
Morto em 8 de junho de 2012, em Londres, supostamente, de um ataque cardíaco fulminante, enquanto vagava sozinho pelo apartamento, provavelmente à cata de alguma ideia esvoaçante, Ivan Lessa foi-se.
Atribui-se ao escritor, que era antes de tudo um “ivan terrible”, a ideia de que o Brasil esquece tudo o que aconteceu nos últimos 15 anos.
Ele, que saiu do país em 1978 para se radicar em Londres — de onde só voltou uma vez —, perdeu em seu autoexílio a condição de protagonista do jornalismo e do pensamento nacionais que tinha, por exemplo, em seus tempos de “O Pasquim”. Mas nunca deixou de ser louvado por seus pares como um dos grandes prosadores brasileiros, dono de um estilo inconfundível em que se combinavam sarcasmo, erudição e incorreção política.
NASCIDO EM SÃO PAULO, CRIADO NO RIO
A vocação para a escrita tinha traços genéticos. Ivan Pinheiro Themudo Lessa era filho do escritor Orígenes Lessa e da cronista Elsie Lessa, colunista do Globo por cinco décadas. Nasceu em São Paulo, mas foi criado no Rio, e a vida carioca dos anos 1940 e 1950, sobretudo na Zona Sul, era constantemente referida em seus artigos.

PERSEGUIDO
Em 1969, participou da criação de “O Pasquim” ao lado de Jaguar, Sérgio Cabral (pai), Millôr Fernandes, Paulo Francis, Henfil, Tarso de Castro e outros. Abusando de humor e inteligência, o jornal se tornou um forte meio de contestação ao regime militar, que o perseguiu com censuras de textos e prisões de seus responsáveis.
GIP! GIP! NHECO! NHECO!
Sig, o ratinho-símbolo do tabloide, foi criado por Ivan e Jaguar. O jornalista também assinou colunas como “Gip! Gip! Nheco! Nheco!”, “Fotonovelas” e, já na fase inglesa, os “Diários de Londres”. Entre colunas, reportagens episódicas e resenhas literárias, Ivan escreveu para as revistas “Senhor”, “Veja” e “Playboy” e os jornais “Folha de S.Paulo”, “Estado de S.Paulo” e “Jornal do Brasil”, entre outras publicações.
CORRESPONDÊNCIA
Também manteve no portal UOL, em 2000 e 2001, uma correspondência com o jornalista Mario Sergio Conti, reunida no livro “Eles foram para Petrópolis”, lançado pela Companhia das Letras em 2009.
DA FUZARCA
Livros assinados apenas por ele foram só três. “Garotos da fuzarca” (Companhia das Letras, 1986) reuniu 15 contos e “histórias”, como ele classificou. “Ivan vê o mundo” (Objetiva, 1999) e “O luar e a rainha” (Companhia das Letras, 2005) eram conjuntos de crônicas escritas para a BBC Brasil.
BANANÃO
Ele trabalhava para o serviço brasileiro da rede britânica de comunicação desde sua mudança para Londres. Escrevia três crônicas semanais, quase todas com ironias dirigidas ao Brasil e aos costumes ingleses. Chamava seu país natal de “Bananão”. Dizia odiar a informalidade dos compatriotas, nossa maneira de conversar tocando nos outros. Politicamente, era crítico em relação a todos os lados.
JUBILEU DA RAINHA
Na última semana, escreveu sobre o jubileu de diamante da rainha Elizabeth, não deixando, como de costume, de inserir menções ao Brasil.
A coluna final, que foi publicada em uma sexta-feira site da BBC, continha 25 frases alusivas à morte e referência ao “mestre Millôr Fernandes”, morto em março passado.
MORREU DAQUELE JEITO… BEM MORTO
A mulher de Ivan, Elizabeth, com quem ele viveu por 39 anos, informou que o encontrou morto em casa na noite de sexta-feira, em Londres.

ZIRALDO
“Millôr, Chico (Anysio, morto também em março), agora Ivan… Estou me sentindo ameaçado. A minha turma está se despedindo”, disse Ziraldo.
GENETON MORAES NETO
“O Brasil deu um novo passo em direção à mediocrização ampla, geral e irrestrita: o coração de Ivan Lessa parou de bater, em Londres”, escreveu o jornalista Geneton Moraes Neto, outro que se foi precocemente. (colaboração de Marcus Vinicius Gomes)
