
O ineditismo do primeiro metalúrgico eleito presidente do Brasil dá lugar, uma década e meia depois, ao ineditismo do Lula condenado. Nunca antes na história. A sentença de nove anos e meio dá, enfim, ao petista a condição de mártir que arrogava para si. Ele fará mais. Deve afirmar em seus discursos que é um preso político e provavelmente erguerá o punho cerrado como fizeram os companheiros José Dirceu e José Genoíno no caso do Mensalão.
A verdade é que nunca antes um partido se apossou tanto da máquina pública como fez o PT. Apossou-se do aparelho do Estado e, no cerne dele, de suas estatais ricas e sobejamente fartáveis (ou furtáveis).
Não se sabe se Lula é o chefe da quadrilha do Petrolão como anunciou o procurador Deltan Dalagnol em powerpoint famoso. Talvez seja um de seus artífices. Até porque não se monta uma estrutura gigantesca de corrupção sem que o principal mandatário do país não tenha dela o mínimo conhecimento. É possível, mas não é crível.
TRÍPLEX
Lula foi condenado pelo tríplex do Guarujá num caso que não tem relação direta com a Lava-Jato, mas cujo prédio que o abriga na cobertura foi erguido por uma das empreiteiras, a OAS, beneficiada diretamente no esquema. Na lista de favores e contrapartidas, a OAS construiu, reformou e mobiliou o apartamento – “um Minha Casa, Minha Vida de três andares”, segundo o ex-presidente – conforme orientação e desejos estritos do casal Lula da Silva.
Lula ainda responde a mais quatro ações. E não se sabe o que virá. Se a sentença do juiz Sérgio Moro for confirmada no Tribunal Regional Federal da 4ª Região, ele se tornará inelegível e pode ser preso imediatamente. Isso certamente não se dará em curto prazo. É provável que só ocorra em 2018.
Enquanto o dia não vem, o ex-presidente deve se transformar em um personagem de literatura de cordel. Será o santo na peleja com o diabo. O mártir no enfrentamento com os ímpios. O anjo de candura a dar o sangue pelo sangue dos desafortunados. A essa altura, não se sabe como, ele irá apresentar a sua defesa pública. Agora mesmo deve estar sendo armado, em algum lugar, um palanque para que o menestrel dos movimentos populares, o pai das causas sociais, embale o seu discurso com a voz rouca de líder operário que só foi condenado porque ousou enfrentar as elites desse país. Conta outra.
