quarta-feira, 13 maio, 2026
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DESPEDIDA, DESAFIOS E PAUTA DE CELSO NASCIMENTO

Celso Nascimento: “não anódino” (foto Annelize Tozetto)
Celso Nascimento: “não anódino” (foto Annelize Tozetto)

Celso Nascimento fez despedida da Gazeta do Povo, no sábado, 3, em tonalidade meio amarga, um tanto saudosista, podendo ser lida como expressão de um “espírito superior”, acima do bem e do mal, de alguém que nunca “acreditou em jornalismo anódino e insosso”, como disse.

Com esta demarcação de território, o bom jornalista, 72, passa a impressão de ter sido um miraculado pelos deuses; alguém que, nem de longe, partilhou ou partilha daquele universo – o dos “outros jornalistas” -, os que não se especializaram em furos, em denúncias, em cruzadas (muitas vezes corretas) contra as tranqueiras da vida pública, muito menos em inimizades “dedicadas”, ou em suspeitas continuadas sobre o mundo ao derredor.

“OS ANÓDINOS”

Os ‘anódinos do jornalismo’, aqui e em qualquer parte do mundo, continuarão a falar do dia a dia, de artes plásticas, de meio ambiente, de saúde e ciência, de religião, de cinema, de cidadãos comuns que poderão ser mostrados até em prosaicos momentos de suas vidas. E uma infinidade de outros temas que compõem o interesse dos seres humanos.

Essas realidades, e tantas outras que não geram necessariamente furos, são também excelente fermento de bom jornalismo, o Celso sabe bem.

NA ESTREBARIA

Afinal, não foi parindo numa estrebaria que uma Mulher gerou a grande revolução mundial, 2018 anos atrás, com nascimento do Menino entre vacas, burros, estercos, pobreza?

Um mero parto mudou a história do Mundo ocidental.

Com minha autoridade de quem certamente está entre os profissionais do “jornalismo anódino” – embora com histórico de campanhas de repercussão comunitárias ao longo de minha carreira -, enxergo o Celso em sua justa importância.

NADA HAGIOGRÁFICO

Não lhe dedico hagiografias, muito menos o condeno pelo ser turrão que foi sempre nas redações por onde passou.

Aceito-o por seus valores maiores. Ele é, queira-se ou não, um marco bem definido do jornalismo paranaense. Com importância que o coloca ao lado de Luiz Geraldo Mazza, Fábio Campana, Hélio Puglielli, Mauri Konig, Mussa José Assis, Walter Schmidt, Aramis Millarch, Renato Schaitza, Freitas Neto, Dino Almeida, dentre outros…

Mas definitivamente sinto-me compelido a deixar claro: apesar de todas as dificuldades de convivência com o iracundo colega, eu o admiro. Tem a coragem irracional de certos apóstolos, é dono de bandeiras que podem ser justas, mas sobre as quais não aceita questionamentos, e, muitas vezes, nem conversar.

Seus julgamentos apriorísticos por vezes ameaçam toldar sua credibilidade profissional.

Esse cavaleiro de cruzadas continuadas, no entanto, tem saldos a seu favor. Um deles, o de não se mover pela pecúnia, o esterco de satanás, doença que jamais poupou algumas redações e certos jornalistas.

Tem outras paixões/defeitos, como o de querer se impor, custe o que custar.

PRANTO PUNGENTE

Por tudo isso, entendo Celso Nascimento e seu pranto pungente, a partir do título que deu à derradeira coluna na Gazeta do Povo: “Hoje é dia de despedida. Metade afastada de mim”. Acho que a despedida merece bem mais do que ser bordada pela boa poesia de Chico Buarque.

Há um mundo de realidades nem sempre às claras, para simples mortais, definindo as tragicômicas mudanças que ocorrem, por exemplo, no Jornalismo paranaense de hoje. Celso as conhece, foi uma de suas “vítimas” preferenciais.

É um assunto que clama por tratamento jornalístico de mestres.

ERA PÓS FRANCISCO

Celso foi mais um ceifado pela direção da GP pós Francisco, que nunca aceitou dialogar com jornalistas mais velhos e experientes, gente acima das marcas identificadoras dos dois irmãos.

Afinal nesse palco e plateia exposto pós Francisco, o do ” magister dixit”, a decisão vem carregada de inexperiência e teimosa solidão.

Não importa que para isso tenha que fechar sete empresas jornalísticas, como já ocorreu no grupo GP. Realidade que foi muito além de mera gestão empresarial.

“MAITRE A PENSER”

O ar de “maitre a penser” que Celso Nascimento sempre encarnou como marca muito pessoal, requer muito mais do que a plangência do compositor da “Banda”.

Afinal, os talentos e qualificações desse Celso Nascimento, jornalista “não anódino”, precisam expor-se com novo olhar crítico e em novas plataformas. Uma delas, o próprio “blog” que ele criou.

FAÇA REVISÃO HISTÓRICA

Lá no ‘blog’, sugiro, ele poderá muito bem – com sabedoria -, promover uma grande revisão histórica do papel da imprensa do Paraná.

Fábio Campana
Fábio Campana

Especialmente aquela do século 20 que eu, como ele, Luiz Geraldo Mazza, Ayrton Baptista, Hélio Puglielli, Rosy de Sá Cardoso, Dante Mendonça, Maí Nascimento, Adherbal Fortes Sá, Szyja Lorber, dentre outros, conhecemos bem. A começar pelos fartos caminhos de subsídios aos meios de comunicação extraídos abundantemente do erário, verdadeiros geradores e mantenedores de grandes complexos de rádio, televisão e jornais que ainda imperam no Paraná.

Essa é uma fantástica pauta, desafio para jornalistas não anódinos, que conhecem, tão bem quanto eu, como se criaram os barões da mídia paranaense e seus rebentos.

Luiz Geraldo Mazza: testemunha privilegiada; Dante Mendonça e Maí Mendonça: história da imprensa; Hélio Puglielli: entre os notáveis; Ayrton Luiz Baptista; Chico Buarque: dia de despedida
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