O Globo – Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, o jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras Zuenir Ventura. A causa da morte, segundo a ABL, foi uma pneumonia. O corpo será velado amanhã na Academia Brasileira de Letras, no Centro do Rio, e enterrado no mausoléu da ABL no Cemitério São João Batista.
Zuenir Ventura deixa a mulher, Mary Ventura e os dois filhos do casal: o jornalista Mauro e a editora Elisa. Seus principais e mais marcantes livros são obras fundamentais de reportagem, memória e não-ficção brasileira:
- 1968 – O Ano que Não Terminou (1989): Sua obra mais famosa, que reconstrói o período de forte repressão política e mobilização estudantil no Brasil que culminou no AI-5. O livro inspirou a minissérie Anos Rebeldes da TV Globo.
- Cidade Partida (1994): Relato profundo sobre a violência urbana e a desigualdade no Rio de Janeiro, escrito após meses de convivência na comunidade de Vigário Geral. Ganhou o Prêmio Jabuti.
- Chico Mendes: Crime e Castigo (2003): Investigação que revisita o Acre quinze anos após o assassinato do líder seringueiro, analisando as transformações políticas e sociais da região.
- 1968 – O que fizemos de nós (2008): Continuação de sua análise sobre a famosa geração de 1968, avaliando os legados e os rumos tomados pelos personagens daquela época.
- Minhas histórias dos outros (2005) e Sagrada Família (2020)
Trajetória
Filho de José Ventura, pintor de parede, e Herina de Araújo, dona de casa, Zuenir Carlos Ventura nasceu no dia 1º de junho de 1931, no município mineiro de Além Paraíba. Aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na região serrana do Estado do Rio. Sem descuidar dos estudos, até porque essa era uma exigência da mãe, Zuenir ajudava o pai no ofício, chegando a trabalhar também como office-boy.
Já adolescente, ele ganhou uma bolsa de estudos no colégio, em troca de dar aulas para as crianças do então primário. Foi nessa época que começou a alimentar o sonho de ser professor. Aos 20 anos, mudou-se para o Rio, onde cursou Letras Neolatinas na Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ).
Na faculdade, Zuenir teve aula com nomes importantes da literatura do país, como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. Outro personagem importante, Celso Cunha, professor da Faculdade de Jornalismo da UFRJ, convidou-o para dar aulas de português, e o mestre Hélcio Martins conseguiu indicá-lo para uma vaga como arquivista da Tribuna da Imprensa. Não demoraria para se tornar repórter.

“Tudo na minha vida aconteceu por acaso. Fui ser professor por acaso e descobri a minha vocação defendendo o meu dinheirinho. Eu estava trabalhando no arquivo (da Tribuna da Imprensa) alguns anos, e o Hélcio (Martins) sempre insistia para eu descer para a redação. Carlos Lacerda era o diretor do jornal e um dia estava procurando alguém na redação para escrever um artigo sobre (o escritor e filósofo franco-argelino) Albert Camus, que tinha morrido em um desastre. Eu estava passando e me candidatei, porque o Camus era uma das minhas paixões jornalísticas”, contou Zuenir em depoimento ao site Memória Globo em 2011.
Desde o texto sobre Camus, no ano de 1960, Zuenir nunca mais deixou as redações de jornais do país — conciliando seu tempo com as salas de aula. Durante décadas, foi professor da Escola de Comunicação da UFRJ e da Escola Superior de Desenho Industrial, ganhando o apelido de Mestre Zu. Amável no trato com os alunos e rigoroso em relação aos trabalhos apresentados, ele sempre manteve o espírito crítico sobre seu ofício.
Mundo acadêmico à parte, Zuenir também fez história na imprensa, ocupando vários cargos de comando. A partir da década de 1960, e depois de uma temporada na França como bolsista no Centro de Formação de Jornalistas, de Paris, Zuenir foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação da revista Fatos & Fotos, chefe de reportagem da revista O Cruzeiro, editor-chefe da sucursal Rio da revista Visão. Em 1967, foi um dos criadores do jornal alternativo O Sol.
Histórias reais
Mesmo com a difícil tarefa de gerenciar equipes de jornalistas, Zuenir nunca deixou de lado a verdadeira vocação: apurar e escrever histórias reais. De preferência, deixando a redação e indo para as ruas atrás de boas fontes.
“Nada substitui o olho no olho. Muitas vezes, o silêncio em uma entrevista fala mais do que as palavras”, afirmou ele em entrevista à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo em 2008.
“A gente fornece matéria de primeira mão, aquilo que a gente vê primeiro, para o historiador trabalhar depois. É um trabalho de garimpagem, de campo, vendo o que aconteceu, registrando. É um trabalho humilde, modesto, de preparar matéria-prima para o historiador aprofundar”, disse ele ao Memória Globo.

O olhar atento à agitação política e social da década de 1960, no Brasil e no mundo, fez de Zuenir um “especialista” da época, como mostraria seu livro “1968 — O ano que não terminou”, lançado em 1988 e que continua sendo reeditado. Sucesso de crítica e de público, a reportagem dissecava, duas décadas depois de os fatos terem ocorrido, o país que entrava na fase mais violenta da ditadura militar iniciada em 1964. Traçando o cenário cultural e político daquele ano, a obra serviu também de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”, produzida pela TV Globo e que foi ao ar em 1992.
— A sensação é de que 1968 não foi um ano, mas sim um personagem. Tanto que, 50 anos depois, continuamos falando, comentando, explicando o que aconteceu. E é um personagem que não sai de cena, tamanha a fixação — disse Zuenir ao GLOBO em 2018.
Livros e prêmios
Ainda em 1989, após um mês de apuração, o jornalista produziu uma série de reportagens sobre o assassinato do seringueiro e líder ambientalista acreano Chico Mendes (1944-1988) para o Jornal do Brasil. O material venceu os prestigiosos Prêmio Esso e o Vladmir Herzog de jornalismo daquele ano e seria publicado em livro, devidamente atualizado pelo autor, em 2003 (“Chico Mendes – Crime e castigo”).
Outra reportagem de fôlego dele que repercutiu em todo o país foi “Cidade partida”, publicada como livro em 1994 e que receberia naquele ano o Prêmio Jabuti, o mais importante do mercado editorial brasileiro.
Em 2008, o jornalista publicou “1968: O que fizemos de nós”. A extensa reportagem, bem ao estilo Zuenir, revisita os ideais que balançaram os anos rebeldes retratados por ele 20 anos antes, e faz um contraponto ao comportamento dos jovens deste início do século XXI, abordando novos costumes e temas como o corpo, as drogas e a política.
