terça-feira, 5 maio, 2026
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Evangélicos não votam em bloco, afirma pesquisador: “É uma lenda”

Marcha para Jesus: manifestação de evangélicos

Cientista político diz que pentecostais, neopentecostais e os chamados ‘tradicionais’ escolhem candidatos de maneiras diferentes

 

(Do Estadão – Julia Afonso)

Ser evangélico em época de eleição equivale a virar alvo de cobiça política, da esquerda à direita. Mas, embora esse público represente aproximadamente um terço do eleitorado e ganhe destaque nos programas dos principais candidatos à Presidência, nada indica que vote como bloco unitário. Ao contrário: um estudo do cientista político Victor Araújo, professor da Universidade de Zurique, mostra que os pentecostais, os neopentecostais e os chamados “tradicionais” escolhem seus candidatos com base em princípios totalmente diferentes.

“Voto evangélico não existe. É lenda”, afirmou Araújo. Da linha neopentecostal, a Igreja Universal do Reino de Deus, por exemplo, publicou artigo em seu site, anteontem, dizendo que não é possível ser cristão e votar na esquerda. O texto apócrifo argumenta que esquerdistas querem repetir no Brasil “fórmulas desgastadas e ineficazes”, como regimes ditatoriais, além de “espalhar o caos, para que suas atitudes de desgoverno não sejam notadas”.

Em outros eleições, porém, a cúpula da Universal apoiou os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. O partido Republicanos – antigo PRB – é braço da Universal e integra o Centrão, que atualmente apoia o presidente Jair Bolsonaro (PL), candidato a novo mandato. Mesmo assim, a Universal – com cerca de 2 milhões de fiéis no País – tem reclamado de desprestígio por parte de Bolsonaro.

Valdemiro Santiago, Silas Malafaia, Edir Macedo, Estevam Hernandes

MEU OLHAR SOBRE O FENÔMENO

Por Aroldo Murá G. Haygert

Não vejo a hora de ler o prometido livro do pesquisador da Universidade de Zurique, o brasileiro Victor Araujo, que deve sair em março, com a promessa de análise profunda sobre até quando é importante
e decisivo o chamado voto evangélico no país.

Meu interesse pelo fenômeno pentecostal – e protestante de modo geral, no Brasil – nasceu nos anos 1960. Foi quando entrevistei no auditório do Colégio Estadual do Paraná (para os Diários Associados) o então mais importante líder pentecostal brasileiro, Manoel de Mello, fundador da Igreja Brasil para Cristo. Naqueles dias não se falava, nem os sociólogos haviam batizado, sobre o qualificativo neopentecostal, que nasceu e ganhou força com igrejas como a Universal, e a da RR Soares, a Internacional da Graça nos anos 1980.

Manoel de Mello, um rústico ex-pedreiro de Pernambuco, estava mexendo com o chamado “mercado religioso” brasileiro, até então dominado, sem nenhum competidor de expressão, pela Igreja Católica Romana. O pastor saiu com um desaforo  a mim, chamando-me  de “repórter de salário mínimo” porque eu lhe indagara sobre uma agenda de costumes da sua Igreja, e contra a qual ele teria “cometido pecado”.

Ele acertou: eu ganhava um salário mínimo e ele, àquela altura, negociava seu apoio político a um diretor dos Diários Associados de São Paulo que se candidatava à Câmara dos Deputados. De qualquer forma  é importante ir às raízes dessa enorme mudança de matrizes religiosas num país acostumado ao “Roma Locuta, causa finita”. Roma falou, está falado…

A busca das raízes toma tempo e espaço, assunto ao qual  voltarei.

Partilho da opinião do professor Victor Costa: hoje não há o chamado “voto de rebanho” de igrejas evangélicas no mundo político. Pode haver exceção, possivelmente identificada em congregações que conseguem um quase ditatorial controle de sua membresia. Mas como exceção.

Pesquisas como as mais recentes – DataFolha – indicam, por exemplo, que ao contrário do esperado pelos apoiadores do presidente Bolsonaro, Lula teria a preferência do chamado voto crente. É isso…

É diversificada a área de interesse que parece ligar os pentecostais, neopentecostais e igrejas históricas (batistas, presbiterianas, luteranas…). Vai  muito além do antigo grito – “irmão vota em irmão”. Acho que a agenda de costumes  tem importância, mas não se pode esconder a existência de diversos matizes evangélicos, alguns entrincheirados em seu universo de adoração que não despreza o olhar maduro sobre o social. É o caso do pastor Henrique, presbiteriano do Rio de Janeiro, nem o esquerdismo amplo de Benedita da Silva.

Claro que há lideranças que vendem ao mundo político serem donos de um colégio eleitoral “impressionante”. É o caso do Ministério Madureira, da Assembleia de Deus, que até dias atrás estava engalfinhado com outra liderança pentecostal em disputa pela presidência da bancada Evangélica
no Congresso. É exemplo claro de que a propalada unidade de votos não existe. E nisso está certa a advertência bíblica “a vitória não passa pelo solar de casa dividida”.

Nas eleições de 2018 houve forte carga de voto evangélico no presidente Bolsonaro. Ele representava valores como combate à corrupção e defesa da família. São temas que Lula – dono da maioria dos votos do Nordeste, uma região predominantemente católica – está também atento, mas não disposto a negociar até a alma em busca de um curral eleitoral, é o que asseguram petistas  de sempre.

Vou um pouco mais longe: o Brasil dominado pela web e as redes sociais não mais é compatível com o fechamento de certas igrejas. E prevejo uma certa desilusão com parte das milhares de igrejas  grandes,  médias  e microigrejas – espalhadas pelo país. Tudo indica que o autoritarismo religioso está no fim (como decretar voto obrigatório em certos nomes), tal como ocorreu com a Igreja Católica, que quis comandar,  com a LEC, Liga Eleitoral Católica, a decisão dos fieis. A História pode ser um bom caminho, mostrando quando ela pode se repetir…
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Acho que boa parte dos chamados crentes está não apenas mudando em usos e costumes ( deixando o terno e gravata, vestidos longos, distanciamento de diversões do “mundo, etc.”).  Creio que  os dias de Manoel de Mello passaram . E que nem pautas   que pareciam unir todas as igrejas vão resistindo aos tempos de um mundo secular. É o caso do aborto, que é aceito pela Igreja Universal, por exemplo. Ó tempo, ó costumes.

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