domingo, 28 junho, 2026
HomeMemorialDITADURA NUNCA MAIS: 'NÃO ABUSE DA SORTE, Ó MÃE GENTIL'

DITADURA NUNCA MAIS: ‘NÃO ABUSE DA SORTE, Ó MÃE GENTIL’

João Figueiredo: preferia cheiro de cavalos...
João Figueiredo: preferia cheiro de cavalos…

Para um país tão esculachado e indiferente à disciplina, parece esquisito ver e ouvir os gritos de “intervenção militar já” sem o esquindô tradicional. Se não é samba-enredo, então é o quê? Essa gente bronzeada que veste uma camisa amarela e sai por aí, sonhando tirar do armário aquele jaquetão verde-oliva, acompanhado de botas e bigodão à la Ribamar (José Sarney), esqueceu duas ou três coisas da nossa ditadura de ontem (ontem mesmo!) que vale a pena recordar. Afinal, recordar é viver.

SUFIXO ‘BRAS’

A saber: a inflação era galopante, o general-presidente, o último manus militari, preferia cheiro de cavalo, e não havia empresa nesse mundão de meu-deus que não fosse acompanhada do sufixo “bras”. Até Botãobras existia e não era uma fábrica de eletrônicos. Fabricava-se botão de camisa, de bermuda, de cueca samba-canção. Uma estatal, pois sim.

SAUDADE DO CHICOTINHO

Ler a entrevista do general da reserva Augusto Heleno publicada na “Folha de S. Paulo”, na semana passada, é um desalento. Por linhas tortas, ele apela aos nostálgicos de alguma maneira, especialmente para aqueles que choram saudade do chicote e do coturno de sola pesada.

NÃO ERA LOCAUTE, ERA NOCAUTE

O dinheiro, naqueles tempos do suave canto do urutu, tinha vários epítetos – cruzeiro, cruzado, caraminguá – que, não era de admirar que cedo perdessem o valor da mesma forma que perdiam a pose. Havia fila para o pão, fila para o leite, fila para a carne e o nome disso, se bem me lembro, não era locaute. Era nocaute. Um direto na economia e no brasileiro pagador de impostos.

A POESIA DA VIOLÊNCIA

Mais importante: roubava-se tanto como rouba-se hoje. Se alguém reclamasse era levado à delegacia para prestar esclarecimentos e era comum um “empurrãozinho” da autoridade para aclarar as ideias do depoente. Chamava-se a isso “pau de arara” ou, de modo mais poético, “fio desencapado”.

PROTODITADOR

Os incautos podem conferir: há filmes, livros e discos estão à disposição. Não é crível que um obstáculo político ou econômico (uma gota de oceano em nosso mar de miserabilidade) nos embalos na nostalgia de um tempo que não houve, na felicidade que não nos bateu à porta e enfeite de brilhos e miçangas um protoditador como Jair Bolsonaro, do qual Augusto Heleno se diz partidário. Alguém já disse, a democracia é a pior forma de governo. Com exceção de todas as outras.

Leia Também

Leia Também