
Declarações de Emannuel Publio Dias, professor da ESPM, de São Paulo, especial para esta Coluna/Blog (*).
Ele é professor de publicidade e consultor em marketing político, professor e ex- vice-presidente da ESPM, a mais importante escola brasileira de propaganda e marketing do país. Para Emannuel, as pesquisas eleitorais têm alto índice de confiabilidade. Reconhece que algumas podem ter falhado, como exceção.
A garantia de qualidade repousa na amostragem recolhida. No PR, o TSE registrou 100 pesquisas eleitorais.
Como os duendes, as pesquisas de intenção de voto costumam ser severamente destratadas, principalmente por quem não acredita nelas. Como as pesquisas, os duendes não se mostram facilmente e falam numa língua estranha, que poucos entendem. E quando maltratadas, as pesquisas costumam infligir duros castigos aos infiéis. Eu acredito em pesquisas.
Ao longo de décadas, os principais institutos brasileiros nos informaram claramente, o que estava acontecendo com o envolvimento e intenções de votos dos eleitores, revelando não apenas como votariam (e não votariam) os brasileiros naquele dia específico em que foram perguntados pelos entrevistadores, mas como essa tendência se iria consolidar no dia da votação real.
NELSON RODRIGUES
Parodiando o grande Nelson Rodrigues, tenho visto muita má-fé cínica ou obtusidade córnea quando alguém proclama o “fracasso” das pesquisas, a partir do desconhecimento de como realmente elas funcionam. Pesquisas de opinião pública de intenções de voto, aferidas por pesquisas quantitativas, estão fundamentadas em décadas de estudos empíricos, desde que o estatístico George Gallup, em 1936, utilizando uma pequena base de entrevistados, previu acertadamente a vitória do democrata Franklin Roosevelt, contra o prognóstico da revista Literary Digest que, consultando seus 2,3 milhões de leitores, indicou a vitória do republicano Alfred Landon.
QUAL O SEGREDO?
Qual o segredo? Basicamente, para se entender pesquisas de intenção de votos, é preciso conhecer dois conceitos fundamentais: universo e amostra. Universo é o total de eleitores que você quer consultar e amostra é o total de entrevistados que representa, estatisticamente, aquela amostra. Como acreditar que 1000 entrevistados de uma cidade represente a vontade de milhões de eleitores, como é o caso de Curitiba? De novo, o segredo, está na amostra. Se me perguntarem se o barreado está bom de sal, eu não preciso comer toda a panela.
SEGURANÇA DA AMOSTRA
Eu provo uma colherada (a amostra) e posso dizer com segurança que todo o conteúdo da panela (o universo) está ou não salgado. Mesmo que eu responda que está bom de sal, nada impede que alguém jogue mais sal na panela e o prato fique salgado. Eu não posso dizer se o barreado estará salgado quando for à mesa, mas posso dizer, com certeza, que no momento em que provei, estava bom. Este é outro importante fator de compreensão das informações obtidas de uma pesquisa eleitoral.
Os resultados são válidos e confiáveis no momento em que o questionário foi aplicado. A pergunta que os entrevistados respondem é: “Se a eleição para cargo/cidade fosse hoje e os candidatos fossem estes, em quem você votaria?”. Onde “hoje” é o dia em que o entrevistado respondeu e, numa pesquisa de qualidade, os candidatos são apresentados de uma só vez, seus nomes dispostos num disco de forma imparcial. Portanto, pesquisas não preveem resultados, apenas retratam a intenção do eleitor naquele momento. Intenção que pode (e cada vez mais acontece) mudar até o dia/momento em que o eleitor digita o nome/número do candidato da sua preferência.
UM RIO CALMO…
Pense numa foto de um remanso às margens do rio Nhundiaquara . Olhando para a foto, pode-se dizer que se trata de um rio calmo, você pode até descansar num boiacross. Apenas para morrer 300 metros adiante, quando aquele calmo rio torna-se uma caudalosa corredeira por conta do desnível do terreno ou intensas precipitações nas cabeceiras da Serra do Mar. Se você quisesse entender ou prever o curso do rio, teria que fazer várias fotos, em vários momentos, não apenas fotografando as margens, mas também fotos aéreas, onde pudesse ver e entender toda a bacia hidrográfica.
FOTO DO MOMENTO
Pesquisas são assim, servem para fotografar aquele momento. Se quiser entender ou prever seu desenvolvimento, terá que identificar as tendências de cada candidato, verificar indícios a partir das segmentações dos resultados e de outras fontes de informação (presença na mídia e em redes sociais, por exemplo), conhecer o histórico das eleições passadas, acompanhar que fatos estarão interferindo ou não nos resultados, para só então poder arriscar uma hipótese.
Não é fácil, mas é possível. Bons analistas costumar acertar muito mais que errar, baseando-se nesta análise ampla e, principalmente, tendo à disposição uma série histórica de pesquisas bem planejadas e elaboradas, bem aplicadas, com amostras cientificamente constituídas por um instituto de opinião com tradição de qualidade.
HÁ ERROS GROSSEIROS
Mas como explicar os “erros grosseiros” da pesquisa, “muito acima das margens de erro”? Quase sempre, os erros resultam de erros de leitura e interpretação. Ou de falhas no planejamento da amostra e aplicação dos questionários. Desde os erros mais básicos, como “congelar” os resultados de um processo dinâmico, não saber diferenciar o universo correspondente à amostra (muito comum quando se confundem intenções de votos medidos pela pesquisa e os resultados oficiais – que tem bases/universos distintos), até casos de má-fé e desonestidade mesmo, seja de quem lê, seja de quem aplica a pesquisa. Sem contar com as margens de erro e intervalos de confiança.
MARGEM DE ERRO 3%
Uma pesquisa com 3% de margem de erro retrata exatamente isso: a possibilidade que um resultado apresentado esteja 3% acima ou abaixo do verdadeiro. O intervalo de confiança, geralmente de 95%, quer dizer que se aplicada 100 vezes, a mesma pesquisa poderá apresentar resultados distintos em 5 casos. E de novo, a única forma de ter certeza dos resultados de uma pesquisa é fazer mais pesquisas, de forma que o eventual erro fique visível.
Podemos confiar nas atuais pesquisas de intenção de voto? Eu diria que, feitas por institutos confiáveis (com histórico de credibilidade) e com fontes de financiamento transparentes, sim. E aqui temos um problema: cresce o número de pesquisas financiadas pelos próprios institutos, ou seja, sem um cliente interessado pagante.
INFORMAR TUDO À JUSTIÇA
No Brasil a legislação eleitoral exige que, para serem divulgadas (por qualquer meio), as pesquisas precisam estar registradas no TSE, onde o instituto é obrigado a informar toda a metodologia (constituição da amostra, questionário a ser aplicado, data das entrevistas, etc.), o valor da pesquisa e também, quem encomendou e quem paga a pesquisa. Se ninguém encomendou ou pagou pela pesquisa, conclui-se que o próprio instituto irá financiá-la. Já nas eleições presidenciais de 2014, institutos que informaram estar autofinanciando suas pesquisas saltaram de 165 para 752.
DIMINUÍRAM E AUMENTARAM
Em matéria publicada dia 28/10, o jornal Valor informa que, enquanto as pesquisas eleitorais com financiadores identificados (partidos, mídia, bancos), diminuíram de 1408 para 1342, as pesquisas financiadas com recursos próprios cresceram de 696 para 2630. Estes recursos próprios ascendem a R$34 milhões em centenas de pesquisas por todo o Brasil, como informa o jornal. Apesar de serem difíceis de detectar, vários desses institutos têm sido punidos pelo TSE por inconsistências metodológicas e/ou de aplicação (campo). Outro fator de desconfiança diz respeito ao valor autofinanciado pelo instituto.
Nos bancos de dados do TSE é possível encontrar registros de pesquisas com valores completamente irreais, nas duas pontas, de R$2.000,00 a R$ 5 milhões. Para saber detalhes de pesquisas eleitorais em sua cidade, você pode consultar diretamente TSE, no endereço http://inter01.tse.jus.br/pesqelepublico/app/pesquisa/listar.xhtml
NO PR, 100 PESQUISAS
Usando os filtros, você poderá saber quais institutos registraram pesquisas em qualquer município do Brasil. E para cada pesquisa, o plano metodológico, data de campo e publicação, valor, quem é o contratante ou se é feita com recursos próprios. No estado do Paraná, o TSE informa mais de 100 pesquisas registradas, a grande maioria, com recursos próprios.
Para Curitiba, registraram-se até hoje 5 institutos, apenas um deles (Ibope) com contratante declarado (Rede Paranaense). Esclareça-se ainda: apenas pesquisas registradas no TSE podem ser divulgadas, por qualquer meio, veículo ou rede social. Voltando ao início, eu acredito em pesquisas e nos institutos de pesquisa. Assim como qualquer outro fornecedor de conteúdo, procuro me informar de seu histórico, profissionais responsáveis, quem contrata a pesquisa, se é filiado à ABEP – Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa e signatário dos vários códigos de conduta e boas práticas.
CLARO, HOUVE ERROS…
Claro que já houve grandes erros em alguns colégios eleitorais, mesmo partindo dos resultados de institutos tradicionais. Isso não empana o grande sucesso e profissionalismo com que os institutos sérios trabalham suas pesquisas, indispensáveis aos profissionais para traçarem as estratégias de seus candidatos e aos eleitores para a formação e consolidação de suas intenções de voto. No auge das diatribes contra pesquisas, ouvi de gente séria e democrata, sugestões e pedidos de se estabelecerem “limites e controles” à divulgação de pesquisas eleitorais e até seu banimento. A realização de pesquisas de opinião e sua livre divulgação é parte integrante e fundamental dos direitos e cânones da liberdade da expressão.
Revelar anonimamente sua intenção de voto, conhecer o que pensa o conjunto dos eleitores em determinado momento do processo eleitoral, são direitos a serem preservados para todo o conjunto dos formadores e receptores da opinião pública. Restringir sua divulgação é subtrair esse importante insumo para a decisão de voto, preservando-o apenas para os políticos, partidos, imprensa e investidores, que continuariam a fazer suas pesquisas sem divulgá-las, configurando um intolerável privilégio para a isonomia do processo democrático de uma sociedade republicana.
PESQUISA & LIBERDADE
Quem luta pela liberdade de expressão não pode ser contra a divulgação de pesquisas. Assim como no jornalismo, há boas e más, honestas e desonestas, éticas e não éticas; sem que se invoque a censura por conta desses desvios. Mais e melhores pesquisas, feitas e divulgadas por institutos e veículos de imprensa sérios (inclusive as pesquisas qualitativas), assim como mais jornalismo, são o melhor antídoto para os desvios, desinformação e manipulações.

