quinta-feira, 7 maio, 2026
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Como impedir o efeito Odebrecht/JLP na sua empresa

Viviane Doelman: para evitar novos erros
Viviane Doelman: para evitar novos erros

O mundo político e empresarial se contorce sob uma saraivada de denúncias e processos criminais que expõem uma “simbiose do mal”, termo usado pela consultora Viviane Doelman, diretora da 3G Consultoria, especializada em governança, gestão e gente. Na entrevista, ela alinha algumas das principais ferramentas da governança corporativa que, usadas de forma correta, afastam as empresas da corrupção.

Como uma grande empresa chega ao nível de degradação ética visto em empresas como a Odebrecht e a JLP?

Casos como esses são bastante “curiosos”. Tenho certeza de que entre os milhares de empregados das empresas, a grande maioria acreditava que elas eram éticas em suas práticas. Havia instrumentos de transparência e comportamento em vigor, como Código de Ética e Conduta, um Conselho de Administração com nomes de destaque e reputação e os próprios dirigentes tinham uma aura de retidão e tradição. O que quero dizer é que a degradação ética existiu sim, mas não é da Odebrecht ou da JLP como empresa, e sim de um pequeno grupo que se engajou neste tipo de prática para seu próprio benefício, ganhando poder e relevância em esferas a que usualmente não teria alcance. É certamente o poder que estimula este tipo de conduta, não o benefício financeiro.

Esse patamar agudo de comprometimento é uma exceção?

Está bastante claro que não. Muitos setores têm como regra que para se trabalhar com o governo, é preciso “molhar” a mão de alguém. É uma simbiose do mal, que permeia a dinâmica de comportamento de muitas empresas, e que pode ser observada no dia-a-dia, em ações “menores”, mas não menos relevantes.

O esforço da Odebrecht para mudar deve vencer resistências internas e externas.

Certamente. Do exemplo é que virá a mudança sistêmica. A empresa, começando por seus principais líderes no Conselho de Administração, acionistas e alto executivos, deve fornecer instrumentos para que todos os colaboradores sintam-se seguros para fazer denúncias sem medo de serem repreendidos. Que tenham a segurança de assumir uma postura de integridade corajosa. Ou seja, não somente ser íntegro, mas portar-se como tal e ter atitudes que muitas vezes requerem coragem porque envolvem pessoas em níveis hierárquicos mais altos.

O Departamento de Justiça dos EUA exige que a empresa aumente em 50% o número de funcionários do setor de “compliance” e mais do que dobre os recursos para essa área em 2017. Isso é suficiente?

O departamento de “compliance” é mais um instrumento para se reforçar as regras básicas de ética e conduta, e criar e utilizar mecanismos internos de controle. Ele deve ser um vetor para agregar e educar toda a população da empresa em torno da mesma ideia: a de que se deve fazer a coisa certa, seja qual for a situação. “Compliance” pode até surgir e ser reforçada como uma área específica, mas o ideal é que com o tempo ela deixe de ser tão relevante e que todas as áreas de empresa estejam cientes dos aspectos de conformidade a serem seguidos, que tenham o seu guardião a quem, em caso de dúvida, todos os seus membros possam recorrer e aconselhar-se.

Que instrumentos podem e devem ser usados por empresas nessa situação? A formatação ou reformatação de uma área de “compliance” que diagnostique as necessidades da empresa e que interaja com todas as demais áreas é certamente um caminho. São cruciais a criação e o uso de códigos de ética e conduta, treinamentos para todos os colaboradores, não só da forma como devem agir, mas como identificar e reportar atitudes suspeitas, além da certeza de que este reporte é o esperado de cada um deles.

A empresa investe na virada, mas sai todos os dias na imprensa como líder em corrupção. Como agir internamente para convencer os colaboradores?

Impor cultura ética é um trabalho árduo e que grandes empresas globais têm enfrentado. Tome como exemplo o HSBC. Era o maior banco do mundo e foi multado pesadamente pela justiça dos Estados Unidos por práticas absurdas de desvio ético e conivência. Esteve em quarentena de 2012 a 2019, sob pena de perder a licença para operar. Isto pegou de surpresa a maioria dos colaboradores e trouxe uma névoa de vergonha e embaraço de trabalhar para a empresa. Para fazer a virada, que ainda está em curso, a transparência e a constância na comunicação têm sido essencial. As atitudes dos Conselhos e dos altos escalões não podem ser uma caixa preta.

Quais os pilares das boas práticas de Governança Corporativa e como eles se aplicam contra a corrupção?

A Governança Corporativa tem princípios básicos que bem aplicados serão a base de uma cultura de comportamento ético e que repudia as práticas de corrupção. Falamos principalmente de transparência, equidade e prestação de contas. No caso da transparência, a empresa toma a iniciativa de disponibilizar informações relevantes a todas as partes, visando não somente a aspectos financeiros, mas também a valores intangíveis da organização. Sobre equidade, é tratar de forma isenta e igualitária todas as partes interessadas que interagem e gravitam ao redor da empresa e de suas atividades, atendendo interesses, expectativas, direitos e deveres. Não há favorecimentos. A prestação de contas é aplicada a todos os agentes da governança – Conselho, acionistas, alto executivos, auditoria –, que devem responder por seus atos, atuando dentro de sua responsabilidade, assumindo toda e qualquer consequência.

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