terça-feira, 30 junho, 2026
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Encerrando, por ora, a polêmica “Dr. Leocádio” – final (I)

Giulio Ferrari: acusações amplas.
Giulio Ferrari: acusações amplas.

Com a entrevista feita pelo jornalista André Nunes, complementando outra que fiz, dias atrás, com Giulio Ferrari, sobre supostos abusos sexuais que teriam sido cometidos pelo médium Maury Rodrigues da Cruz no ‘Centro Espírita Dr. Leocádio Correa’ e na Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE), este espaço registra a penúltima grande abordagem desta série.

A próxima reportagem sobre o assunto, que tanto envolve o interesse de milhares de leitores, será dedicada a ouvir o professor de pós-graduação em Psicologia, o sociólogo Rui Paz. Ele desmente todas as acusações contra o professor Maury Cruz e faz defesa ampla e irrestrita do educador e líder religioso, destinando “boutades” contra Giulio (Julio Cezar Sá Ferreira Filho. A seguir:

A VERSÃO DE GIULIO FERRARI

“O abuso sexual não acontece contra um homem ou uma mulher. Ele acontece contra um ser humano”, afirma Giulio Ferrari

Colaboração de André Nunes

Julio Cézar Sá Ferreira Filho, brasileiro de 38 anos, vive nos Estados Unidos há mais de uma década. Lá, mudou o nome para Giulio Ferrari – a versão em italiano que, segundo ele, “lhe abre mais portas” e diminui o preconceito que sofre pelo nome latino e a barba de “aparência árabe”.

Sob o espectro do autismo, tem Síndrome de Asperge e vive normalmente.

Casado, pai de três filhos, autônomo e dono de um pet shop, Ferrari se tornou o centro de um dos casos mais polêmicos envolvendo a comunidade espírita de Curitiba, sobre acusações de estelionato, assédios e abusos sexuais supostamente praticados pelo médium Maury Rodrigues da Cruz, diretor presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas (SBEE).

CASO MAURY

Segundo reportagem do G1 Paraná, no dia 14 de agosto a Justiça do Paraná aceitou denúncia contra o médium Maury Rodrigues da Cruz pelos crimes de violação sexual mediante fraude e estelionato. A denúncia foi oferecida pelo Ministério Público do Paraná (MP-PR).

Maury Rodrigues da Cruz: epicentro das acusações
Maury Rodrigues da Cruz: epicentro das acusações

Com a decisão, o médium, que também foi diretor do Museu Paranaense e professor universitário, passa a responder como réu no processo. O caso corre em segredo de Justiça. Além das três pessoas citadas na denúncia, os promotores do MP-PR ouviram pelo menos 20 pessoas que também relataram o caso. Entretanto, na maioria dos casos, os crimes prescreveram. Na denúncia, estão casos que ocorreram há menos de seis meses, desde o início das investigações em fevereiro de 2018.

Em síntese, as acusações apresentadas por Giulio Ferrari e demais testemunhas são as de que o líder religioso teria molestado algo entre 20 e 59 homens, jovens e adultos, nos últimos 20 anos (haveria ainda, segundo Giulio, uma suposta denúncia de pedofilia já prescrita, contra um menino de sete anos ocorrida há 53 anos – o acusante não identificado teria hoje, portanto, 60 anos). Alega ainda que uma das supostas vítimas do professor Maury – um frequentador do Centro Dr. Leocádio, Sr. Luiz Vencato, teria feitos doações de R$ 5,5 milhões à reforma da sede do SBEE, conforme já relatado a esta coluna.

YOUTUBE E IMPRENSA

Em ligação via WhatsApp de quase duas horas, Giulio Ferrari conta que seu objetivo com a divulgação do caso no Youtube e na imprensa (iniciada em maio a partir de reportagem da Rede Massa, seguida pela RIC TV) seria a de “buscar vítimas recentes”.

“A cada seis meses os casos caducam, devido à idade do réu – mais de 70 anos -, então as denúncias de assédio ou abuso sexual precisam ser dentro desse período. Tínhamos uma vítima confirmada e, após a divulgação da Rede Massa, surgiram mais duas vítimas que formam os três casos citados na denúncia do MPE, um por estelionato e dois por assédio sexual”, explica.

De perfil conservador, com postagens nas redes sociais sobre armas e um antipetismo declarado, Ferrari gerencia a página no Facebook “Desmascarando Maury Rodrigues da Cruz Médium 171” e o site: https://www.desmascarando.com.br/.

Ele conta que, mesmo com os primeiros vídeos censurados pela Justiça brasileira (é réu em processo de calúnia e difamação, movido por Maury Rodrigues da Cruz), “a liberdade de expressão do Youtube e Facebook garantem que o conteúdo dos vídeos possa ser postado e replicado em outros canais e sites”.

CAÇA A PEDÓFILOS

No tempo em que vive nos Estados Unidos, Ferrari conta que buscou se especializar na leitura de livros e casos que envolvem psicopatas e pedófilos. “Os estudos sobre psicopatas feitos por especialistas americanos são recentes, começaram nos anos 1970. A maioria dos autores ainda está viva, conheci alguns pessoalmente. Aqui existe uma cartilha de treinamento em que o FBI ensina a como identificar pedófilos. Posso dizer que hoje estou tão qualificado nesse assunto quanto os melhores especialistas brasileiros”, considera.

Ferrari conta que está em contato com a Polícia Federal do Brasil e o FBI para ajudar a identificar e denunciar uma rede de pedofilia no Brasil que, segundo ele, se comunica via grupos de Facebook e WhatsApp.

“Uma coisa que descobri ao ter acesso a esses grupos online é que, quando achamos um indivíduo, a gente acaba descobrindo uma cadeia de pessoas. Estamos passando por uma nova era, a era da comunicação. É isso que quebra os paradigmas: alguém de fora do país conseguir criar um movimento que coloca alguém na Justiça no Brasil”.

CONSCIENTIZAÇÃO CONTRA ABUSOS SEXUAIS

Ferrari se considera um “humanitarian”, algo como um “humanista secular e agnóstico”, que crê em Deus e busca ajudar o próximo, mas não professa nenhuma religião. O tema é recorrente em sua entrevista, entrecortada por citações a documentários da Netflix sobre o tema, como “Holy Hell”, e o podcast do americano Joe Rogan que aborta a Cientologia.

“Acredito que exista uma energia maior, da qual todos nós fazemos parte, a tecelagem do universo. Mas esse ser é tão grande que não vai se preocupar com a nossa cor, gênero ou sexualidade. Eu estive no meio espírita na juventude e no meio evangélico por quase 20 anos, onde também tive contato com casos de abusos de homens e mulheres. Também quero fazer essa exposição um dia, hoje sei identificar a psicologia por trás dos abusadores”.

Giulio Ferrari afirma que sua luta atual é pela conscientização contra assédios e abusos sexuais. “Precisamos criar compaixão na sociedade em relação às vítimas: crianças, jovens e adultos. Independente se são homens ou mulheres, héteros ou gays. Me tornei um ativista social. É um absurdo a quantidade de estupros e abusos que chegam ao meu conhecimento. O abuso sexual não acontece contra um gênero, um homem ou uma mulher. Ele acontece contra um ser humano. Me mata quando escuto gente dizendo que ‘deve ter sido pior por que você era homem’. Não, as mulheres sofrem da mesma forma! Mulher não deve pensar que está mais suscetível a isso. Abuso de qualquer espécie jamais deve ser naturalizado”.

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