridade entre os jovens de sua mocidade, quase sempre formados na língua de Molière.
Esse “encanto” pelo inglês britânico facilitou-lhe a vida na hora do lazer refinado, como quando assistia ao Derby de Londres; ou no trabalho, quando ia cobrir para o jornal Última Hora viagens espaciais em Cabo Canaveral ou, até, a assistir a um festival de cinema de Cannes.
UM SOBREVIVENTE
No volume 4, de 2012, do meu livro “Vozes do Paraná, em Retratos de Paranaenses”, o professor Antonio Carlos da Costa Coelho registrou um depoimento lapidar sobre Tato Taborda, dizendo, a certo trecho do artigo “Um Sobrevivente de Nosso Tempo”:
“Tato é um sobrevivente do nosso tempo. Homem culto, de cultura profunda e refinada, sem perder a simplicidade. Longe da arrogância dos imbecis.
Sabe o que estudou e o que a vida lhe ensinou. E que vida!
Traz em sua experiência mais de meio século de história pública deste país…”
Tanto quanto sobrevivente de uma geração especial, Tato viu de perto especiais momentos da política brasileira. Acompanhou, por exemplo, no gabinete do então ministro do Trabalho, Amaury de Oliveira e Silva, a movimentação de sindicalistas para garantir o governo de João Goulart.
Era um assessor muito próximo do ex-senador paranaense. O jornalista (também procurador do MP do Trabalho, que então podia exercer outra atividade) soube se conter: jamais tornou públicos detalhes daqueles dias terríveis que acompanhou muito de perto e que redundaram no golpe militar de 1964. A amizade e a lealdade falaram mais do que o espírito do repórter que um dia chegou a se especializar em energia nuclear.
“IRRITANTE JUIZ”
Nos últimos anos, alquebrado, sempre amparado pela mulher que – de fato – foi vital para ampliar seus dias na Terra, Tato ainda achava tempo para escrever. Um dia me entregou uma apreciação sobre a Reforma Trabalhista. Veio, mais uma vez, ao meu apartamento, nos concedemos tempos até para digressões. Uma delas, o marco que foi ter ele presidido o TRT da Nova Região, em que depois, aposentado, atuava por vezes como voluntário na montagem do material de memória da justiça do trabalho local.
Fiel aos amigos, nunca proferia juízos pesados sobre eles; sempre tinha uma palavra de apoio a tipos políticos muito controvertidos, como Roberto Requião, de quem chegou a ser próximo.
Seu senso de justiça era enorme, se mostrava a partir de amplas argumentações lógicas, não deixava um centímetro para dúvidas quando proferia suas apreciações sobre pessoas e fatos. “Chegava a ser irritante”, como diz Antonio Carlos da Costa Coelho.
Era um “irritante” absolutamente fraterno, carinhoso, disponível, um sábio com ampla visão retrocognitiva e com olhar voltado para o futuro, de que é exemplo o esforço que fazia por manejar bem a web e o mundo digital. Não eram seus parceiros. “Mas não posso ignorá-los”, disse-me, certa vez.
Eis aí alguns pedaços de Pretextato Pennafort Taborda Ribas Neto, peça de impossível reposição.
