“… mas houve silêncio total sobre os 30 mil presos executados em 4 meses pelo regime de Teerã quando reinava o aiatolá Khomeini e as atrocidades cometidas contra homossexuais, ‘adúlteras’ e crianças!”

Caro Professor Aroldo,
Recorro à sua lidíssima coluna, em caráter pessoal, para manifestar minha perplexidade em relação ao grau de subserviência que o jornalismo de hoje em dia é capaz chegar, quando, ao invés de cumprir seu papel de bem informar a opinião pública, sem tomar partido, decide adular, tornar-se servil aos sátrapas de plantão, levando os leitores em geral, a acreditarem em factoides como sendo verdades absolutas. Refiro-me ao jornal Folha de S. Paulo, que em sua edição de ontem (03.10.2018) publicou notícia sobre as próximas eleições com o título “Judeus progressistas repudiam acenos de Jair Bolsonaro a Israel”. Nela, observa que “um grupo com mais de 50 judeus se juntou ao protesto no Largo da Batata, em São Paulo, com o mote #EleNão”.
INSINUAÇÕES
A ideia que o jornal parece querer passar é a de que o candidato Jair Bolsonaro, que está na frente das pesquisas e é o favorito da disputa, tenta cooptar a comunidade judaica brasileira com intuito de obter seus votos. Os “acenos” que a Folha menciona, mas não os especifica, seriam quatro: 1 – mudar a Embaixada brasileira para Jerusalém reconhecendo-a como capital de Israel, da mesma forma que Trump fez; 2 – o primeiro país que visitará oficialmente, se eleito presidente, será Israel; 3 – buscar tecnologia israelense em irrigação e produção de água potável para aplicá-la no Nordeste brasileiro e, 4 – fechar a Embaixada da Palestina em Brasília que, segundo o candidato, trata-se de um Estado ainda inexistente, o que ensejaria ao grupo narco-terrorista Farc reivindicar também sua representação.
QUANTOS SÃO E QUEM SÃO OS JUDEUS
Ao leitor menos familiarizado com os judeus brasileiros, as grosserias bradadas, as vergonhosas faixas exibidas, com símbolos religiosos adulterados para transformá-los em propaganda política do candidato do PT, Fernando Haddad, o apoio a ele, e as declarações ali contidas, podem, como a Folha pretendeu, passar uma imagem “maquiada” de que a comunidade israelita do Brasil em peso é favorável ao candidato petista.
Uma falsa premissa: os dados mais recentes dão conta que de vivem no País atualmente entre 110 e 120 mil judeus, ou seja, são apenas 0,05% da população brasileira. E, cinquenta progressistas judeus certamente não representam a comunidade judaica do Brasil; representam a si próprios.
SEGMENTO É PEQUENO
Nem todos os 120 mil judeus votam, há crianças e pessoas muito idosas.
Então, o percentual é ainda mais reduzido que esses 0,05%. O segmento é muito pequeno para que Bolsonaro se preocupe com “acenos” aos judeus.
Existem extratos populacionais muito maiores a quem ele poderia querer agradar, como, por exemplo, os descendentes dos árabes no Brasil. Os anúncios de Bolsonaro em relação a Israel, ele os fez porque considera que é o justo e o certo. Claro, os votos da comunidade vêm, mas se estivesse somente pensando em votos, perde os dos que são contra Israel, que, seguramente, somam um número maior.
MULTIPLICIDADE
O judaísmo engloba multiplicidades de todo o tipo, de ideias, de culturas, de etnias (há judeus brancos, negros, morenos, louros, orientais), de origem religiosa (os que seguem os ritos sefardita ou ashkenazita), de idioma (os que falam o hebraico, o iídiche, o ladino, o árabe, ou então só a língua do país onde vivem), e também de inclinação política (de esquerda e direita). Conheço muitos judeus de esquerda, em geral, dotados de um nível de cultura elevado e de um comportamento bem distinto do grupo radical liderado pela estudante Amanda Hatzyrah, de 25 anos, citada pela Folha como “articuladora da frente feminista judaica” e que as redes sociais logo comprovaram ser ela cabo eleitoral de Haddad.
REALIDADE DA ESCOLHA
As redes sociais, aliás, fornecem um retrato muito realista da tendência eleitoral da comunidade judaica brasileira. No Facebook, por exemplo, existem dezenas de grupos, entre os quais destacam-se três principais – Associação Sionista Brasil-Israel, Articulação Sionista e Amigos – que, juntos, têm perto de 11 mil membros, portanto, dez por cento do total da comunidade. Quem tem acesso a eles verificará facilmente que a esmagadora maioria dos judeus brasileiros vai votar em Bolsonaro, bem ao contrário do que afirma na notícia o diretor do Casa do Povo, uma instituição judaica tradicionalmente de esquerda, sr. Benjamin Seroussi, de que “pouquíssima gente cai nessa armadilha”, referindo-se aos “acenos” do candidato do PSL.
90% COM BOLSONARO
Eu diria que mais de 90% vota em Bolsonaro, não só pela simpatia demonstrada a Israel, mas principalmente pelo fato de que são brasileiros e como tantos outros milhões de cidadãos honestos e trabalhadores, estão indignados com os 14 anos desse trágico cenário que País tem vivido, com escândalos e corrupção, com uma facção criminosa responsável pela maior roubalheira já registrada na história;
VALORES FAMILIARES
E mais: com a inversão de valores familiares, dos princípios da educação, da moral e do civismo, da insegurança total da sociedade, da demonização da polícia e da premiação do banditismo, quando pais de família são assassinados diariamente e audiências de custódia foram instituídas para soltar os que deveriam pagar pelos seus crimes; com o escárnio de uma campanha eleitoral comandada de dentro de uma prisão e porque todos estão cansados dessa pantomima de eufemismos como o “golpe” para o processo legal do impeachment de Dilma, ou o Brasil ter preso político, para omitir a condenação em 1ª, 2ª e até 3ª instância por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.
OS XINGAMENTOS DOS 50
O grupo dos 50 com seus xingamentos, palavras de baixo calão e falta de civilidade, demonstrou exatamente o que os judeus não são. Nas redes socais, os comentários pontuaram comparações, por exemplo, “àqueles mesmos que endeusavam o bezerro de ouro quando Moisés desceu do Monte Sinai” ou que “esses estão distanciados do judaísmo e mais ainda de Israel”. Outro observou que “são iguais aos imbecis que condenam a única democracia do Oriente Médio”! E mais: foram tachados de kapos (traidores) que ajudaram os nazistas no extermínio dos judeus”. Um comentário bem-humorado chamou-os de “judeus regressistas porque não querem que o Brasil mude, mas que permaneça alinhado ao terrorismo palestino e sob domínio do Foro de São Paulo e de organizações criminosas”.
A ESQUERDA E O ÓDIO AOS JUDEUS
A reação a esse tipo de comportamento dos 50, para os judeus em geral, tem uma razão de ser, independentemente do jogo político das eleições do próximo domingo. Para eles, é inaceitável que judeus apoiem partidos políticos da esquerda brasileira que odeiam Israel, defendam o terrorismo, cuspam, rasguem e queimem bandeiras israelenses em manifestações como ocorre no PSOL, declarações mentirosas e antissemitas de setores extremistas do PT, do PCdoB e do PSTU. O site Vermelho, do PCdoB, abriga artigos dessa espécie.
É ANTISSEMITA
O partido nega ser antissemita, mas sim ser antissionista, o que no fundo dá no mesmo, como provou na década de 60 do século passado Martin Luther King, ele próprio vítima do racismo, ao explicar que o antissionismo é a nova máscara do antissemitismo, porque se alguém nega ao povo judeu o direito de viver em seu Estado nacional, essa pessoa, embora diga o contrário, é, sim, antissemita.
DIREITO AO SOLO JUDAICO
O Sionismo nada mais é do que o movimento nacional do povo judeu por sua independência, autodeterminação e direito à terra de seus ancestrais.
Mas, há anos o Portal Vermelho publica artigos propagando acusações covardes e falsas sobre os judeus, inclusive, afirmando que os sionistas “em tudo se assemelham aos nazistas”. De forma pusilânime utilizam a dolorosa ferida da memória judaica representada pelo Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus, para ofender um povo que tantas contribuições deu ao mundo.
A TRISTE IRONIA
A triste ironia é que o PCdoB sempre esconde que os comunistas foram aliados dos nazistas por mais de uma década, e por similaridades ideológicas, um fato espantoso, mas real, e que provoca ferozes reações em jovens esquerdistas quando o assunto é pauta de discussões.
Mal sabem que o divórcio aconteceu em 22 de junho de 1941, quando Hitler depois de tomar a Europa Ocidental, mandou suas hordas invadirem a União Soviética e Stalin passou a chamá-los de fascistas e extremistas de direita. Antes disso eram irmãos camaradas!
CONIB SOB FURIA DO PCdoB
A Confederação Israelita do Brasil (Conib), que é o organismo de representação nacional da comunidade judaica, já foi rotulada pelo PCdoB como “um dos famigerados lobbies do movimento sionista internacional” e acusada de “tentar incitar o ódio de outras religiões contra a fé islâmica” pelo simples fato de “protestar” contra a vinda do então presidente Ahmadinejad, o “carniceiro iraniano” para a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, a Rio+20, em 2012. Fizeram acusações insidiosas aos “sionistas” (judeus), mas houve silêncio total sobre os 30 mil presos executados em 4 meses pelo regime de Teerã quando reinava o aiatolá Khomeini e as atrocidades cometidas contra homossexuais, “adúlteras” e crianças!
ISRAEL NÃO SEGREGA
O PSOL, por sua vez, chama de forma ardilosa Israel de “apartheid” e de racista, porém, oculta que no Estado judeu não existe segregação, eis que árabes, drusos e outras etnias ocupam importantes funções na sociedade enquanto que em outros países da região, além do estímulo do ódio aos judeus mediante propaganda em suas mídias e discursos de lideranças político-religiosas, outros povos são discriminados, perseguidos e massacrados, como os cristãos, ou ainda os curdos que vivem espalhados entre a Turquia, a Síria, o Iraque e o Irã, e sendo em maior número que os palestinos também aspiram à independência, mas ninguém os ouve nem os apoia, e tudo sob a complacência da tosca diplomacia brasileira que teve o desplante de votar na Unesco uma moção que nega a existência de vínculos entre o povo judeu e a cidade santa de Jerusalém, citada mais de 600 vezes no Antigo Testamento! Essa mesma benevolência acata, condescendente, a enorme lista de violações de direitos humanos promovidas nos países daquela região.
UM APOIO PREVISÍVEL
Concluindo, na minha opinião, creio que, para a grande maioria da comunidade, constatar que alguns poucos judeus, por causa de ideologia, cerrem fileiras em campanhas eleitorais de partidos políticos que defendem, internamente, a manutenção do caos e, externamente, com ardor, regimes ditatoriais e genocidas, bem como grupos terroristas inimigos de Israel que juram varrê-lo do mapa, não hesitando em derramar sangue de ambos os lados, e apesar disso tudo, ainda se unem aos seus próprios verdugos, é natural e instintivo que os judeus do Brasil maciçamente busquem apoiar aquele que lhes acena positivamente.
Atenciosamente,
SZYJA LORBER, jornalista, Curitiba, criador e por anos editor do jornal Resenha Judaica de Curitiba
