quarta-feira, 6 maio, 2026
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Lula e PT buscam espaço entre evangélicos

Na verdade, a tentativa é de uma volta aos anos em que os evangélicos das maiores denominações religiosas, apoiaram o PT, Lula e Dilma. Mas a reaproximação causa “frissons” entre aguerridos apoiadores de Bolsonaro, como Silas Malafaia, fundador e controlador de uma das Assembléias de Deus, a Amor em Cristo.

 

Não me surpreendeu a foto estampada numa das páginas nobres do jornal Folha de São Paulo, edição deste 17 de junho, em que aparecem de mãos dadas – em suposta atitude de oração – o presidente da Assembleia Legislativa do RJ, o petista André Ceciliano, a deputada federal Benedita da Silva, Lula, o bispo da Assembleia de Deus Manoel Ferreira e a deputada Gleisi Hoffmann, PT-PT, presidente da sigla. Afinal, muitas vezes cena como essa, de religiosos em torno do petista foram comuns em torno do líder Lula e ao seu partido.

O que incluiu, até, o apoio às claras de grandes igrejas, como a de Edir Macedo, hoje um ferrenho opositor do ideário petista. Afinal, arquivos nas nuvens estão aí mesmo para acesso a quem interessar possa… Quantas vezes não vimos pastores de várias igrejas entregando bíblias e orando, no Palácio do Planalto – e em outros endereços – com Lula e Dilma? Já a CNBB, com a sabedoria milenar da Santa Madre, preferiu a discrição, mas sem jamais deixar de andar junto com Lula e Dilma.

O que ocorrer agora, no entanto, com a adesão dos evangélicos a Jair Bolsonaro é uma parceria mais ou menos maciça. Ou muito expressiva: em cada 10 evangélicos, seis teriam votado nele em 2018, numa campanha de abominação “à roubalheira, à corrupção do PT”. Aliás expressão igual a essa foi usada por Malafaia ao saber que o velho bispo – Manoel Ferreira, 89 -, semi-aposentado da Assembleia de Deus Ministério Madureira abriu os braços para Lula. Na verdade o império da AD Madureira está nas mãos de dois filhos de Ferreira, ungidos bispos pelo pai. Eles desmentem qualquer adesão ao PT, e fazem, juras de fidelidade incondicional ao presidente Bolsonaro.

Pastor Silas Malafaia

SENSIBILIDADE DE LULA

Goste-se ou não de Lula, o certo é que é dono de uma perspicácia muito rara no mundo político. Parece ter nascido com o resumo de todas as práticas que têm de ser colocadas a seu dispor. É um sociólogo de raro valor, que nem as clássicas definições de Fernando Henrique Cardoso (os dois andam de bem, no momento), conseguem explicar.

Quem conhece um mínimo do mundo evangélico brasileiro, e sua consolidação a partir dos anos 1980, sabe que não se pode falar em “Igreja Evangélica”. Isso é apenas figura de linguagem tentando dar unidade a uma multidão de crentes que, na maioria das vezes, pouco têm em comum entre si.

Muitas vezes essas denominações – milhares de igrejas entre grandes, médias e mini-igrejas – se digladiam entre si. Um dos pontos de separação é o aborto (que a Universal aceita), e sobretudio os chamados “usos e costumes”.

É aquela briga por saber se as tradições dos crentes, com relação a vestuário, “diversos do mundo”, incluindo cortes de cabelo – fazem ou não parte da verdade evangélica. Lula sabe que o cacique Manoel Ferreira (que por vezes tentou, em vão, cargo eletivo) está aposentado.

Mas sabe também que o velho pastor é ainda uma referência nesse universo em que cabe a pluralística igreja fundada pelo Pastor Godin, uma “filha” da AD Madureira, tem grandes avanços no mundo da política e totalmente desligada da dita tradição.

O ENDEREÇO É AMPLO

Acho que Lula está apenas começando sua catequese do povo evangélico. Ele sabe que a linguagem a usar e os cuidados a tomar são muito distantes daquele núcleo de padres católicos e irmão leigos que o abrigou em Santo André. Como Lula está apenas no começo de seu itinerário em busca da seara evangélica – copiosa em votos -, acho que logo ele tomará outras direções além do povo pentecostal.

Se bem o conheço, acho que o carismático Lula terá de se flexionar em gestos de simpatias e afagos a uma denominação que talvez tenha 3 milhões de adeptos, a Igreja Presbiteriana do Brasil, herdeira – de alguma forma – do ideário dos “Pais Peregrinos”, que colonizaram os States.

André Mendonça, pastor presbiteriano

FOGO PRESBITERIANO

Não se meça, no entanto, o poder de fogo dos presbiterianos do Brasil (há diversas denominações presbiterianas, no Brasil e no mundo) pelo número de sua membros. “Não pescamos no aquário”, responde-me, sobre sua Igreja um reverendo de Curitiba, um dos gestores do Instituto MacKenzie. Os presbiterianos – deve saber Lula – terão em André Mendonça, pastor da Igreja em Brasília e agora na AGU, o novo ministro do STF ao qual Bolsonaro indicará. Já têm o ministro da Educação, pastor em Santos,SP.

Dom Cláudio Hummes

Essas são realidades que o olhar educado desse etnógrafo e sociólogo popular , que nunca foi além do curso primário, deve estar avaliando bem nesta hora. Afinal, Luiz Ignácio Lula da Silva é dos que imaginam que o campo está livre para suas aventuras eleitorais, diante das contradições do atual Governo. Será? E ele está apenas começando. Dizem que “ até começou a decorar trechos inteiros da bíblia, para “exibição” em momento oportuno”. Pode ser.

Antes, ainda dizem , foi se assessorar de seu amigo frei Betto (pois não encontrou dom Cláudio Humes, que está no Vaticano) sobre qual melhor tradução da Bíblia para atender ao seu provável novo segmento eleitoral. Ganhou a tradução de João Ferreira de Almeida.

Frei Betto

PARANÁ EM DIAS DE LULA

O Paraná esteve mais ou menos bem representado no governo de Lula. Ricardo Barros, por exemplo, foi vice-líder do Governo na Câmara. Mas a grande estrela paranaense ao lado de Lula foi sempre Gilberto de Carvalho, que chegou a ministro e depois emplacou uma irmã como ministra de Desenvolvimento Social. Gilberto começou a vida como seminarista católico da Congregação dos Padres Palotinos, que têm um enorme seminário no Cajuru, visível na saída da rodovia para Paranaguá.

Gilberto Carvalho: interlocutor privilegiado

Jovem, uns 19 anos, ele freqüentava a redação do jornal Voz do Paraná, que eu dirigia. Vinha sempre acompanhado de Francisco Alves dos Santos, outro pé vermelho, como ele. Os dois batiam ponto naqueles anos iniciais da década dos 70 na redação do jornal. Opinavam, escreviam, tinham opinião crítica sobre a formação sacerdotal.

Gilberto cedo, na carreira eclesiástica, assumiu uma posição radical, de acordo com aqueles dias de “inserção na vida do povo de Deus”. Foi morar na Favela do Rio Belém, passou uns dois anos por lá. Quando deixou a favela, deixou a vida de estudante seminarista. Em seguida casou-se e, abrigado por dom Pedro Fedalto, ele e a esposa dirigiram a Pastoral Operária.

Francisco Alves dos Santos voltou-se à crítica de cinema, e foi estudar Jornalismo, também deixando a vida eclesiástica. Chico sempre foi mais introspectivo do que Gilberto que, nas funções da Pastoral Operária, não teve dificuldades em envolver-se com o mundo da política. E com o PT, de forma especial.

Em poucos anos Gilberto Carvalho estava dirigindo uma fundação do PT destinada à formação de Quadros, a Fundação Palmares. Em âmbito nacional. Depois, envolvente como poucos, Gilberto foi ganhando todo mundo do primeiro escalão do PT, tornando-se dileto parceiro de Lula e, mais tarde, seu ministro mais próximo. E permanecendo com Dilma, sem os privilégios de antes.

A vida pública de Gilberto Carvalho não foi só de glórias: teve seu nome insistentemente citado como envolvido na morte do prefeito Celso Daniel, um mistério que até hoje incomoda os petistas. Fato é que nada se provou contra Gilberto no episódio Celso Daniel. Hoje, sabe-se, está com cargo na bancada do PT no Senado. Quieto. Por ora.

Mas do jeito que as coisas vão, logo se ouvirá o ressurgimento do Carvalho e sua capacidade de gerar grandes trunfos a Lula, como fez no passado. O mais forte deles, com certeza, foi abrir e manter o apoio da CNBB ao presidente.

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