
A menos de dez dias da abertura da Copa do Mundo na Rússia, é comum canais que pouco falam do futebol, abrirem sua grade para especiais sobre o mundial. Nada mal. O History Channel fez isso. Reprisou (ou repisou) um debate confrontando talentos como Messi x Cristiano Ronaldo, Van Basten x Klinsmann e, ora ora, Pelé x Maradona. Entre os que se dispuseram a opinar no programa, que foi produzido pela TV britânica, estava Garry Lineker, jogador da seleção inglesa, em 1986, e Gianfranco Zola, meia da equipe italiana em mundiais anteriores.
NÃO ERA MEIA
Nada mais desconfortável para o brasileiro do que ouvir de um ex-jogador de futebol que Pelé era um atacante, não um meia-armador, que Pelé não jogava para o time, era individualista, e que Pelé não era o líder no time, principalmente na Copa de 70, porque não carregava a braçadeira de capitão. Ela foi dada a Carlos Alberto, o lateral-direito.
3 A 1 DE CAMAROTE
Pelé disputou quatro copas, ganhou três. Maradona disputou duas, perdeu uma. Na Espanha, enfrentando o Brasil, em 1982, já era “Dom Diego”, mas foi anulado pela marcação e só coube a ele assistir o 3 a 1 de camarote, permanentemente anulado por Toninho Cerezo e, talvez, Batista.
A IMAGEM É O QUE VALE
Lineker, a certa altura, diz que Pelé não construía a jogada e a imagem, na sequência, o contradiz. Mostra Pelé recebendo o passe na entrada da área e tocando, na medida, para Carlos Alberto disparar um canhão no quarto gol do Brasil contra Itália, que selaria o placar. Em outro, ele faz um passe de 30 metros para Jairzinho, entre os zagueiros, amortecer no peito, deixar a bola escorregar carinhosamente para o pé direito e chutar para o gol.
O QUE FICOU, BASTA
Zola e Lineker, este principalmente, argumentam que não há muitas imagens de gols de Pelé se comparadas com as que estão à disposição dos fãs de futebol, no caso de Maradona, e seus mais de 300 gols marcados na carreira. Pelé fez 1.200. É fato. As épocas eram diferentes, a TV não era tão avançada tecnologicamente e muitos gols de Pelé, gravados em película, foram perdidos. Mas o que ficou, basta.
GOLEADOR E GARÇOM
Pelé não era tão veloz, não driblava com a bola junto ao pé, em curta distância, mas compensava tudo isso, se é que devia compensar, com a vantagem atlética, a habilidade em chutar e passar com ambos os pés, o cabeceio e a inteligência de goleador que era também um assistente de primeira, um garçom quando necessário. Não é uma questão de época. A distância entre a Copa de 70, a última de Pelé, e a de 86, a primeira e única de Maradona, é de 16 anos, três copas entre a Copa do México e, de novo, a Copa do México, quando Dieguito se consagrou. E quais os gols pelos quais ele é lembrado e elevado ao grau de lenda do futebol? Pelos dois contra a Inglaterra: o primeiro aquele em que usa “La Mano de Dios” para fazer um gol de “cabeça”. O segundo por driblar todo o time em velocidade e marcar na saída do goleiro. Um golaço de fato, em que foi mais “circense” do que um jogador de time.
REI NÃO CARECE DE ACESSÓRIO
Não se quer dizer aqui, jamais, que Maradona não merece o panteão de fora de série do futebol. Seria um ufanismo bocó. O que se argumenta, com razão, é que a comparação é injusta. Por que Pelé não usou a braçadeira de capitão? Ora, Rei não carece de acessório.
