Caro Aroldo,

A inesperada morte do jornalista Ricardo Eugênio Boechat no início da tarde desta segunda-feira, nos remete aos longínquos anos 1960, quando ainda estudantes de Jornalismo na antiga Universidade Católica do Paraná. Vivíamos o início de nossas carreiras profissionais – cada um dos estudantes lotados, em sua maioria, nas redações dos jornais O Estado do Paraná, Diário do Paraná, Gazeta do Povo – além de outros menores, como o extinto Diário Popular, por exemplo.
GALERIA LUSTOSA
Ávidos por conhecimento, quantos de nós – lembro bem – não frequentavam a banca do Jayme Suniê, na Galeria Lustosa – Ponto Chic -, onde bebíamos na fonte de veículos como Jornal do Brasil, Correio da Manhã (ambos do Rio), além de Folha, Estadão etc. Mais que isso: tínhamos acesso a coisas hoje raras, como os sempre lembrados “Cadernos de Jornalismo”, editados pelo Jornal do Brasil – e que, aliás, estão na minha biblioteca em sua integridade, desde o primeiro número.
COM ZÓZIMO
Boechat, que morre aos 66 anos, era então mais novo que a maioria da nossa geração, hoje na casa dos 70 e poucos. Mas já era ativo, partícipe da Coluna do Zózimo Barroso – um tipo novo e moderno de se fazer colunismo, onde Boechat prestou importante papel. Bem mais tarde veio o convite para integrar o Grupo Globo. Boechat, lembremos bem, talvez seja um dos últimos moicanos de um tempo da imprensa escrita que soubemos tão bem representar num tempo em que as comunicações eram, quase sempre, difíceis. Mas ali havia espaço para o comentar, o dizer, o questionar, o afirmar, o documentar como um todo, para que esses registros não se perdessem na história do tempo.
A nova geração “eletrônica”, que ganhou gradativamente espaço na TV, pouco sorveu da fonte que nos remete aos velhos tempos do linotipo, da impressora, da calandra e de instrumentos hoje considerados antológicos, quase pré-históricos na história jornalística mundial. Ao saber da notícia da morte trágica de Boechat, eu segurava uma régua gráfica, com medidas de paica (com que diagramávamos as páginas dos jornais – paica era uma medida gráfica que sucedeu outra, a dos cíceros). Ironia? Pode ser. Mas guardemos essa lembrança como algo a ficar na memória de cada um de nós, jornalistas, ou não – colocando à nossa frente um homem de visão como foi o caso de Ricardo Eugênio Boechat. A ele, um abraço póstumo de todo nós.
