
Em entrevista à rádio CBN, na terça (22) – acredite, em horário que “A Voz do Brasil” deveria estar ocupando hora importuna (já vai tarde) – o pré-candidato à presidência da República do Solidariedade (SD), Aldo Rebelo, declarou-se um cético. É uma evolução e tanto numa era de certezas. Rebelo hospedou-se durante 40 anos no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Foi presidente da UNE, quando ainda estudante de Jornalismo, em Alagoas, deputado federal, presidente da Câmara e ministro de várias pastas nos governos Lula e Dilma. Agora se diz atingido por uma epifania.
CRÍTICAS AOS PCs (POLITICAMENTE CORRETOS)
Em rápida passagem pelo PSB e agora no SD, o partido da Força Sindical, o ex-comunista se descobre um liberal conservador, mas no melhor sentido. Critica, por exemplo, o domínio do politicamente correto e os cantões de gênero, raça e diversidade em detrimento da injustiça social.
TORRE DE MARFIM
Considera que o discurso acadêmico resvala em um mundo de classe média, recheado de profissionais que, do alto de uma torre de marfim, descobriram em algum ponto equidistante entre a Água Verde e o Jardim Social, o valor identitário de cada um. Esqueçam o pobre. Pobre é um conceito genérico.
AH SIM, NEGRA E POBRE
A mulher, ora ora, tem renda menor em comparação ao homem, fatia insignificante no Legislativo, apesar de representar 52,5% da população brasileira, dupla jornada de trabalho e, ainda assim, chefia 40% dos lares. Ah sim, a maioria é negra. E pobre.
E OS PARDOS?
Rebelo ataca os que encaram o pobre como subproduto da condição de gênero. É preciso primeiro classificar o gay, o trans, o travesti, a lesbo, o bi, o nem tanto, antes de incluí-los na tabela social. Da mesma forma o negro, mas com um agravante: negros são todos. Num átimo, os pesquisadores esqueceram a miscigenação e excluíram até mesmo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2016, cujos resultados foram divulgados em novembro do ano passado, que mostram queda no percentual de brancos na população do país – de 46,6% para 44,2% em relação a 2010 –, enquanto a participação dos pardos aumentou de 45,3% para 46,7%. A dos pretos, 7,4% para 8,2%.
A RAÇA É HUMANA
Rebelo destaca e qualquer um poderia fazer o mesmo: os pardos são maioria no país e, até prova em contrário, produto de uma mistura de peles brancas e negras. A raça é a mesma: humana.
DO PRÓPRIO VENENO
Nas universidades e sindicatos em que vêm apresentando suas propostas, Aldo Rebelo, cujo ex-partido já adotou como referência de sociedade socialista perfeita, pela ordem, Cuba, China e Albânia, tem provado do próprio veneno. A última foi ouvir o “lamento sertanejo” daqueles que defendem a cota de 30% do fundo partidário para “outros gêneros” (inclua-se a mulher). A decisão é do Supremo Tribunal Federal e foi confirmada pelo TSE, a modo de contentar as partes.
O PMB DE HOMENS
Rebelo, logo ele, já se insurgiu contra a medida e comanda a representação do Solidariedade junto à Justiça Eleitoral. No caso da mulher, há pelo menos um dado que favorece o ex-comunista em sua argumentação: “Mulher não vota em mulher”. Dados do TSE. Há outro dado, este alegórico: o Partido da Mulher Brasileira (PMB), criado em 2015, constituiu uma bancada de 22 deputados na Câmara Federal. Apenas duas eram mulheres. Hoje resta um. Homem.
POBRE DAMA DE FERRO
Nas palestras, Aldo Rebelo tem ouvido mais: alguém que assistiu ao filme “Dama de Ferro” com Meryl Streep vê agora a figura do masculino no governo da conservadora Margaret Thatcher. Então falta combinar: tem que ser mulher, mas de esquerda, defensora dos gêneros, dos pansexuais, dos negros (incluindo os pardos), dos indígenas, dos quilombolas, dos sem-terra, dos 66% de área preservada no país e, ah sim, é melhor não esquecer, dos pobres.
