domingo, 10 maio, 2026
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Livro revela documentos inéditos da queda de governador do Paraná

Operação Erva-Mate foi o golpe final no governo de Leon Peres

 

(Com informações encaminhadas pela editora do livro)

“Estamos decepcionados com o senhor”. Esse estamos, no plural, significava muito vindo de um coronel e queria dizer que o Regime Militar de 1964 já não mais confia no governador que indicou para comandar o Paraná. O mês era novembro de 1971 e Pércio Ferreira, o coronel, era secretário de Segurança Pública do governo paranaense e soltou essa frase no Palácio Iguaçu numa audiência com o governador Haroldo Leon Peres. Onze dias depois, pressionado e sem a confiança de quem o “bancou”, o presidente Emílio Médici, Leon Peres renunciou ao governo do Paraná.

A história da única renúncia de um governador “eleito” pelas regras dos militares que tomaram o poder em 1964 é contada no livro que será lançado no próximo dia 23 de novembro, terça, às 19h, no ParkShopping Barigui, em Curitiba. Novembro marca dos 50 anos do ato da renúncia.

Leon Peres chegou a esta situação após ser investigado pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) na Operação Erva-Mate. Esta ação do serviço de inteligência começou depois de uma denúncia, formal e escrita, do empreiteiro Cecílio do Rego Almeida cuja empresa tocava a obra da Estrada de Ferro Central do Paraná. Cecílio foi alvo de pedido de propina feito pelo irmão do governador, Murillo, que era chefe do Escritório do Paraná no Rio de Janeiro.

“FORA DOS PADRÕES”

Cecílio achou a proposta indecorosa: ela era muito alta, fora dos padrões. Depois as negociações foram assumidas por Jeronimo Thomé da Silva, chefe de Gabinete de Despachos no Palácio Iguaçu, cargo criado especialmente para ele, mas Cecílio já havia “aberto o bico” para o SNI.

A obra, com 650 páginas, escrita por Jair Elias dos Santos Júnior e Jean Luiz Féder, traz a público documentos e fatos inéditos sobre esse período conturbado da história política paranaense e nacional. O livro revela, também, informes secretos da Embaixada dos Estados Unidos que leva ao governo norte-americano as escaramuças entre Leon Peres e o ex-governador Paulo Pimentel que passou o mandato a Peres. Ambos eram do mesmo partido do presidente da República, a Arena.

A primeira entrevista de Leon Peres ao deixar o governo veiculada pela revista “Quem” em novembro de 1979, é reproduzida no livro com as 121 laudas originais revisadas por Leon Peres, condição que colocou para dar a inédita entrevista, mostrando os trechos que suprimiu.

“1971 – Conspiração, conflitos e corrupção: a queda de Haroldo Leon Peres” está sendo vendido a preço promocional de R$ 59,90 em pré-lançamento no https://novahistoriapr.com.br/projetos/leon-peres-1971/

FUI TESTEMUNHA

Por Aroldo Murá G.Haygert

Em 1971 eu comandava, por delegação de Ayrton Luiz Baptista (in memoriam”, um grupo de trabalho informal, instalado no primeiro andar intermediário (assim chamávamos aquele lance) do Palácio Iguaçu. A entrada dava-se pelo espaço que hoje da Vice-Governadoria. O serviço, que os colegas apelidaram de “laborão”, envolvia gente conhecida do jornalismio, como José Dionísio Rodrigues, João José Werzbitski, Celso Nascimento, Antonio Nunes Nogueira, Luiz Augusto Juk, entre outros colegas. A “obrigação” de cada membro do “laborão” era entregar, diariamente, matérias favoráveis ao Governo, a partir de material colhido – com toda veracidade -, nas secretarias. A ideia era produzir com a agilidade e qualidade, aquilo que o corpo estável da então “Sub-Chefia de Comunicação Social da Casa Civil do Estado não realizava.

O Ayrton por vezes descia de seu trono, ao lado governador e vinha conversar conosco. Era atendido, na entrada, pelo office-boy, um piazinho, magro, ágil, educado, diligernte. Seu nome, Paulo Juk, que depois se tornaria um dos nomes icônicos do rock paranaense, liderando o grupo Blindagem.

Depois que cumpria meu expediente no palácio, ao meio-dia, e no fim da tarde, eu corria para o jornal Voz do Paraná, que eu já ajudava o médico Roaldo Koehler a imprimir novo sopro jornalístico, moderno, renovador. Ficava ali perto, na Rua Francisco Scremin, Ahú de Baixo.

Naquele dia de 1971 fui chamado por Ayrton para acompanhá-lo ao gabinete de Haroldo Leon Peres, o governador, que estaria se despedindo do cargo. Para mim foi um choque.

No caminho para sala do governador, encontrei o coronel |Haroldo Carvalhido, que tinha sido meu professor na Universidade Católica, hoje PUCPR. “Ladrão de galinhas, Aroldo. Um ladrão de galinhas”, exclamou o linha dura, mas boa gente, que estava acostumado a conviver com “subversivos”. Mas não se defrontara, até então com “um corrupto de alto coturno”, como afirmou.

Ouvi a leitura de Haroldo Leon Peres feita com voz segura, mas sem esconder emoção. O grupo era pequeno, umas 30 pessoas. Quando sai dali, depois de redigir os textos sobre a “tragédia” – devidamente dourados pelo mestre Ayrton -, fui direto para a redação de Voz do Paraná, o semanário católico do qual acabei diretor. Lá fui tomar outras providências.

Dias depois, Voz do Paraná estourou nas bancas e nas vendas em portas de igrejas católicas (tinha 20 mil exemplares de circulação semanal). Foi o único periódico do Estado a furar a censura da Polícia Federal: demos, na íntegra a reprodução da matéria republicada com todos os detalhes da denuncia da maracutaia do governador contra Cecílio Rego Almeida.

Parte dessa realidade esta registrada no livro “(Jornal Voz do Paraná, uma história de resistência) , de Diego Antonelli, um precioso livro que colova o jornal na sua correta posição na história de nossa imprensa.

Capa do livro “Jornal Voz do Paraná, uma história de resistência”
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