Começou estudando o cérebro para poder fazer correta divulgação científica
A jornalista curitibana Michele Mueller ao escrever uma matéria sobre a neurociência percebeu ser difícil explicar o assunto de forma simples, de maneira que um cidadão comum entendesse. Interessou-se tanto pelo assunto que foi estudá-lo em profundidade acabando por tornar-se uma especialista na área. Começou estudando nas colunas de revistas e sites especializados, depois a cobrir congressos de Neurologia, fez o curso de Neurociências Clínicas (Faculdade Cândido Mendes), de Neuropsicologia Educacional (UP) e mestrado em Portugal (Universidade Fernando Pessoa) onde investigou a eficácia de materiais voltados à construção das habilidades – “relação do ensino direto de conceitos abstratos, a partir de estratégias como a utilização de metáforas visuais, com a compreensão”.
Michele conta, nesta entrevista, que começou estudando o cérebro com a intenção de fazer, como jornalista, a divulgação científica, garimpando fatos interessantes e traduzindo estudos complexos para uma linguagem mais acessível, interesse que acabou por levá-la por outros caminhos.
Neurociência bem explicadinha – processos cognitivos e compreensão
Dentre os vários assuntos relacionados à neurociência, Michele se dedicou aos processos cognitivos envolvidos tanto na leitura quanto na compreensão da linguagem. Aplica essas ferramentas em atendimentos individuais (crianças com problemas cognitivos e dificuldade de aprendizagem) e também repassa a professores e terapeutas em oficinas e mentorias aquilo que aprendeu. A neurociência pode ajudar no aprendizado através dos nossos mecanismos da emoção, motivação, atenção, socialização e memória.
Aplicação prática
Michele criou cursos voltados ao desenvolvimento de competências acadêmicas e profissionais. Entre eles, estão: criatividade, flexibilidade cognitiva, inteligência emocional e aprendizagem otimizada. E aplica-os em atendimentos individuais repassando-os a professores e terapeutas em oficinas e workshops. Atende empresas como a Porto Seguro Educação, a CNI e o Sicredi.
Editou pela Matrix dois livros: Imagem e Conceito e Questões de Compreensão de Texto. Seu livro de ensaios: Aquilo Que nos Move – a Construção e a Busca de Sentido foi selecionado no Prêmio Outras Palavras e será lançado (sem data prevista) pela Secretaria de Estado da Cultura.
Neurociência Cognitiva aplicada à sala de aula
A Neurociência Cognitiva tem como foco o estudo das capacidades mentais: aprendizado, inteligência, memória, linguagem e percepção. O trabalho da Michele é voltado à decodificação e à compreensão da leitura a partir do conhecimento de como o cérebro aprende e a linguagem ganha sentido. Ela desenvolveu uma série de jogos onde por meio da leitura e da interpretação de textos selecionados trabalha a consciência fonológica a partir de rimas, aliterações e repetições.
Outros jogos são voltados ao ensino de um vocabulário mais abstrato e conceitos fundamentais para que haja compreensão da leitura de textos acadêmicos e literários. Parte desse vocabulário é relacionado às emoções e sentimentos, que são abordados juntamente com histórias e metáforas para que as crianças e adolescentes possam, a partir da expressão verbal, alcançar mais compreensão de si e das intenções dos outros.

Autistas podem estudar filosofia
Recentemente escreveu uma série de textos na forma de aforismos para trabalhar alguns dos filósofos da antiguidade com adolescentes de espetro autista.
Todos os textos – seja um poeminha para crianças menores ou uma curiosidade sobre a Lua – são acompanhados de exercícios que trabalham o máximo possível de habilidades relacionadas à compreensão da linguagem e construção do pensamento crítico: inferência, memória verbal, vocabulário, formação de relações, síntese, estabelecimento de importância, pontuação (a partir da prosódia e não de regras), gramática e clareza no discurso.
Michele acredita que aliar o universo da comunicação social aos conhecimentos neurocientíficos de como o cérebro aprende é um desafio fascinante e que nunca estará definitivamente cumprido. Acredito que meu material estará continuamente em construção e aprimoramento – diz ela.
A garota Michele – jornalista, antes de ser jornalista
A vontade de ser jornalista era tanta que entrava em coletivas de imprensa, sem ainda ser jornalista, para ver como funcionava. Ainda na faculdade de Comunicação, Michele começou a frequentar entrevistas coletivas, mesmo sem estar em nenhum veículo. Uma delas rendeu o seu primeiro emprego. Foi com Marisa Monte. Ao final da coletiva de imprensa, perguntou a ela se poderia fazer umas perguntas exclusivas para um programa de rádio. Não havia rádio nenhuma, mas a mentira resultou em uma longa e descontraída conversa – e também em um remorso que a levou até a Rádio Educativa com uma fita na mão, pedindo para reproduzi-la. Na semana seguinte estava contratada. Continuou a trajetória na imprensa escrevendo para a Folha de Londrina e outros jornais e revistas, ao mesmo tempo em que continuava estudando e praticando fotografia que aprendeu ainda adolescente fazendo por conta cursos por correspondência que encontrava na casa de parentes. Trabalhou na Folha de Londrina como fotógrafa e hoje, além da sua especialidade em neurociência – é revisora de inglês e português.
Inventou um jornal de escola para entrevistar o Cristovão Tezza
Fez a sua primeira entrevista aos 14 anos: inventou a existência de um jornal na escola, ligou para a casa do escritor Cristóvão Tezza agendando um horário e levou um gravador emprestado; para sua decepção, ele pediu para não gravar, o que não a impediu de apertar no “rec” do aparelho que estava dentro da mochila. A vontade era mostrar pelo menos um trechinho da entrevista à professora de português.
(Colaboração de Eloi Zanetti).
O site: www.michelemuller.com.br

