sexta-feira, 31 julho, 2026
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REPERCUTINDO: EVANGÉLICOS NO BRASIL, SEGUNDO IACOMINI (parte 3)

 “ORAÇÃO DE TRAFICANTE” E  AS “CONVERSÕES”  NAS FAVELAS CARIOCAS

Prossigo esta análise lembrando: Frânco Iacomini, no seu e.book “Os evangélicos no Brasil”, edição Gazeta do Povo, fundamenta-se em ampla bibliografia com a intenção de mostrar o relevante papel das igrejas evangélicas na montagem de um novo cidadão brasileiro; de  um novo país, a começar pelo amplo processo de alfabetização de sua membresia.

É verdade: para ler a Bíblia, o crente tem de saber ler, o Livro pode ser um excelente Mobral. As religiões do Livro – Judaísmo,  Islamismo e Cristianismo só revelam a amplitude de seus mistérios se o crente lê a Mensagem!

Iacomini foi cuidadoso ao mostrar basicamente o lado positivo da adesão às igrejas evangélicas. Passou de leve, apenas, sobre o autoritarismo e  as negociatas da chamada Bancada Evangélica no Congresso, no cvaso brasileiro. Embora, de fato, tenha registrado preocupação pela maneira como os evangélicos são  identificados como parte essencial do governo Bolsonaro e não esquecido que aliançaa de fé e governos não soam bem..

Na questão alfabetização, acho que as estatísticas de Franco deveriam contemplar um olhar mais refinado, incluindo  os kardecistas (espíritas)   que são, eles sim, quase cento por cento alfabetizados. Dados do IBGE.

O livro de Franco  expõe ainda,   em certos momentos,  estatísticas, que indicariam terem   comunidades evangélicas crescido  economicamente melhor que as de  outras religiões, de outros credos, nos anos 1990 a 2000, no Brasil. Dá impressão que isso é realidade cientificamente  comprovada, quando observamos o contrário em certas situações. Como a da enorme adesão às igrejas evangélicas nas favelas cariocas, que nada mudou a perspectiva social daquelas populações. Nem  garantiu-lhe crescimento econômico expressivo.

UMA VELHA HISTÓRIA

Assim,  a alegada superioridade de desenvolvimento  econômica protestante no Brasil ,  me faz lembrar uma discussão muito antiga entre padre Julio Maria, o fundador da Congregação dos Padres Sacramentinos de Nossa Senhora, de Manhumirim, MG, e protestantes daqueles dias.  Isso  nos anos 1950/60, quando o sacerdote francês  se digladiava com igrejas evangélicas  (na época, fundamentalmente as históricas) que reclamavam o direito de ganhar espaço no país. E para tanto apregoavam para supostas  “vantagens” materiais que traria a opção protestante.

A reclamação por espaço procedia, reconheço: existiam inúmeros obstáculos que a sociedade impunha a grupos fora da Santa Madre Igreja. Havia perseguições por parte de grupos católicos a evangélicos, certo. Não era trabalho da Igreja como instituição, mas especialmente de grupos católicos que agiam autonomamente.

É lamentável que  o mesmo crime aconteça hoje: fieis de terreiros de matrizes africanas são perseguidos, e até mortos. Como ocorre, com relativa freqüência no Rio. Não se trata de decisão de igrejas evangélicas, mas de equivocados ações de  evangélicos, tal como fizeram católicos, outrora, com relação a protestantes, com  até  queima de igrejas (fato que Iacomini citou ter acontecido no Norte do Paraná|).

ARGUMENTOS  

Um dos argumentos, naqueles dias,  mais fortes do chamado povo crente, era louvar  a qualidade de vida e o desenvolvimento de países protestantes. Eram  citados como exemplos de produtores de  riqueza e bem estar social.  Seria o caso dos países nórdicos, sociedades que, se nominalmente protestantes, já eram fortemente secularizadas, sem fé, embora pagantes do chamado “imposto do culto”. E, sem dúvidas, Tio Sam.

Hoje em dia, é difícil trabalhar em cima dessa realidade, até porque nações naqueles anos citadas como protestantes, como Estados Unidos e Alemanha, já apresentavam franco crescimento de outros credos.  Nos Estados Unidos, por  exemplo, a Igreja Católica cresceu exponencialmente no pós  Segunda Guerra.

No caso americano, hoje os católicos são majoritários, como denominação,  diante de um sem número de igrejas e crescentes estatísticas dos sem-igreja ou agnósticos e ateus. No caso da Alemanha, a divisão religiosa sempre andou mais ou menos parelha entre católicos e evangélicos luteranos. Hoje  os alemães marcham de forma absurda para um distanciamento de qualquer fé, de que é melhor exemplo o crescente pedido oficial de cidadãos que conseguem “ “demissão da Igreja”. Deixam de ser católicos e evangélicos, pois. E livram-se, assim,  de pagar o imposto da igreja (ou de culto).

PODERES DA FÉ    

Trabalhar  em cima de desenvolvimento econômico é sempre tarefa complicada  para exemplificar o “maravilhoso da fé”.

No Brasil,  por exemplo, o estado de São Paulo continua sendo a chamada locomotiva  do país. E é estado de maioria   católica, assim como os 3 estados do Sul, ricos. Mas isso explicaria, por acaso,  uma superioridade  da fé católica?

Tudo isso  me lembra que nas  discussões com  obstinado padre Julio Maria,  os países chamados católicos eram apresentados (e por anos assim continuaram os  discursos apologéticos) como sinônimo de atraso. Incluíam  Itália, Espanha e França que, hoje, na verdade são exemplos de economias pujantes, embora também sociedades açoitadas por amplo processo de secularização. Estão entre as maiores economia do Ocidente.

De qualquer forma, lendo o livro de Iacomini, não tenho como fugir de minha  tese, segundo a qual a passagem do catolicismo rural – de amplo acolhimento e partilha entre homens e mulheres do campo difícil – para o pentecostalismo, deu-se  dentro de um quadro previsível. Não foi uma “queda do cavalo” – como aquela da conversão de S. Paulo. Mas do ponto de vista humano, de psicologia das massas, uma adesão bem justificável por parte de todo um quadro de  êxodo rural acelerado, a urbanização, o adensamento impressionante das periferias das grandes cidades.

Isso sem contar, claro, fatores outros que já apontei, como um catolicismo popular que, em tudo, foi facilitando a adesão, sobretudo ao pentecostalismo, diante  da perda de identidade  e dos referenciais centenários, nas   periferias das cidades.

PACTO SUSPEITO  

Em termos políticos, há de tudo nos meios evangélicos brasileiros. Muitas vozes em conflito, tal como nos quadros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que aglutina os bispos católicos de todo o país. Os bispos, não ficam sob a autoridade da CNBB, matéria exclusiva da  Santa Sé.

Essas  dissonâncias   não surpreendem, no caso evangélico,  dadas as diferenças muitas vezes  doutrinárias que separam centenas e centenas de denominações (ou milhares?), algumas delas sendo  microigrejas espalhadas de Norte a Sul.

A dissonância   evangélica é impressionante: enquanto o midiático Pastor Silas Malafaia , de uma das dezenas de ramificações das assembléias de Deus, entrega-se por inteiro à defesa do governo Bolsonaro, pregando  um pacto político com o governante e seu ministério, outro pastor, o presbiteriano  Antonio Carlos Costa, do Rio de Janeiro, dirigente de conhecida  ONG, lança  um sinal de alerta, conforme o livro de Iacomini:

“… e surpreendentemente essa igreja (evangélica)  que nunca precisou da classe governante para crescer  agora  está fazendo um pacto com um governo, abraçando uma ideologia política alheia aos valores do Evangelho”.

A  opinião do  pastor Costa é reforçada por outra,  mais dura ainda, que Iacomini registra, vinda  na  manifestação de um poderoso dirigente da Convenção das Assembléias de Deus do Brasil, e presidente da AD de Belém do |Pará, pastor Samuel Câmara:

– Se os evangélicos não tivessem aparecido tanto no Congresso, e em outras instâncias, talvez seria até melhor para o crescimento da fé”. Câmara tem autoridade: ele preside o mais forte braço da AD no país, diretamente da cidade onde o pentecostalismo nasceu entre nós.

A diversidade de opiniões e linhas doutrinárias (livre interpretação das Escrituras, por exemplo ) gera também  lideranças à esquerda, como o pastor Ricardo Godinho, que fundou e comanda uma das cisões das  AD. Filho de ex- militar perseguido político da ditadura, o pastor é conhecido por  suas manifestações contra o “direitismo” das igrejas. E por ter derrubado  as pregações centradas em  usos e costumes (cabelos compridos para mulheres, vestido longos, etc.). Quer uma igreja “socialmente” aceitável.

ORAÇÃO DE BANDIDOS   

Um judeu amigo meu,  professor ACCC,  que leconou no Studium Theologicum de Curitiba, costuma dizer, em tom de blague, mas com forte conteúdo crítico: “Que os católicos são responsáveis pelo maiores escândalos e pecados, não há dúvidas. Não me surpreendo,  são maioria.

Mas  também  não arrotam santidade:  estão no ‘mundo’; essa  santidade é   qualidade,  proclamada  como  propriedade da   maioria de grupos evangélicos…”

O assunto é amplo, a propósito da suposta unânime  mudança de vidas (em certos  casos, verdade) gerada por   todas adesões ao evangelismo brasileiro. Iacomini louvou esse universo de “born again”  que os evangélicos estariam gerando. Este “renascido”, diga-se, não é privilégio evangélico, mas presente em todas as manifestações religiosas.É o selo de garantia das chamadas conversões religiosas.

Sobre a autenticidade de tais conversões e seus resultados,  sugere-se a leitura de uma das obras mais importantes sobre o assunto, etnografia resumida no livro “Oração de Traficante”, da professora Christina Vital da   Cunha, da Universidade Federal Fluminense, doutora em Antropologia.

Christina Vidal da Cunha. (Foto: João Flores | IHU)

Ela passou anos vivendo nas chamadas comunidades (favelas) do Rio, observando o dia a dia das mudanças gerado pelo “milagre” da troca de referências católicas e afrobrasileiras pelas novidades pentescostais. Disso resultou a obra citada, obrigatória em qualquer biblioteca de estudos da ciência da religião.

A doutora  vai além das louvações ao “maravilhoso evangélico” (lembro de Lamartine, com o “maravilhoso cristão”, que traduzíamos no Ginásio). Ela trabalha, com acústica apurada ,a mágica mudança de símbolos religiosos tradicionais das favelas, como os São Jorge, os Cruzeiros, as Virgens Maria que antes pululavam nas casas e praças, agora  substituídos por murais e cartazes com  salmos e emnsagens bíblicas.

Essas mudanças, mostra a autora, fazem parte de um novo pacto “espiritual” em que sobressaem especialmente traficantes. Os chamados “traficantes de Jesus”, que se impõem à força e respaldados em citações bíblicas, nova palavra de ordem nas “comunidades”. Comandam as favelas, mostra a pesquisadora, expondo uma nova aliança entre a Cruz e o banditismo.

Será essa  a verdadeira síntese do “maravilhoso evangélico” que muitos apresentam  em contraposição ao  “paganismo” católico?

Favela carioca com mensagens bíblicas… (Foto: Scielo)

(CONTINUARÁ)

 

 

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