Assessoria – O Brasil registrou, em 2024, o maior número de pedidos de refúgio de sua história. Segundo dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do relatório Refúgio em Números, foram 68.159 solicitações no ano, elevando para 156.612 o total de pessoas reconhecidas como refugiadas no país até o fim de 2024.
Venezuelanos, cubanos e angolanos lideram os pedidos. Apesar de políticas públicas como a Operação Acolhida, desafios como a barreira linguística, o acesso à educação e a inserção no mercado de trabalho seguem como entraves centrais à integração, especialmente para mulheres e populações em situação de maior vulnerabilidade.
É nesse cenário que se insere a trajetória de iniciativas desenvolvidas pela Estácio e pelo Instituto Yduqs ao longo da última década, articulando educação, esporte, certificação linguística e apoio jurídico como instrumentos de acolhimento, inclusão social e reconstrução de trajetórias. Todas as ações são oferecidas de forma gratuita, estruturadas com metodologia própria, planejamento pedagógico e o engajamento voluntário de docentes e estudantes, especialmente das licenciaturas, que atuam diretamente no atendimento às populações em situação de vulnerabilidade, entre elas migrantes e refugiados. Parte dessas iniciativas conta, ainda, com o apoio metodológico da Educação Sem Fronteiras, organização de referência em políticas educacionais voltadas a migrantes e refugiados, fortalecendo a qualidade pedagógica e a efetividade das ações desenvolvidas.
O primeiro marco dessa atuação ocorreu em 2016, durante os Jogos Olímpicos do Rio. Em parceria com o Instituto Reação, a Estácio acolheu os judocas Popole Misenga e Yolande Mabika, refugiados do Congo que integraram o Time Olímpico de Refugiados. Além do suporte esportivo, ambos receberam aulas de português e apoio educacional, fundamentais para a adaptação ao país e a reconstrução de suas trajetórias.
As iniciativas ganharam novos desdobramentos em vários estados, incluindo o Paraná. A unidade da Estácio em Curitiba passou a receber, em 2025, bolsistas angolanos matriculados nos cursos de Ciências Contábeis e Estética e Cosmética.
Entre os estudantes acolhidos pelas iniciativas educacionais da Estácio está o angolano Mairo Graça da Costa Agostinho, de 33 anos, aluno do sexto período de Ciências Contábeis no Paraná. Há quase cinco anos no Brasil, ele chegou ao país motivado principalmente pelo desejo de ampliar sua formação acadêmica e construir novas oportunidades profissionais.
Ele conta que o objetivo de migrar para o Brasil foi para estudar, além de crescer na área escolhida. “Escolhi fazer presencial pela interação direta com os professores e com os colegas, fui bem acolhido por todos e eles se colocavam à disposição para qualquer dificuldade que eu poderia ter”. Mairo, mesmo antes de formado, já atua na área como assistente contábil, conciliando trabalho e estudos. A expectativa é concluir o curso no primeiro semestre do próximo ano. “É a realização de um sonho. Em todos os lugares onde estudei, sempre busquei a contabilidade. É uma área de que eu gosto muito”, afirma.
A irmã de Mairo também encontrou na educação uma oportunidade de transformação. Delgina Armanda da Costa Agostinho, 29 anos, formada em Estética e Cosmética pela Estácio, conta que o diploma para ela representou um período de intenso aprendizado e crescimento pessoal e profissional. “Meu objetivo de vir para o Brasil foi para estudar, em busca de novas oportunidades, crescimento profissional e qualidade de vida. Acabei amando o país, me sinto muito bem aqui e pretendo ficar”.
Sobre a acolhida pela Estácio, ela conta que a experiência foi positiva. “Me senti bem recebida e apoiada durante a graduação, tanto no ambiente acadêmico quanto no processo de adaptação, o que contribuiu bastante para minha trajetória como estudante”.
Delgina conta que escolheu a graduação com o objetivo de se qualificar, aprofundar os conhecimentos na área da estética e ampliar as possibilidades de inserção no mercado de trabalho. Atualmente, atua na área e busca consolidar sua experiência profissional.
Compromisso com a inclusão
Para a vice-presidente do grupo Yduqs e presidente do Instituto Yduqs, Cláudia Romano, o compromisso com a inclusão de pessoas refugiadas se constrói por meio de parcerias e de uma atuação educacional consistente. “Mais do que acolher, assumimos a responsabilidade de garantir acesso real à educação, ampliando possibilidades de integração, autonomia e futuro. Aprendemos que as pessoas vindas de outros países são extraordinárias, com talentos, histórias e uma enorme vontade de contribuir — o que precisam é acesso e oportunidade. Iniciativas como o ensino de português, a alfabetização, a certificação e o apoio jurídico mostram que, quando há propósito, técnica e cooperação com instituições que realizam um trabalho admirável, a educação se torna uma poderosa ferramenta de transformação. Cada formação representa dignidade, pertencimento e liberdade para voar mais alto.”
Além das ações voltadas diretamente ao acolhimento de migrantes, a Estácio e o Instituto Yduqs mantêm o Programa de Alfabetização e Letramento, uma iniciativa educacional de caráter amplo, com metodologia própria, voltada à formação de jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social. O programa já atendeu mais de 2.000 pessoas, está presente em 18 unidades de ensino — 17 da Estácio —, nas regiões Sudeste, Nordeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil, e contempla pessoas que ainda não dominam a leitura e a escrita em língua portuguesa.
