quarta-feira, 1 julho, 2026
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Como evangélicos tomaram o lugar de católicos na política

DEPOIS DO VATICANO II (segunda parte)

Escritor Rubens Alves: contestador; João XXIII: abrindo janelas; Leonardo Boff: Libertação
Escritor Rubens Alves: contestador; João XXIII: abrindo janelas; Leonardo Boff: Libertação

A análise da guinada que as igrejas evangélicas no Brasil deram em direção à política partidária, e o “recolhimento” da Igreja Católica dessa área, passam necessariamente por um olhar sobre o Concílio Vaticano II (1962/65).

O Concílio, que reuniu em Roma bispos do mundo inteiro para traçar novas linhas de ação do catolicismo mundial, não teve caráter dogmático, ao contrário do Vaticano I, realizado no final do século 19 na mesma Roma.

Isso quer dizer: o encontro convocado por João XXIII quis – e conseguiu – fazer um amplo ‘aggiornamento’ das práticas católicas com realidades de uma sociedade já em acentuada secularização. Isso sem fazer concessões às chamadas “verdades imutáveis, ou dogmáticas”.

Mas era preciso um amplo rol de mudanças, disse o Concílio, como a celebração da liturgia católica em língua vernácula, uma busca mais acentuada ao universo do trabalho, ao mundo operário.

JANELAS ABERTAS

– Na verdade, o Concílio Vaticano II abriu as janelas da Igreja para o mundo, provocando a entrada de novos ares na instituição já então quase duas vezes milenar, garante um historiador da PUCPR, em declaração à coluna.

Foi também mais ou menos na mesma época que a Igreja começou a registrar temores com chamado avanço dos evangélicos na América Latina.

O assunto preocupou muito o papa João XXIII, a tal ponto que ele acabou criando um movimento arregimentador de sacerdotes – diocesanos ou religiosos- para formarem grupo de missionários informalmente denominados ‘Missionários de João 23’.

Centenas deles vieram para o Brasil.

NO PARANÁ

No Paraná ainda estão firmes pelo menos dois deles, italianos, originários da Diocese de Cuneo, Itália: padre Giovanni Roccia (João Rocha) e Miguel Ângelo Ramero. O primeiro é atuante em Guarapuava, no Santuário Divina Ternura; Ramero vive e atua no litoral paranaense.

COINCIDÊNCIAS EXISTEM

Para a Igreja Católica no Brasil, o Vaticano II não poderia ter surgido em momento mais controvertido: o Concílio pregava opções e cuidados que, de muitas formas iriam se chocar, na prática eclesial brasileira, com o movimento autoritário que o militares do país deflagraram em 1964.

Uma dessas verdades conciliares, por exemplo, prega o ver, julgar e agir diante de situações sociais injustas provocadas por governos. Isso seria motivos de não poucas encrencas entre o mundo católico e o castrense.

A GRANDE MARCHA

Antes há que se observar: de início o movimento militar comandado pelo general Mourão Filho e outros oriundos dos quartéis, teve o apoio dos meios católicos. Padres, bispos, monges, “marchadeiras” (mulher beatas que marchavam em apoio à chamada revolução de 64), movimentos católicos como as congregações marianas, TFP, ordens religiosas conventuais…

A “Marcha com Deus, com a Família, pela Liberdade” entrou para a história, arrebatou, no Rio, um milhão de pessoas em apoio à ditadura nascente. O general Castello Branco, militar de bom porte intelectual e caráter sem máculas, foi mais ou menos unanimidade na aceitação nacional como primeiro presidente do regime nascente.

CONTRA A CASERNA

Não tardou muito, já nos anos 1960, para que nomes da hierarquia eclesiástica – que então tinha muito peso no país – se colocassem em confronto com os militares. Um dos primeiros deles foi o então cardeal de Aparecida, dom Carlos Carmelo Motta, aguerrido defensor das propostas de reformas de base do Governo João Goulart.

Mas a artilharia pesada viria mesmo com os primos, então bispos, os gaúchos dom Aloísio Lorscheider, e Ivo Lorscheiter, e outro também de origem germânica e, como os dois outros, também oriundo da Ordem do Franciscanos (OFM). Isso sem contar Dom Paulo Evaristo Arns, catarinense, também franciscano.

LEONARDO BOFF

Para entornar o caldo contra o regime militar, o ex-franciscano Leonardo Boff, nome de expressão internacional, seria um dos mais fortes contestadores do sistema lá fora, assim como o arcebispo de Olinda e Recife, dom Helder Câmara. A mídia mundial colocava-se contra a ditadura e dava todo respaldo à Igreja que, sem meias palavras, pregava estar “apenas fazendo a opção pelos pobres e os direitos humanos”.

A guerra de desgaste da hierarquia católica com os militares – quase sempre recheada de manifestações da CNBB e acusações de violações dos direitos humanos contra os militares, só terminou com a completa redemocratização do país, em 1985.

Criação do PT, com Lula, no Sion
Criação do PT, com Lula, no Sion

NASCE O PT

Em1980, registre-se, nascia em São Paulo, no Colégio Sion, o PT, Partido dos Trabalhadores. E nascia sob as bênçãos do então pároco de São André, padre Humes, depois cardeal Humes, e fortes lideranças católicas, além de intelectuais e artistas.

TEM QUE OBEDECER

Nesses tempos, a Igreja Católica estava na crista das ondas. Poucos eram os evangélicos com expressão política no país, até porque a maioria das denominações ainda considerava incompatível “com o Evangelho” a pregação política. E a maioria delas, fazendo leitura literal de recomendação de Paulo, o apóstolo, pregava “a total submissão às autoridades, porque elas são ungidas por Deus”.

O universo da política partidária estava, na verdade, apenas começando, então, a ser despertado nas igrejas protestantes.

E começou por igrejas de centro-direita, como a Presbiteriana do Brasil e a Metodista do Brasil.

Uma rara voz intelectual de contestação ao regime, na época, era ado ainda pastor Rubens Alves, que depois deixou Igreja Presbiteriana e adotou franca e aberta posição contra o autoritarismo militar.

(SEGUIRÁ)

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