A inspiração dos colonizadores foi a encíclica Mater et Magistra do papa João XXIII
por Jubal Sergio Dohms (*)
O artigo de autoria de Eloi Zanetti neste espaço, intitulado a Gleba dos Bispos – A última Fronteira, fez-me reviver muitas lembranças de Missal, que tive a oportunidade de conhecer nos anos 60, quando ainda era um adolescente, filho de um dos diretores da Sipal Colonizadora.
Por um período de tempo, fazia o papel de um “office boy”, levando e trazendo documentos a mando de meu pai, Jubal Paulo Dohms, em viagens de ônibus leito até Medianeira, onde sempre havia alguém a me esperar, quase sempre o senhor Laci Deonisio Giehl, contador da empresa colonizadora. Nessa época eu estudava Edificações na então ETFPR e prestava a atenção em tudo que via, estava tendo a chance de ver uma cidade nascer.
A encíclica do papa João XXIII
COLONIZADORA ESTILO “MATER ET MAGISTRA”
A Sipal Colonizadora foi a responsável pela criação e desenvolvimento de Missal, parte da Gleba das Mitras. Meu pai, Jubal Paulo Dohms era um dos diretores. Lembro que sobre sua mesa de trabalho havia um exemplar da encíclica “Mater et Magistra”, que meu pai nominava de bússola orientadora. A carta do Papa João XXIII versava “sobre a recente evolução da Questão Social à luz da Doutrina Cristã”, e foi publicada em 1961.
Livro mais antigo da cidade
O livro de contas correntes (o mais antigo livro da cidade) e outros documentos da colonizadora estão hoje no Museu Municipal da cidade. O Museu é, na verdade, a própria sede da Sipal, que foi desmontada e remontada em outro local. Na varanda da sede, que abrigava o escritório e a moradia da diretoria (não havia hotéis) aconteciam os terços, rezados enquanto a igreja não estava construída.
Em junho de 1999, Jubal Paulo Dohms foi homenageado pela cidade. Da direita para a esquerda: Jubal e Clemene Dohms, Laci Giehl, Douglas Dohms, Dilson Merlin e Eneida Dohms Merlin, na prainha de Missal.
UMA PEQUENA SEMENTE
A Cooperativa Mista Agrícola Sipal Ltda – COMASIL, hoje conhecida por LAR Cooperativa Agroindustrial, foi criada em março de 1964, em Missal, tendo sua diretoria provisória integrada pelos sócios da Sipal Colonizadora. O padre José Backes como presidente, o engenheiro Roberto Brandão e o administrador Jubal Paulo Dohms eram os seus diretores. Os estatutos contaram com a ajuda do IBRA – Instituto Brasileiro de Reforma Agrária.
A primeira assembleia geral ordinária aconteceu em janeiro de 1966. Nela constituiu-se a diretoria efetiva e as prioridades da cooperativa. Além das atividades fins de uma cooperativa de produção, foi criado um departamento de Previdência Social para prestar assistência médica e hospitalar aos associados. Assim nasce o primeiro hospital e a primeira farmácia de Missal, a cargo de irmãs de caridade (católicas, cuja congregação não me lembro), sob a direção de um médico.
A COMASIL também assumiu a missão da construção de uma escola, grupo escolar, colégio, clube social, manutenção de estradas e pontes, e fornecimento de energia elétrica – numa atuação que se antecipava a qualquer ação de governo.
Em frente da sede da Sipal, a equipe da colonizadora, da esquerda para a direita: Jubal Paulo Dohms, Laci Ghiel, Arthur Goerk e Anelise.
PRIMEIRA SEDE
Em 1965, houve a definição da diretoria efetiva, e o então gerente comercial Ignácio A. Donel anunciou a escritura de doação de diversos bens, inclusive a da primeira sede, com assinaturas reconhecidas de Roberto Brandão, Arthur Goerk e Jubal Paulo Dohms, sócios dirigentes as Sipal Colonizadora.
Lembro da sede da Cooperativa, quando presenciei uma reunião. O chão, tal como da igreja, era feito de toras fatiadas, fixadas em um terreno de chão batido. Nunca tinha visto nada parecido.
Foto antiga da cidade de Missal
A cidade nasceu com a ideia de uma área rurbana. Missal hoje tem 10.700 habitantes, metade residindo no perímetro urbano e metade na zona rural.
O município faz divisa com o lago de Itaipu.
A Revista “Paulusblath” de dezembro de 1964 citava que “havia 90 moradores e as 300 colônias da Sipal quase todas estavam vendidas”.
(*) JUBAL SERGIO DOHMS, futuro monge budista, publicitário, editor de revistas e jornais, poeta, especialista em design gráfico e digital.