
Gisele Alessandra Szmidt e Silva, assessora parlamentar na capital, iniciou transição de gênero aos 35 anos. Hoje, aos 52, ela luta contra violências a que pessoas trans são submetidas
(Do G1)
“Minha família me chamou e perguntou ‘O que você tem? Não tem vergonha desse teu jeito de viadinho?’ [SIC]. E eu disse ‘Não sou um viadinho, eu sou uma mulher’. Aí tentaram me exorcizar aos 15 anos […] Depois daquilo eu decidi representar um papel. E assim foi durante muitos anos”.
Esta é uma das lembranças de Gisele Alessandra Szmidt e Silva, de 52 anos, advogada de Curitiba e a primeira mulher transexual a fazer uma sustentação oral na tribuna do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2017.
Na época, Gisele era uma das advogadas que defendiam, pelo Grupo Dignidade, de Curitiba, a legalidade da mudança de nome de transexuais no registro civil sem a necessidade de cirurgia para resignação de gênero.
No processo, ela foi a última advogada a fazer sustentação oral defendendo que o estado não poderia condicionar a mudança de nome à realização da cirurgia, considerada invasiva e com procedimentos que não são cobertos pela rede pública de saúde.
Quase um ano depois, em março de 2018, o STF decidiu pela legalidade do pedido.
“Mais que a ausência de modificações corporais, eu defendi, desde o começo, que para mudança do registro não deveria ser necessário sequer um processo. É a nossa autonomia. E os demais advogados que defendiam a causa não tocavam neste ponto, mas eu me preparei para isso. Defendi até o fim a mudança apenas na manifestação da vontade”, lembrou.

A DOR
Para chegar onde está hoje, Gisele lutou contra tudo – inclusive, contra ela mesma. Afinal, aos 15, mesmo tendo consciência de que era uma mulher, optou por esconder-se para sobreviver.
Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), mesmo com uma queda de 20% no assassinato de pessoas transgênero no último ano, o Brasil permanece como o país com a maior taxa de mortes de pessoas trans no mundo.
A FLOR
Gisele iniciou a transição aos 35 anos, quando estava na faculdade de direito.
Ela lembra que, quando começou a fazer procedimentos estéticos para chegar mais perto do seu verdadeiro eu, ainda vivia com ajuda da família, que repudiava sua identificação como mulher.
“Uma hora eu pensei ‘Ou eu vivo, ou fico representando a vida inteira’. Foi uma transição tardia, porque fiquei muito tempo escondida […] E a transição nada mais é do que a realização de procedimentos que te deixem mais perto das características do gênero que você se identifica. E muitos destes procedimentos são feitos de maneira totalmente clandestina, porque não há suporte. Algumas operações causam sequelas para a vida”.
