quinta-feira, 29 outubro, 2026
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Esporte e Destino: A era do turismo em movimento

Por Marilia Mesquita – Há quem defenda que férias perfeitas exigem pés para cima, rede armada e o som das ondas sem qualquer tipo de compromisso com o relógio. Mas uma transformação silenciosa vem redefinindo o conceito de descanso. Para um número crescente de viajantes, a bagagem perfeita não está completa sem um par de tênis rodados, a bicicleta de estimação ou o relógio GPS ajustado para o fuso horário local. O destino deixou de ser apenas um lugar para contemplar; tornou-se um território a ser percorrido em movimento.

O fenômeno do Sports Tourism (ou turismo esportivo) deixou de ser um nicho restrito a atletas profissionais e tomou conta do imaginário do praticante amador. A busca por corridas de montanha (trail running), maratonas em grandes capitais culturais e circuitos abertos de ciclismo passou a ditar calendários anuais de férias, escolhas de destinos e orçamentos familiares.

Essa mudança de comportamento revela algo profundo sobre como nos relacionamos com o tempo e com a saúde mental. Enquanto o turismo convencional costuma ser mais passivo e focado na contemplação tradicional, a viagem esportiva propõe uma imersão física com o território. Em vez de percorrer uma cidade de ônibus ou táxi, o viajante atleta sente a geografia nativa sob os pés e desafia seus próprios limites em meio à paisagem.

Essa engrenagem em movimento também se tornou uma das forças econômicas mais potentes da indústria global de viagens. O turismo esportivo movimenta centenas de bilhões de dólares ao ano no mundo, apresentando taxas de crescimento que superam as do turismo tradicional. O grande diferencial econômico desse perfil de viajante está no ticket médio e na permanência prolongada. O atleta-viajante raramente viaja sozinho: ele mobiliza familiares, assessorias e grupos de treino, movimentando uma cadeia que vai muito além das inscrições das provas. Trata-se de um consumo qualificado que injeta recursos na hotelaria, na gastronomia, no transporte especializado e no comércio de artigos esportivos.

Mais do que aumentar a receita total, a economia do esporte resolve um dos maiores gargalos do setor de turismo: a sazonalidade. Provas de corrida e circuitos de ciclismo atraem multidões em períodos de baixa temporada, preenchendo leitos de hotéis e movimentando restaurantes nos meses em que o turismo tradicional costuma arrefecer.

Essa busca por cenários desafiadores se traduz em rotas cada vez mais variadas no Brasil. Para os entusiastas das duas rodas, trajetos como o Circuito Vale Europeu, em Santa Catarina, tornaram-se referências de cicloturismo, combinando estradas de terra e cultura local. Já os corredores de montanha buscam os desníveis e a altitude da Serra do Lopo, na Mantiqueira, ou as travessias técnicas e acidentadas do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Há ainda quem busque a exigência física máxima nos cenários surreais dos Lençóis Maranhenses, onde caminhar ou correr sobre as dunas exige ritmo, resistência e adaptação ao clima.

Além das fronteiras nacionais, o movimento atinge escala global em templos do esporte outdoor. A icônica cidade de Chamonix-Mont-Blanc, nos Alpes franceses, berço do trail running mundial e sede do lendário Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), e os vales de Bariloche, na Patagônia argentina, mostram como regiões inteiras moldaram sua infraestrutura e sua economia para receber atletas que buscam conectar a paixão pelo esporte ao prazer de viajar.

Em um mundo dominado por telas e rotinas sedentárias, correr por uma trilha na serra ao amanhecer ou pedalar por estradas de cascalho oferece uma reconexão imediata com os sentidos. Esse ciclo econômico e humano favorece um turismo mais consciente e sustentável, no qual guias nativos, pequenos comerciantes e a preservação ambiental ganham protagonismo direto.

*Marília Mesquita é jornalista e assessora de imprensa. Entende que a combinação de esporte e viagens oferece uma mundo de oportunidades para experiêncas únicas, nos conectando com a natureza, enquanto exploramos diversas culturas

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