
Morreu José Eugênio Ghignone, 95, que o Paraná conhecia simplesmente por “Dude” Ghignone. Foi sepultado no domingo, em Curitiba.
Por trás da fria notícia, há todo um enredo envolvendo esse tipo humano raro que fez pela vida cultural do Paraná “centenas de vezes mais do que muitas autoridades da área cultural, gente que posa de importante, mas é dona de enorme desimportância”, sentenciou no domingo o escritor e jornalista Fábio Campana, cujo blog foi o primeiro a registrar a morte do lendário “Dude”…
Campana foi um dos representantes da “intelligentsia” do Paraná a beber na fonte da Livraria Ghignone, e, consequentemente, das luzes, críticas, orientações e sugestões desse livreiro gestado na melhor escola intelectual possível. Uma escola que incluiu, como preceptores, Jorge Amado, José Olímpio, Enio Silveira, os irmãos Bertasso, da editora Globo, e muitas discussões.
“Dude” escolheu ser livreiro, fugiu do curso de Direito, quis apreender os mínimos mistérios dessa profissão – começando nos anos 1930 -, tendo por guia e mestre seu pai, o livreiro João Ghignone.
Pode-se dizer, sem medo de exageros, que “Dude” viveu e viu todos os lances mais importantes da vida cultural e política do Paraná. Sua memória – que recolhi em depoimento para a revista Ideias, dezembro de 2006, e depois ampliei no meu livro “Vozes do Paraná”, retratos de Paranaenses”, volume 1 – era uma aula de recordações consistentes. Das suas palavras nada se perdia, os fatos que viu e/ou ajudou a montar, eram por ele expostos com ampla contextualização e clareza. Anotem um, como exemplo:
– Meu pai, João Ghignone, filho de italianos de Turim, foi mola mestra, com Abib Isfer, criando a Federação Espírita do Paraná e suas muitas obras sociais. Fazia também reuniões espiritualistas, que sempre respeitei, mas das quais não participava.
Só posso lembrar, com bom humor, do dia em que o interventor Manoel Ribas foi à nossa casa, em busca de orientação kardecista. A partir dali, o pessoal da rua passou a nos olhar positivamente diferente…”
Houve toda uma época de contestação política e espírito libertário, sob o signo do PCB, o “partidão”, então na ilegalidade, indissociável de “Dude”. Às vezes o grupo se reunia informalmente na livraria, a maioria das vezes – e sempre com presença de “Dude” – no Café Belas Artes. O grupo era de notáveis dos anos 1940/50, composto de nomes como o médico Jorge Karam, Manfredini (avô do jornalista Luiz Manfredini), o advogado Vieira Neto… Mais tarde, dele participariam o advogado Eduardo Rocha Virmond, o pintor Nilo Previde, e a professora Dalena dos Guimarães Alves.
“Pode-se dizer, sem medo de exageros, que “Dude” viveu e viu todos os lances mais importantes da vida cultural e política do Paraná. Sua memória – que recolhi em depoimento para a revista Ideias, dezembro de 2006, e depois ampliei no meu livro “Vozes do Paraná”, retratos de Paranaenses”, volume 1 – era uma aula de recordações.”

As andanças de “Dude” para formar-se livreiro de qualidade igual (ou superior) aos de centros como Rio, São Paulo, Porto Alegre, levaram-no a contatos com José Olímpio, os irmãos Bertasso, o editor Ennio Silveira, Monteiro Lobato. De todos eles recolheu lições e conselhos que depois aplicaria na Livraria Ghignone.
Uma de suas máximas – confessou-me em bom som – era não apoiar “esse lixo que é a literatura de autoajuda”. Dito com a energia de quem estava exorcizando um tipo de mal no mundo livreiro. Uma exceção nesse capítulo foi ser condescendente com as edições de Daly Carnegie, e suas obras. Uma delas, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, editadas por Lobato, amigo dos Ghignone.
Muito mais que expor e vender livros, “Dude” me garantiu que sua vida foi pautada pelo projeto – bem-sucedido, admitiu – de fixar e transmitir o pensamento “de gente que tinha a contribuir para o mundo das ideias”, explicou.
“Dude” refestelava-se de bom humor (momentos raros nele), lembrando que para os policiais censores da PF, gestados no espírito de 1964 – “bastava um autor ser russo e/ou um livro ter capa vermelha para ser considerado subversivo”.
Nunca escondeu sua formação marxista, e que estava interessado na criação de uma sociedade mais justa, possibilidade que, acreditava, poderia ser alcançada pelo marxismo.
Por isso, garantiu-me, “até entendi” porque a livraria Ghignone foi sempre tão vigiada pela polícia e a repressão da inteligência militar “a partir de 1964”. E isso tinha uma explicação, segundo “Dude”: “nós não vendíamos apenas livros, principalmente ajudávamos a disseminar ideias, novos rumos, acolhíamos especialmente os mais jovens, universitários que queriam participar desse processo de esclarecimento”.
Procurando ser justo com relação a fatos históricos, teve palavras de amizade a respeito ao delegado Miguel Zacharias, delegado de Ordem Política e Social (DOPS), anos 1960, em quem sempre viu um “ser nobre, incapaz de perseguições a ideais.” Disse que, por isso, diante desse perfil de Zacharias, “nem sei como ele foi escolhido para o DOPS”.
Uma multidão de homens e mulheres de espírito se abasteceram, por anos a fio, na livraria Ghignone, fazendo dela um ponto de encontro de políticos , escritores e pensadores, gente como: Campana, Sylvio Back, Luiz Roberto Soares, Newton Freire Maia, Wilson Martins (considerado um homem de direita), Norton Macedo, Hélio Puglielli, Luiz Geraldo Mazza, Tânia Galvão, Mimi Batista, Cassiana de Lacerda, Oscar Milton Volpini, Márcio Renato dos Santos, professor Vieira Neto; e nomes nacionais, como Tônia Carrero, Maria Della Costa, Érico Veríssimo, Luiz Viana Moog, Paulo Prado, Hilda Hilst, Jorge Amado, José Lins do Rego, Amílcar Gigante… Ernani Reichmann, Cecília Meirelles.
De Lobato ainda guardava outra lembrança: o escritor, ateu professo, pediu ajuda ao pai de “Dude”, para consultas espiritualistas: queria “contato com mortos de sua família”.
Com a morte de João Eugênio Ghignone foi-se a oportunidade de se esmiuçar como funcionava ” a cabeça” dos agentes da Polícia Federal encarregados de censurar a criação intelectual. No depoimento que me deu – bem antes da Lava Jato, que redime a PF -, “Dude” refestelava-se de bom humor (momentos raros nele), lembrando que para os policiais censores da PF, gestados no espírito de 1964 – “bastava um autor ser russo e/ou um livro ter capa vermelha para ser considerado subversivo”.

