
SACERDÓCIO UNIVERSAL E A “DIFERENÇA” CRENTE
Na análise passada, acabei citando o exemplo das colônias alemães que, mostrei, estabeleciam-se no Brasil com seus padres e pastores, assim como as italianas e polonesas, esses com apenas sacerdotes. Citei como ponto de referência inicial delas 1860/70, quando se ampliaram as imigrações ao Brasil, em decorrência das unificações da Itália e da Alemanha.
Na verdade, falhei: já em 1823/4, em São Leopoldo, RS, alemães estavam lá. Dentre eles, os Haygert (ou Heichert) e os Mayer, meus ancestrais, comandados pelo meu trisavô paterno Heirich Heichert. Esses colonos , como os demais de São Leopoldo, cultuavam o Senhor em parte como luteranos, em parte católicos. Com auxílio e orientação de padres e pastores, em momentos diversos, eles se mantiveram firmes na fé e ajudaram a construir o RS. As escolas paroquiais foram essenciais no bem sucedido processo de colonização no Sul.
Mas registre-se também: antes disso ainda, no começo dos 1800, houve uma pequena colônia alemã na Bahia, rapidamente desfeita, ou tragada pelo entorno nada favorável à população germânica para lá transplantada.
Se por um lado Franco Iacomini pouco recorre às ferramentas da História – Ciência – para entender o catolicismo no Brasil ,socorre-se , no entanto, do sapiente arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Splenger, de quem recolhe análises cirúrgicas do catolicismo brasileiro.
Oportuníssimas observações, sapientes, despidas de proselitismo. É o olhar do cientista da religião que, no caso, é um dos bispos referenciais do Brasil.
FALHAS CATÓLICAS
O arcebispo Splenger é preciosamente oportuno na sua análise. Lamento, apenas, que tenha deixado de abordar experienciais como as pregadas ( vividas, em parte) na Paraíba, pelo padre belga Joseph Comblin, anos 1970/80, que pedia a formação de uma espécie de “padres descalços”.
Eles seriam oriundos do povo rural, com pouca formação acadêmica, para atender ao interior difícil. Teriam pouca Teologia e muita prática pastoral. E olha que Comblin era de enorme competência teológica haurida na Europa, e foi um dos ícones da Teologia da Libertação no Brasil.
Se esse modelo de padre pregado pelo belga tivesse sido adotado, é possível que boa parte deles participaria do crescente êxodo rural do país, forte a partir dos anos 1950/60, mas que se alargou e continua. Com o êxodo, as periferias das cidades se transformaram em campo oportuno para a “pesca de almas” pelos pentecostais. Quase uma “pesca em aquário”. Foi quando multidões de católicos transplantados do interior se viram despossuídos de suas referências histórico-religiosas (capelas, festas, dias de guarda, “desobrigas”), grupos de entreajuda, além da assistência presbiterial, mesmo que pouca. Esse análise foi claramente abordada por alguns estudiosos do fenômeno religioso, como Carlos Brandão, Cartaxo e Beatriz Muniz Souza, entre outros.
Observe-se ainda sobre os padres do modelo concebido por Comblin: eles seriam celibatários. Não se tratava da proposta de “viri probati” – homens de fé provada, casados, escolhidos em suas comunidades para a ordenação presbiterial, tema que esteve na ordem do dia quando do recente Sínodo da Amazônia. Esse passo adiante para prover de presbíteros o Brasil católico morreu na casca, tal a oposição registrada entre bispos do mundo todo e nos domínios da Cúria Romana.
SACERDÓCIO UNIVERSAL
Comblin sabia que uma das melhores explicações para o crescimento do pentecostalismo, mundo afora, está justamente na presteza com que o “sacerdócio universal do crente” pode transformar (e transforma) fieis em pastores, obreiros, anciãos,evangelistas, missionários… Isto é: são feitos ministros do Evangelho sem maiores delongas, embora nos últimos anos, muitas confissões tenham aberto seminários teológicos, alguns à distância.
Mas o grosso das igrejas continua elegendo seus ministros assim como Comblin queria os “padres descalços”, suscitados dentro do povo simples, distantes de academicismo, apontados pelas comunidades locais. Um trabalho que, acredito, a Teologia da Libertação (TL) poderia ter encaminhado, não fosse ter sofrido influxos marxistas e da doença do um esquerdismo infantil chocando-se com as bases do catolicismo.
Sem poder ser classificado como um “arcebispo à esquerda”, dom Jaime coloca, no depoimento a Iacomini, dúvida sobre a eficácia da mensagem católica no Brasil ao longo de 5 séculos. As grandes desigualdades sociais seriam suficientes identificadoras dessa “falha” da Santa Madre no chamado processo de evangelização, diz, em outras palavras, o prelado. Em outras palavras, confirmou o que outro franciscano, seu conterrâneo dom Paulo Evaristo Arns pregava, o que lhe rendeu o cognome de “subversivo”…
Dom Jaime Splenger , catarinense, franciscano, serviu como pároco da Igreja Bom Jesus dos Perdões (Praça Rui Barbosa) em Curitiba, por 2 anos, no começo deste século.
MILAGRES EVANGÉLICOS
Bem estruturada, no geral, a análise de Franco Iacomini falha em pontos essenciais, no entanto. Como ao super-dimensionar mudanças que o mundo evangélico estaria promovendo nessa sociedade dita católica do Brasil.
Onde e em que dimensão isso ocorre?, pergunto.
Ficou devendo essa explicitação, pois todo bem e todo mal devem ser identificados e quantificados, tal como pregava Tomás D’Aquino. Não acredito que o homem de fé tenha se sobreposto ao jornalista e ao sociólogo da religião. Por isto, registro esse lapso, esse ufanismo em torno do “maravilhoso evangélico”. E afirmo: nada indica, até agora, que a nossa sociedade, tão influenciada nas últimas décadas pelo evangelismo, tenha se tornando “modelo de mudança social”. Isso apesar dos brados da pastora ministra da Mulher, Damares Alves, que clama algo como: “está na hora de os evangélicos assumirem o comando do país”. Uma opinião em franca oposição à lucidez do pastor presbiteriano da Barra da Tijuca, Rio, Antonio Carlos Costa, voz que clama contra o triunfalismo religioso-evangélico.
À exaltação de Damares recomenda-se a leitura de caminhos sugeridos pelo exegeta pastor Ricardo Godinho. Ele, fundador de um dos ramos da AD, .explicita suas esperanças sobre a chamada “igreja evangélica”, esperando que seja uma “ecclesia” fiel ao Evangelho transformador da sociedade, a partir da mudança de vidas de homens e mulheres.
Para mim, as igrejas evangélicas têm conseguido, é certo, resultados salientes em mudanças basicamente individuais.
Aqueles que “aceitam a Jesus”, de forma profunda, podem mesmo mudar de vida, como facilmente se constata. Essa “conversão” ocorre também em contexto católico, metanoia que não exclui os kardecistas ou outros credos que enfatizem algum tipo de “born again”.
Do ponto de vista humano, vários fatores – ambientais, econômicos, históricos, psicológicos, história de vida pessoal – podem explicar tal “renascimento”.
A luz da fé não tem marcas registradas, mas estas podem gerar maiores ou melhores resultados, pois, em função de fatores variados. Ocorre que os evangélicos centraram muito sua catequese nessa ideia do “born again”. Conseguindo bons resultados no Brasil e na América Latina, sobre indivíduos que passam a viver o pentecostalismo. Ou o neopentecostalismo, que é caracterizado pela Teologia da Prosperidade (caso da Igreja Universal do Reino de Deus, IURD). A riqueza material seria sinal de bênção, da aprovação celeste à adesão do crente à religião. Teorias de autoajuda e o espírito de empreendedorismo de muitos crentes fortalecem esses citados ‘resultados’.
Por outro lado, observo, por ser importante nesta avaliação: nos países em que o evangelismo está se impondo, e se faz maioria na população, hoje, na América Latina – como El Salvador, Honduras, Guatemala – o quadro de violência social e predomínio de gangs é fato gritante. Cresce exponencialmente. Desta forma, contradiz a possibilidade de mudanças comunitárias terem ocorrido sob a égide evangélica. A violência se acentua nesses países, dia após dia.
Teria falhado o “maravilhoso evangélico”?
Está falhando como falhou a Igreja Católica no processo de evangelização da AL, assunto para ampla análise que aqui não cabe por falta de espaço.
GAROTINHO, ROSINHA, CRIVELLA
Mudanças de vida sob o apelo da fé ocorrem, acredito, sobre influxos diversos, como, por exemplo, o cântico de forte conteúdo emocional e o apelo para que o ouvinte “se entregue a Jesus”: – “… foi na cruz, foi na cruz, onde um dia eu vi, meu pecado condenado em Jesus”; ou quando a criatura corre às águas da Gruta de Lourdes, França, onde, por exemplo, no começo do século 20, se converteu o cientista Alex Carrel, Prêmio Nobel de Fisiologia dos anos 1920. E diariamente lá se convertem multidões, assim como as águas do Ganges , na Índia, também operam milagres.
No plano da sociedade abrangente, o legado dos homens públicos evangélicos no Brasil (os que assim se expõem fortemente em busca de votos, como Marcelo Crivella, Garotinho e Rosinha Garotinho) é pouco positivo até agora. Eles e suas igrejas repetem a “sina”, no país, da Igreja Católica, que nunca conseguiu “cristianizar verdadeiramente” a Nação, como advertia Comblin.
Algo me faz lembrar nesse triunfalismo evangélico, com multidões de pastores associados ao presidente Bolsonaro e suas ações, aos tempos do cardeal Leme. Esse prelado da Igreja foi um dos mais fortes marcos da “reassunção” do catolicismo aos braços do Poder. A Santa Madre, que deixara seu antigo status de igreja oficial, reassume com Leme muitos de seus privilégios e poderes.
O cardeal se tornou inseparável de Getúlio Vargas nos idos da ditadura e, depois, no período em que GV governou pelo voto, anos 1950/54. É verdade que os evangélicos de hoje não aprenderam quase nada com a História de um Brasil recente, como aquele da LEC, a Liga Eleitoral Católica, que vetava ou indicava nomes de candidatos que mereceriam o chamado voto católico. Recomendo a leitura, aos interessados no tema, de livro do curitibano Renato Augusto Carneiro Junior, que aborda, com prudente historiador que é, os tempos da LEC no Paraná. Um dos beneficiados do apoio da Liga teria sido Ney Braga, na sua eleição para prefeito de Curitiba, anos 1950s. Na verdade, o case LEC mereceu ampla abordagem acadêmica no país.
As igrejas, que se tornaram “viveiros” eleitorais de pastores como a deputada federal Flordelis, das mais votadas do RJ, a qual o MP e Polícia acusam de ter matado o marido, não produzem mudanças sociais justamente no Estado onde os pentecostais mais crescem no país.
O crime, a violência e miséria, além da exploração da boa fé dos crentes, dominam no universo do Rio de Janeiro, onde os evangélicos prevalecem hoje em dia. São maciças maiorias, por exemplo, nas favelas (ou comunidades) dominadas pelo crime controlado por grupos evangélicos (conforme a cientista social Christina Vidal da Cunha, in “Oração de Traficante”, da UFF).
O “born again” de almas individuais libertadas dos vícios e das drogas, e dos pecados de outros matizes, não se acompanham, na mesma medida, pela conversão de governos e homens públicos evangélicos à moral cristã, à ética da boa governança (vide casos de Garotinho, Rosinha e Crivella).
Pelo contrário, uma maioria política evangélica tem até aperfeiçoado lamentáveis práticas que marcam esse país desde 1500. Isso tudo embora o histórico positivo legado pela Igreja Romana no âmbito dos hospitais, escolas, serviços sociais, universidades…
Ainda da tragicomédia carioca e seu suposto espírito religioso, é oportuno acrescentar: o ex-governador Wilson Witzel, do Rio, apeado do governo sob acusações de roubalheiras, tomou uma decisão tão logo defenestrado do poder: tratou de abandonar o seu raquítico catolicismo, fazendo-se batizar numa igreja evangélica. E proclamando-se, em seguida, um “born again”.
Dizem bem humorados cariocas que Witzel queria mesmo ser batizado pelo líder nacional do PSC, pastor Everaldo, derrotado candidato a Presidente; só que Everaldo estava (e continua) preso desde agosto passado por associação ao crime organizado em atos de corrupção…
QUESTÃO DE MAIORIA?
A ministra da Mulher, pastora, advogada Damares Alves sabe que a questão brasileira de incúria administrativa não se resolve com fazer “o país ser tomado pelos evangélicos”. Inteligente, deve estar refletindo sobre os resultados que um estranho mundo evangélico vai entregando ao país, a partir do Congresso, por exemplo.
Até porque é oportuno lembrar que nos Estados Unidos, país padrão para o atual governo federal, vence o prazo de validade de uma administração que se elegeu e se apoiou nos postulados evangélicos para surpreender o mundo com suas decisões disparatadas, como a perseguição aos imigrantes. Como se aquele país não fosse uma nação montada por imigrantes, sendo mesmo Trump neto de imigrantes alemães… E mais: a maioria de evangélicos nos Estados Unidos, de todas as tonalidades e tamanhos lá existentes,não não conseguiu mudanças sociais suficientes para apontar os States como um país livre das drogas, das injustiças sociais, do crime de todos os matizes que abriga milhões em suas penitenciárias.
Nem conseguiu que o cristianismo evangélico, apesar das pregações de seus televangelistas, forjasse uma sociedade de sóbrios e exemplares cidadãos.
Certo é reconhecer que o mundo protestante dos Pais Peregrinos sofreu desdobramentos em que se agasalharam monstrengos como a Klux-Klan. Os exemplares cidadãos fugidos da Inglaterra adversa estariam fadados a gerar bons frutos “para a eternidade”, bem ao contrário do que ocorreu nessa “terra brasilis” montada por degredados católicos, conforme o moto tão repetido. É o que muito se pregou.
Reconheço,por fim, que apesar de todas as ressalvas apontadas, ser a análise de Franco Iacomini muito oportuna. Oferece muitas pistas para o entendimento do fenômeno religioso.
Lamento não tenha exposto um dos mais sólidos e bem montados exemplos de igreja existente no Brasil, a Igreja Adventista do Sétimo Dia, que, em si, merece um exame aprofundado.
Franco Iacomini também não diferenciou as categorias de “ecclesias” existentes – como as do mundo protestante histórico e do catolicismo oficial, que atendem a uma certa “classe alta”; nem trabalhou o entendimento do catolicismo popular, do pentecostalismo e as religiões de matrizes africanas no Brasil – que abrigam o universo das religiões populares.
Por último, tenho de reconhecer: a redação e o encadeamento dos temas no trabalho de Franco Iacomini é exemplo de qualidade que pode ser modelo para muitos acadêmicos que não conseguem passar para o papel suas teses ou simples “paper” porque não aprenderam a escrever sem fraque a cartola. Têm necessidade de exibir erudição ao fecharem-se em linguagens herméticas. (AMGH).
