
O jornalista e historiador paranaense Milton Ivan Heller morreu nesta quarta-feira (22), aos 86 anos. Para os amigos era Milton Ivan, o Terrível.
Viveu até o fim de seus dias na chácara que escolheu como residência e onde gostava de se cercar de livros e memórias. Era um redator de longas laudas, mas no início de carreira ganhou a fama de “escrever pouco”. Uma heresia. Ele batia, sôfrego, a máquina de escrever e tirava dela o dobro do que o editor lhe exigia.
PAI COMUNISTA
O pai, João Heller, era descendente de russos brancos e comunista de carteirinha. Foi o responsável por organizar o Partido Comunista no Paraná e em outros estados do país. Quando não estava na “clandestinidade” ou preso, era lateral esquerdo do Ferroviário F.C., funcionário da Rede Ferroviária e da Panair.
LONGAS CARTAS
Em 1949, Milton Ivan voltou a Curitiba depois de uma estada forçada no Rio de Janeiro e, mesmo sem uma educação formal, passou a percorrer as redações dos jornais em busca de emprego. Seu currículo incluía cartas e mais cartas escritas à família.
DE PORTA EM PORTA
Foi preso no dia do golpe militar de 1964, em 1º de abril, junto com uma leva de jornalistas, funcionários do jornal “Última Hora”, o único a apoiar o presidente João Goulart. Foi um aprendizado político. Impedido de trabalhar nas redações, vivia de trabalhos ocasionais.
Vendeu tapetes, de porta em porta, e livros, que os amigos compravam até quando eram ruins.
PLANTÃO
Só em 1968, livre dos processos, voltou aos jornais. Trabalhou no Diário Popular, no Diário do Paraná e na sucursal do Jornal do Brasil. Em O Estado do Paraná fez plantão por dias seguidos, até que alguém que sequer era seu amigo, o colunista Luiz Alfredo Malucelli, morto em 2014, intercedeu por sua contratação.
FASE ÁUREA
No início da década de 70, Milton Ivan viveu sua melhor época como profissional de imprensa. Trabalhou na revista Placar, da editora Abril e, em 1973, coordenou a equipe de jornalismo da Globo, em Belo Horizonte.
AMPLEXOS
Era um osso duro de roer. Os colegas o tachavam de ranzinza, mas um ranzinza que fazia graça. À documentação histórica que colecionava em pastas e gavetas deu o nome de “arquivos implacáveis”. Nos bilhetes que escrevia às pressas aos colegas, deixava lá, acima de sua assinatura o cumprimento bem ao seu estilo: “Amplexos”.
COMPUTADOR ‘IANQUE’
Quando a tecnologia começou a invadir as redações, no fim da década de 89, ele viu no computador um inimigo capitalista a serviço do imperialismo ianque. Vivia às turras com o teclado, às turras com o monitor, às turras com a necessidade de salvar os textos. Quando perdia os 14 mil caracteres que havia escrito, punha-se vermelho como uma bandeira comunista, rubro como a listra que intercalava o preto de seu coração atleticano. Ele não fazia concessões à sua indignação.
IDEIAS E PRINCÍPIOS
Em 1989, depois de 40 anos de redação, Milton Ivan, o Terrível, aposentou-se. Continuou, entretanto, a colaborar com os jornais ao mesmo tempo em que se dedicou a escrever livros históricos. O mais importante deles, “Resistência Democrática – A Repressão no Paraná”, tornou-se um clássico. Houve outros. Em 2014, publicou “A CIA e a Quartelada” e “A Atualidade do Contestado”. Sempre seguro de suas ideias e princípios. Ele jamais agiria diferente.
