sábado, 9 maio, 2026
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LAVA JATO INTERROMPEU GOLPE DE ESTADO DO PT, DIZ DOTTI

96-René eCuritibano de longa data, o jurista René Dotti não deixou a cidade natal pela mesma razão que faz com que um pinheiro Araucária não possa ser transplantado. No terceiro ou quarto ano de Direito, o amigo Ary Fontoura comunicou-lhe que estava seguindo para o Rio para tentar a carreira de ator. Convidou-o. Ele preferiu ficar. Fincou raízes.

Dotti tem um passado de estreita ligação com a cultura e com a política, mas é acima de tudo um advogado. E como advogado foi um campeão de defesa dos direitos humanos, defendendo jornalistas, professores, intelectuais na Justiça Militar, porque eles haviam “infringido a Lei de Segurança Nacional”.

Em maio deste ano, durante a primeira audiência de Lula com Sérgio Moro, ele passou um corretivo no colega Cristiano Zanin Martins, defensor do ex-presidente. Durante duas horas, ele interrompeu várias vezes a fase de perguntas do magistrado ao petista. “A dureza de um processo não significa que temos que apelar para a luta livre”, afirmou Dotti em entrevista publicada pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, no último domingo (3).

REVOLUÇÃO COPÉRNICA

O jurista representa a Petrobras junto ao Ministério Público Federal. É o encarregado de fazer com que os delatores devolvam o dinheiro surrupiado da estatal e de formular acusações contra Lula. Sua opinião sobre a operação da Polícia Federal é conhecida. “É uma revolução copérnica na criminalidade do País”. Sem qualquer exagero. (Nicolau Copérnico foi o astrônomo e matemático polonês que mostrou que a Terra girava em torno do Sol). Mas há discordâncias. Ele é contrário à prisão do acusado em segunda instância. Considera que a presunção da inocência é um postulado que nenhuma democracia pode abrir mão.

REFUNDAÇÃO DO PARTIDO

Dotti também tem uma opinião sobre o governo do PT. Diz que a Lava Jato interrompeu o golpe de estado que era planejado pelo partido. “O que o PT fez, não a parte de corrupção, mas a parte de organização, foi pensando em tomar o Estado, tomar o poder do Estado, não é só o poder do parlamento, mas do Estado. De que maneira? Defendendo uma doutrina que é comum ao interesse público, que era naturalmente da ética, da moralidade, sensibilizar a classe estudantil. Reunia religiosos, reunia jovens, estendia em outras camadas da população, porque os partidos não faziam isso. Por isso os partidos perdiam sistematicamente, não tinham mais apoio do povo. O PT dominou muito bem, e por isso teve o poder. E isso seria o golpe de Estado. Os partidos não pensavam nisso, eram fisiológicos só”.

Para o jurista, não há dúvida de que o PT irá sobreviver à Lava Jato.

Por duas razões: porque é o único partido de massas do país e porque o escândalo de corrupção de que foi artífice pode ser um traço de união para a refundação de um novo partido político.

ANEMIA DE CONVICÇÕES

Dotti vê na rejeição à participação de políticos ou partidos durante os protestos de rua uma mudança de paradigma. “As pessoas vivem uma anemia de convicções” e não se veem representados por esse leque de partidos sem nenhuma doutrina e agindo apenas por interesses próprios.

O advogado curitibano é um nome de expressão nacional. Em entrevista para o livro “Encontros do Araguaia”, organizado por este colunista, no início do ano, Dotti já previa o desenrolar dos acontecimentos do país.

A esperança, segundo ele, está nas instituições que representam a Justiça e a Democracia e não naquelas que as deformam e as tornam flexíveis de acordo com suas conveniências.

CRÍTICAS A GILMAR

O jurista critica o ministro Gilmar Mendes, do STF, por partilhar da ideia de que as prisões preventivas são um abuso de autoridade. “Não são”, diz ele. Os que estão presos são aqueles que continuam mandando e intimidando testemunhas, mesmo dentro da prisão. O que a Justiça faz nesse caso é tentar impedir a comunicação, a ocultação de provas e a continuidade do crime, como ocorreu, por exemplo, com presos do Mensalão que foram flagrados em esquema idêntico no escândalo da Petrobras.

UM PARÊNTESE

A entrevista de René Dotti foi concedida ao jornal “O Estado de S.Paulo” e não a um jornal do Paraná. É difícil entender, passados três anos da deflagração da Lava Jato, por que a imprensa do estado não faz da operação da PF e de seus protagonistas uma obsessão.

Agora mesmo há importantes nomes da República presos no Complexo Médico Penal de Pinhas ou na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. As imagens de TV só trazem a fachada do prédio da Justiça Federal ou da PF, em um cenário que poderia ser repetido em estúdio sem que o telespectador percebesse a diferença. Não se pede que os jornalistas revirem as latas de lixo em busca de informações (eis uma boa ideia), mas já era hora de mobilizar jornalistas investigativos ou aqueles de boa vontade para buscar informações em personagens que transcendam as pautas bocejantes e padronizadas dos jornais. A prática de cultivar fontes, ao que parece, morreu junto com a falta de disposição dos repórteres de sair às ruas.

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