
De manhã, bem cedo, neste primeiro de dezembro, os dois jornalões de São Paulo – a Folha e o Estadão – deixavam claro em suas principais notícias, que o assunto religião estava ganhando mais espaço (e importância?) que temas econômicos. Num deles, Lula, com aquele pragmatismo que o caracteriza e a capacidade de mesmerizar auditórios meio “descuidados”, condenava os que “tratam os evangélicos como gado”. Disse que ele e o PT não se portam assim. Até poderia ter lembrado os tempos em que em 2006, e depois, nos governos Dilma, quando os evangélicos distribuíam bênçãos e faziam orações no Palácio do Planalto. Tudo a mãos cheias. Ações de fé então – lembro – capitaneadas por lideranças tipo Edir Macedo e Silas Malafaia.

É A RELIGIÃO, IMBECIL (2)
Os mesmo jornais ocupavam-se de outro tema do dia: a escolha ou não de André Mendonça para o STF. Boa parte das análises e prognósticos envolvia a crença religiosa do ex-ministro da Justiça. O pastor presbiteriano era examinado numa “pescaria”, para se o dissecar o que poderia ser contradição entre sua crença, e o possível exercício no Supremo. Ele não fugiu: garantiu aceitar a realidade de o Brasil ser um país laico. Como não escondeu sua admiração por Jair Bolsonaro.

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A relatora na CCJ, senadora Elizlaine, do Maranhão, membro da Assembleia de Deus, foi sintética na abertura da reunião: leu resumo de relatório, citando – de passagem – que “muitos prêmios Nobel são protestantes. Queria, com isso, mostrar que as igrejas evangélicas não são constituídas por massa de pobres e despreparados cristãos. Fez uma longa dissertação sobre a Reforma, mas nem tocou nos movimentos evangélicos que hoje contam no Brasil, pentecostais e neopentecostais.
Cheia de boa vontade para com Mendonça, a relatora o apontou como um pastor dedicado e sobretudo bem equipado juridicamente. Foi declaração observada ‘ in loco”, por ampla platéia de ministros evangélicos, como Silas Malafaia e outros menos expressivos.

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Quem ouviu atentamente certos momentos do depoimento de Mendonça pode até imaginar que ele estava depondo diante de um sínodo eclesial; ou sendo sabatinado em prova de curso de Teologia. Mas a verdade é que não negou fogo. Disse que, no STF, julgará segundo a Constituição e, na vida pessoal, seu visor será a Bíblia, sempre.
Mendonça poderia ter tomado como provocação a pergunta que lhe fez o senador Comparato, do Espírito Santo, que queria saber sobre sua posição com relação a casamentos de gays. O senador, gay assumido, pai de família, ex-policial, não colocou Mendonça na parede. Ouviu resposta que talvez não esperasse: o ex-ministro da Justiça aceita o casamento gay. Mudando de rumo, Mendonça garantiu que houve uma grande corrente de oração de ervangélicos, no dia, por sua escolha ao STF.
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Mendonça teve seu momento de triunfalismo religioso, quando, em meio a uma resposta, garantiu que, em 10 anos, no Brasil, “os evangélicos serão maioria”. A afirmação deve estar fundamentada em estudos de demógrafos, talvez os mesmos que subsidiaram o sociólogo Juliano Spyer, autor de um dos livros mais esclarecedores sobre o avanço evangélico no Brasil, que garante também essa maioria para o próximo decênio. “O Povo de Deus”, de Spyers, eu recomendo a todos com interesse no tema, que envolve sobretudo antropologia cultural.
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Para o deputado estadual Luiz Carlos Martins, um católico moldado por forte espírito ecumênico, a declaração de Mendonça “pode proceder”, diz. Mas faz uma observação oportuna: “Será que a perda da maioria católica não levará aquela multidão que se diz católica, “de tradição”,que sequer sabe rezar o pai nosso?

