sexta-feira, 28 agosto, 2026
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Divã de Ideias: Habitando silêncios

Por Fernando SimonettiSer psicólogo é exercer uma profissão que não se mede em resultados imediatos, mas em silêncios habitados. É ocupar um lugar onde o outro, finalmente, pode se ouvir. Num tempo em que tudo é acelerado, fragmentado e performático, a psicologia resiste como um convite à pausa — à escuta que não julga, ao acolhimento que não exige, à descoberta de si e à um lugar seguro desconectado de tempo e espaço.

A escuta, na prática psicológica, não é passividade. É presença ativa, é tornar-se solo firme para que o outro possa plantar suas verdades mais frágeis. Freud já apontava que o analista deve “simplesmente escutar, e não se preocupar se está se lembrando de alguma coisa”. Essa escuta flutuante, livre de direcionamentos conscientes, é o que permite ao inconsciente se manifestar — e é aí que algo se move. O sujeito, ao ser escutado sem interrupção, começa a se reconhecer em suas próprias palavras, a dar nome ao que antes era apenas dor difusa.

Freud nos ensinou que o sofrimento psíquico não é falha, mas sintoma — uma tentativa do inconsciente de se fazer ouvir. A psicologia, nesse sentido acompanha esses movimentos na tarefa de decifrar seus próprios enigmas. E decifrar não significa necessariamente uma sequência lógica que termina em esquecimento ou separação. Mas em construir algum tipo de sentido a partir de então.

E a psicanálise é apenas um fragmento disso tudo. A psicologia dialoga com a filosofia, com a arte, com a vida. E é nesse cruzamento que nos tornamos parte da construção de nossa própria condição.

Kierkegaard afirmava: “O que importa é achar uma verdade que é verdadeira para mim, para achar a ideia pela qual vou viver e morrer”. Essa busca por uma verdade subjetiva — não universal, mas própria — é o cerne do processo terapêutico. O psicólogo não oferece respostas prontas; ele acompanha o outro na tarefa de encontrar suas próprias respostas.

Acompanha escutando, acolhendo, direcionando e retornando o que julga essencial para a construção da demanda e da jornada.

Validando também. Dizendo, com ou sem palavras, que aquilo que dói importa, que a angústia tem nome e que o sofrimento não precisa ser enfrentado sozinho.

Ser psicólogo também é lidar com limites. Nem tudo pode ser dito, nem tudo pode ser curado. Há dores que não têm nome, há silêncios que não se quebram. E é justamente aí que a profissão se revela em sua plenitude: não como salvadora, mas como testemunha. O psicólogo não salva; ele possibilita que o outro possa escolher essa via ou alguma outra.

Desde que faça em nome próprio em uma história autoral.

Celebrar o Dia do Psicólogo é celebrar essa profissão que não trabalha com fórmulas mas com presença. Que não oferece atalhos mas acompanha a travessia. Que não impõe verdades mas abre espaço para que cada um encontre a sua.

Num mundo que grita por atenção, a psicologia oferece algo raro: um espaço onde a palavra não precisa competir, onde a dor não é interrompida e onde o ser humano pode, enfim, existir um pouco.

Fernando Simonetti é psicólogo graduado pela PUC-PR. A Psicologia em que ele acredita tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. Fernando acredita também no trabalho clínico que constrói um espaço acolhedor pela escuta e viabiliza mudança através da elaboração da palavra.

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