
A missa celebrada pelo Papa Francisco em Cartagena, Colômbia, reuniu centenas de milhares de pessoas. Não fugiu ao tônus que marcou essa peregrinação do pontífice, em que multidões – milhões, em diversos momentos – foram acolher o sucessor de Pedro.
O diferencial é que Cartagena, histórica e ponto turístico, vai expondo fortemente fraturas da majoritária Igreja Católica nesse país onde os católicos, 90% de uma década atrás, seriam hoje “apenas” 79%.
São fraturas decorrentes de visível avanço evangélico de linha neopentecostal, com teologia da Prosperidade e seus adereços. Perdas também para as quais contribuem os “sem religião”, o que inclui os agnósticos e ateus.
NOVO MARKETING
E, por tudo isso, Cartagena foi objeto de especial escolha do papa Francisco: a cidade é epicentro bem visível do avanço “gospel” com seus televangelistas que dominam um universo de revolucionário marketing religioso moderno (de novo, segundo o evangelismo e os televangelistas norte-americanos).
O acatamento aos párocos, as antigas festas de padroeiros, as procissões, as missas festivas, a aceitação das palavras romanas começam a dar lugar a outras ‘intimidades’ ditas espirituais: jogadores de futebol e artistas são cortejados e cortejam os novos “pop stars”, os evangelistas que adotam linguagem e expressões da cultura de massa um tanto “tech” para cativar novos rebanhos. Com sucesso, e por vezes fazendo concessões inconcebíveis na visão católica, como na questão do casamento.
“ROMA LOCUTA”
Os números das perdas não são oficiais, e nem a Igreja detém percentuais confiáveis que expliquem redução de um rebanho que foi, ao longo de séculos da história colombiana, fidelíssimo ao sucessor de Pedro.
No entanto, não há como esconder que boa parte da Colômbia de hoje – e a região de Cartagena, de modo especial – não mais responde em uníssonos às solicitações católicas.
O Roma Locuta, Causa Finita não é mais a palavra final para uma fatia dos colombianos macerados por guerrilhas, milícias paramilitares e narcotraficantes com seus cartéis além, é claro, das populações que vivem abaixo da linha da pobreza.
MODELO NORTE-AMERICANO
Se os números das perdas não são oficiais, as preocupações de uma das mais bem preparadas diplomacias do Ocidente, a do Vaticano, sabe muito bem como sugerir “caminhos” na geografia da fé religiosa. E assim o fez no caso de Cartagena, onde a realidade é mais rápida do que estatísticas.
CARTAGENA, ESPELHO
Cartagena é espelho da guinada que está ocorrendo na América Latina, com bom percentual de sua população aceitando novas expressões religiosas basicamente modeladas segundo o evangelismo norte-americano: Privilegia a chamada inerrância da Bíblia (a Bíblia não erra), garante milagres sem fim (e que religião não prega milagres?), prosperidade material como certeza aos que aderem à mudança.
Os novos líderes “gospel” que vão ganhando a AL, são, na maioria, autóctones. Exemplo de Edir Macedo, que hoje exporta sua igreja para o mundo.
ÉTICA PROTESTANTE?

Mas esclareça-se: esse sinal de “benção” não tem nada a ver com a ética protestante e a prosperidade acentuada pela Reforma, sob a qual se solidificaram sociedades como Estados Unidos, Suécia, Alemanha, Reino Unido…
Na verdade, Max Weber jamais incluiria na árvore protestante esse o modelo de prosperidade pregado pelo “novo gospel”.
ORTODOXOS FORTES
Na mesma linha, há que observar: no mundo todo, incluindo Estados Unidos, as igrejas tradicionais e históricas estão dando espaço ao avanço de movimentos neopentecostais. Assunto de que me ocuparei futuramente.
Teria se esgotado o arsenal religioso das igrejas históricas, o que explicaria a queda que experimentam? O tema exige análise maior, mas deixo uma pergunta inicial: por que as igrejas ortodoxas, no mundo livre, não perdem sua força?
E mais: de olho na realidade religiosa de um mundo novo, não se exclua a vertiginosa urbanização universal, visível a partir dos 1960. Desse assunto Harvey Fox, magistral em seu “A Fire From Heaven”.

… E VONTADE DE COMER
Há outros elementos a considerar na viagem de Francisco à Colômbia. O principal deles, ficou bem claro, foi “sacramentar” a paz entre as FARCs e o Governo colombiano, episódio histórico do qual o papa foi peça chave.
O curioso não é que o ex-presidente Alvaro Uribe tenha ficado contra a paz, pois ele sempre foi aferrado anti-FARCs. O surpreendente ficou por conta da associação de padres extremamente conservadores, de Cartagena especialmente, e televangelistas, em torno de temas diversos, entre eles a questão das guerrilhas. Essa união está fortalecendo o avanço gospel na região.
OUVIDOS MOUCOS
E os próprios curas de Cartagena e associados não ouviram a voz de Roma, deixaram de acatar o papa Francisco em sua batalha pela paz e em defesa da vida. Essa oposição à cruzada colombiana de Francisco foi sinal claro de que o Roma Locuta Causa Finita não vale mesmo para o clero conservador do país, o que indica mudanças surpreendente no chamado “mercado religioso”.
