
O Brasil há muito apostou quase todas as suas fichas na ignorância.
O incêndio do Museu Nacional, instituição com feições respeitáveis universalmente – comparado ao Smithsonian -, só teve um “mérito”: escancarou nosso alheamento amplo e irrestrito, particular e público, com relação aos nossos poucos centros produtores de ciência e conhecimento em geral.
O fogo mostrou à Nação que havia na Quinta da Boa Vista um mundo de produção científica sendo trabalhada em pesquisas, a par de milhares de peças preciosíssimas relatando a caminhada do homem e outros seres vivos pela face da Terra.
Eureka, esse fogo é similar ao do purgatório, definido depois de muitas controvérsias, nascido na Idade Média: deveria resultar em benefício final, redenção de uma nação mesmerizada pelo lúdico.
DEVERIA…
Esta terra brasilis, que prioriza a cultura pop, redes sociais plenas de irresponsabilidade, o canto fácil das musas e musos endeusados pelos shows de televisão diários ou os gols do “fantástico” é o ‘locus’ adequado para o espírito de Nero que hoje preside a Nação.

Citando o incendiário de Roma, me reporto à mensagem oportuníssima do Instituto dos Advogados do Paraná sobre a tragédia.
O Hélio Coelho Junior, do IAP, com sua mensagem, reforça a outra, que recolho de outro Coelho – o professor Antonio Carlos Costa Coelho-, relatando o absurdo de R$ milhões liberados pela Lei Rouanet para shows como os de Luan Santana, espetáculos meramente comerciais, e Maria Bethânia.
Enfim, o Brasil pode chocar, mexer com a gente, comover-nos. Mas exagera quem disser que ele nos surpreende.
A propósito: quem tem ouvido dos candidatos a cargos públicos exporem suas agendas culturais, se é que as têm?
Mas os que tiverem propostas para a área só não nos proponham sucessões de espetáculos que, em última instância, reforçariam apenas o espírito de “panis et circensis” que há muito embala a Nação.
