sexta-feira, 29 agosto, 2025
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Como ler as mudanças determinadas pelo arcebispo

(PARTE FINAL)

Curia Metropolitana de Curitiba
Curia Metropolitana de Curitiba

GASTOS DEMAIS E OS VETOS DO CONSELHO

Satisfeito com a ação da Fundação Evangelizar (dona de emissora de rádio, prefixo adquirido à PUCPR, anos atrás; e de um canal de televisão, com penetração em alguns Estados e localizável pela tv a cabo), o arcebispo de Curitiba, dom José Antonio Peruzzo, deve agora, no entanto, estar se defrontando com um “puzzle”: o de como agir diante da “capitania hereditária” em que se transformaram os espaços de grande parte da Paróquia de Nossa Senhora de Guadalupe, usados pela Fundação para manter o trabalho do ‘pop’ padre Reginaldo Manzotti.

O arcebispo, como já explicado por esta coluna, pediu de volta a área que a Fundação utiliza. Quer que ela seja apenas da paróquia; Manzotti respondeu-lhe – é o que se informa em setores da Cúria- com a sua melhor carta: haveria contrato entre o Arcebispado e a Fundação. Isso garantiria que por lá a instituição católica possa ficar por mais anos…

A BATATA QUENTE

Assim, a batata quente estaria nas mãos do intelectual Peruzzo, um erudito, especializado em Roma e Jerusalém e em Sagradas Escrituras, um doutor que não tem medo, no entanto, de colocar a mão na massa, como testemunham velhos conhecidos do arcebispo.

Padre Manzotti é o oposto do Peruzzo: personalidade ‘pop’ do mundo católico, conhecido pelos ‘shows’ de música religiosa que apresenta em todo o Brasil. Em alguns lugares, chega a arrebatar multidões, e a vendagem de seus discos o coloca entre os campeões da discografia brasileira.

“Não se iludam, Manzotti não tem sequer um terço de aceitação entre padres e religiosos que atuam em Curitiba”, sussurra um sacerdote que circula com muita habilidade em torno do Conselho Presbiterial da Arquidiocese, homem passado dos 60 anos de idade, e que conheceu de perto três arcebispos da cidade.

A suposta rejeição a Manzotti teria muitas explicações, a mais direta delas a de que o padre-cantor não seguiria as diretrizes pastorais locais.

Quer dizer “que ele prega e faz o que bem entende em suas andanças pastorais”. Não estaria se atendo às diretrizes pastorais.

Aos opositores do padre Manzotti não interessa, constata-se, avaliar a repercussão da mensagem do sacerdote, hoje dono de bandeira de forte apelo popular (ao lado dos padres Marcello Rossi e Fábio Mello) no mundo católico brasileiro.

TRADICIONALISTAS

Para o padres mais tradicionalistas, Manzotti seria alguém que “se coloca até antes do Cristo”, fazendo-se o centro de todas as atenções; para os pregadores da chamada Teologia da Libertação, e demais engajados nas chamadas ‘linhas populares de pregação’, Manzotti seria “um pregoeiro da alienação”, como o classifica aquele acadêmico de alto coturno, professor da Teologia da PUCPR, doutor em Roma, um dos poucos paranaenses que já conviveram com Jorge Mário Bergoglio, quando o papa ainda era arcebispo de Buenos Aires. Para ele, “Manzotti precisa ler o documento de Aparecida e voltar-se para os grandes desafios sociais que batem à porta da Igreja. O principal deles, atender aos desvalidos”.

CONSELHO DE NOTÁVEIS

Silencioso, evitando exposições, ao Conselho Presbiterial da Arquidiocese vai sendo atribuído um enorme papel no assessoramento ao arcebispo que, embora tendo estudado aqui desde criança, há anos vinha atuando em outras dioceses.

‘Silencioso, evitando exposições, ao Conselho Presbiterial da Arquidiocese vai sendo atribuído um enorme papel no assessoramento ao arcebispo que, embora tendo estudado aqui desde criança, há anos vinha atuando em outras dioceses’.

Formado por 12 padres, o Conselho tem uma composição tida como “conservadora”, mas não reacionária do ponto de vista social, muito menos infensa a atualizações na vida da Igreja. Mas não é adepto de modismos e teria – com seus conselhos – incentivado dom Peruzzo a desentrincheirar padres que “viviam na zona do conforto”. Caso de Kleina, que estava a 16 anos em Vila Hauer.

O colegiado é composto por padres bem conhecidos, como Hélio Dall’Agnol, Rivael, Waldir, André Biernaski, Wilson Pedro de Souza, Woney.

DISCIPLINA

Dom Peruzzo, segundo certo dia me disse padre André Biernaski, diretor do Seminário Rainha dos Apóstolos, que o conheceu bem como estudante de Teologia, é um homem disciplinado e com indiscutível capacidade de trabalho. “Mergulhava nos estudos e era difícil fazer com que ele partisse para outras atividades, como esporte e lazer”, asseverou-me ainda padre André.

Essa visão de disciplina deve ter prevalecido nas mudanças promovidas pelo arcebispo, dadas a conhecer no último dia 14. Uma, por exemplo, para observadores da área, estaria muito clara: a decisão de transferir padre Adriano, pároco da Igreja do Espírito Santo (Centro Cívico, na Rua Mateus Leme) para a paróquia do Atuba, área de classe média baixa e de pouca exposição para alguém que estudou em Roma, e de lá saiu, no entanto, com alguns contragostos.

“Mais prudente foi padre Manzotti: sentindo que com o papa Francisco se estabelece um novo tempo na Igreja, ele tratou de contratar um jornalista de alto nível, Élson Faxina, para assessorá-lo”.

Mas observe-se: nada do que se poderia esperar – como questões disciplinares – envolveram a mudança do padre Adriano. O arcebispo resolveu removê-lo porque comissões de paroquianos levaram-lhe documentos provando que o pároco estaria “gastando muito” com reformas não necessárias da sacristia… E mais: se mostrando insensível às advertências dos conselhos paroquiais contra as gastanças. Pois é.

PEDINDO TEMPO

Outra alteração que gerou surpresas, especialmente entre seus paroquianos, foi a decisão de retirar padre Elmo, um gaúcho, ex-sargento do Exército, a quem o arcebispo pediu que saia da paróquia da Imaculada Conceição, em Botiatuvinha. É a segunda vez que Elmo ocupa aquela paróquia.

Elmo estaria enquadrado naquela categoria de padres “que vivem em zonas de conforto”.

Mas pediu – e foi atendido pelo arcebispo – que ficasse ainda uns meses mais em Botiatuvinha, onde se preparam comemorações por suas bodas de prata sacerdotal em 2016. Depois, estará, como antigo soldado, pronto para receber novo comissionamento.

Mais que mudanças paroquiais, há remanejamentos já decidido na esfera da cúria do Arcebispado: padre Jair Jacon, vigário de Santa Luzia, no Barigui, passa a ocupar a Chancelaria do Arcebispado e o cargo de vigário Geral (é quem substitui o arcebispo em certos atos). Já o padre Hélio Dall’Agnoll, chanceler e vigário geral, até agora, ocupará a posição de pároco da Catedral de Curitiba.

OS CARLESSO

A maior surpresa ficou por conta da remoção de padre Ângelo Carlesso, um sexagenário, que há 30 anos era pároco de Nossa Senhora Medianeira, na Água Verde, a paróquia de famílias ilustres de origem italiana. Dentre elas, a da mãe de Gustavo Fruet.

Enfermo, mas ainda ativo, padre Carlesso assumirá a paróquia de São Carlos Borromeu, em Jardim das Américas. Enquanto seu irmão – Pedro Carlesso -, como Ângelo também tendo estudado na Gregoriana de Roma (é professor do Studium Theologicum) continua firme, há 35 anos, na Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, no Barigui. De lá, diz-se, poderá até sair para o episcopado. Pode ser.

Para realizar novas mudanças, num futuro não muito distante, o arcebispo estaria sendo abastecido de muitas informações. Quer que novas alterações sejam também muito fundamentadas.

Mas tem topado com surpresas: descobriu, por exemplo, que um padre tem 2 cargos comissionados (um na Assembleia Legislativa, outro no Palácio Iguaçu) e atua com algum tipo de remuneração financeira no Tribunal de Justiça. Nesses casos, sempre como capelão. “Nas “horas vagas”, além de dirigir obra social da Arquidiocese, ele comanda ainda um asilo e faz as vezes de RP da Cúria”, explica um advogado de alta responsabilidade no chamado laicato católico.

Para o advogado, “essa gente não age dentro do espírito do papa Francisco”. E me assegura que fará chegar suas reclamações diretamente ao Vaticano.

Mais prudente foi padre Manzotti: sentindo que com o papa Francisco se estabelece um novo tempo na Igreja, ele tratou de contratar um jornalista de alto nível, Élson Faxina, para assessorá-lo.

Quer ser ‘calibrado’ rumo ao olhar social, comprometido com os humildes, como quer Francisco. Pois sabe que com o argentino não adiantam nem tangos nem melífluas canções religiosas.

LEIA MAIS: Como ler as mudanças determinadas pelo arcebispo (PARTE I)

Catedral Basílica Menor de N.S.da Luz, Pç. Tiradentes; Igreja Nossa Senhora Medianeira, na Água Verde; Igreja São Carlos Borromeu, em Jardim das Américas; Igreja Imaculada Conceição, Atuba; Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, no Seminário; Igreja N.S.do Guadalupe, Centro; Igreja Nossa Senhora da Conceição, Butiatuvinha; Igreja do Espírito Santo, Centro Cívico; Igreja Santa Luzia, Barigui das Mercês
Catedral Basílica Menor de N.S.da Luz, Pç. Tiradentes; Igreja Nossa Senhora Medianeira, na Água Verde; Igreja São Carlos Borromeu, em Jardim das Américas; Igreja Imaculada Conceição, Atuba; Paróquia de Nossa Senhora Aparecida, no Seminário; Igreja N.S.do Guadalupe, Centro; Igreja Nossa Senhora da Conceição, Butiatuvinha; Igreja do Espírito Santo, Centro Cívico; Igreja Santa Luzia, Barigui das Mercês
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