
De todas as informações obtidas ao longo das notícias envolvendo o fim da edição impressa da Gazeta do Povo, talvez a mais substancial tenha sido a de ordem tecnológica. O jornal, há meses, vinha negociando a renovação de um software exclusivo para o formato digital (conforme eu adiantei detadalhadamente em fevereiro, sozinho, por mais de uma vez). O impresso já estava descartado. A informação de que o jornal passava a atender apenas a plataforma eletrônica ou “mobile first” no inglês pomposo que serve para definir, a nós brasileiros, o que é moderno, só confirma isso.
PERDAS E MUDANÇAS
Claro que uma acomodação tecnológica gera mudanças nas relações de trabalho. E até mesmo dispensas. Assim como o diagramador deu lugar ao paginador eletrônico, desta vez é o paginador quem é substituído pelo software digital. As demissões incluem também todos os funcionários do parque gráfico. O destino da rotativa da Gazeta é nebuloso. Como a sede não será mais na Praça Carlos Gomes e a Fabrika, que ficava no Alto da XV, será desativada, o novo endereço talvez seja o bairro do Mercês, na antiga sede da ÓTV, o canal a cabo do grupo que finou-se há dois anos.
A sede no Alto da XV, que outrora foi o endereço da velha Fábrica de Metros, pertence à senhora Elza Lemanski, viúva de Henrique Lemanski, sócio de Francisco Cunha Pereira na formação do grupo GRPCOM.
FORMATO REVISTA

Carl Bernstein: Watergate
O ar de pessimismo daqueles acostumados ao jornal impresso talvez deva ser relativizado. Há muito, duas décadas ao menos, já se discutia o futuro do jornalismo no mundo. E ele não passava pela edição em papel. As revistas certamente serão o último bastião de resistência. A Gazeta propõe-se a lançar edição semanal em formato revista. Se concentrar-se em análises e reportagens de fundo, pode dar certo. Por que não? Precisará ter – não esquecer – muita qualidade, e ser um diferencial local em meio aos muitos títulos de revistas que ainda circulam.
VERDADE DIGITAL
A questão está na internet, no modelo de negócios a ser implantado e na filosofia. E esta não pode passar pelo lema “minha terra, minha gente”. Nem pela publicação de um receituário cívico-moral. O que se quer é a melhor versão da verdade, como disse o jornalista Carl Bernstein (do Caso Watergate).
Verdade nua e crua só mesmo na filosofia, convenhamos.
OS MACAMBÚZIOS
Por fim, para quem dá importância às efemérides, o Dia do Jornalista, 7 de abril, não é exatamente feito para juntar o churrasco com o vanerão. “Serve, entretanto, para lembrar que, ao tempo em que a profissão surge tão derrotada, macambúzia, desenxabida, nunca houve profissional tão apto a prazos, tão dedicado à informação precisa, tão propenso a cumprir expedientes longos, tão afeito a fins de semana de trabalho”, como opina o jornalista Marcus Vinicius Gomes, que será o editor do livro “Encontros do Araguaia”.
