
Apareceu na Mateus Lemes, outro dia, entre os carros, um amolador. Há quanto tempo não se via um. No meu tempo, ele carregava um assobio, que assoprava em cinco ou seis notas. Um som reconhecível até no sótão de nossa memória. Era um amolador de tesouras antes de tudo. Porque era delas, das tesouras, que careciam as donas de casas, tão ocupadas em seus afazeres que mandavam os filhos com aquela que carecia de fio. Era também especialista em afiar facas e canivetes, que os homens usavam para picar o fumo ou limpar as unhas, sentados à varanda em cadeira de largo espaldar.
O homem era um amolador porque não há quem amole as facas e tesouras da gaveta. Aquelas que não têm corte são esquecidas por baixo de tantas outras compradas na lojinha a preço módico. De fato, as tesouras já não são mais aquelas. Americanas ou alemãs de nome complicado. Hoje nem nome tem. São feitas na China e vendidas sem marca para que venham e passem e não deixem sombra de sua passagem.
GERINGONÇA
A geringonça do amolador era aquela mesmo de nossa lembrança. Faça um esforço, feche os olhos, esprema-os. Tinha a pedra redonda que girava com ajuda de uma roldana, uma cinta de borracha e um pedal movido por um só pé. A estrutura triangular era de madeira, com uma roda só.
Penso que quem inventou a máquina do amolador era tão genial quanto o inventor da caixa de engraxate. Basta uma caixa de maçã, se é que ainda as fazem de madeira. Depois tire os pregos de um dos lados menores do retângulo para formar o triângulo isósceles. Claro que engraxate que de preza não sabe na disso. Em Curitiba há uma boca do brilho de engraxates. E brilho é o que eles sabem dar.
O SILVO E OS TONS
Olho no espelho do carro e lá se vai o amolador a amolar sua tesoura invisível. Quantos haverá por aí? Talvez ele seja o último deles. O representante de uma vida que era, deveras, mais contemplativa e certamente mais silenciosa. De que outro jeito alguém poderia ouvir as notas do amolador? O silvo cortado e suave. O assopro breve e agudo. A pausa entre tons melodiosos. Eu vi outro dia um amolador. Na altura da Mateus Leme. No instante do sinal fechado em que os ouvidos ecoam e precedem a buzina que não tocou. Ele passou perto de mim.
