quinta-feira, 9 julho, 2026
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CECILIA VIEIRA HELM – SALVANDO CULTURAS ANCESTRAIS

Minha coleção “Vozes do Paraná” vai trazer 15 novos Retratos de Paranaenses a partir de 12 de agosto, quando lançarei o volume onze do livro, às 20 horas, na Sociedade Garibaldi.
A antropóloga, professora e doutora Cecilia Vieira Helm é uma das perfiladas na edição, cujo trecho inicial o leitor confere a seguir:

 

Cecilia Maria Vieira Helm – (foto Leonardo Lima)

“Aos 81 anos, Cecília é exemplo de como a universidade pode ir muito além da formação de quadros para a vida profissional. Em 1996, ela foi a campo e aceitou o desafio de provar que os índios caingangue e guarani, de Mangueirinha, Paraná, são os legítimos ocupantes e com direitos sobre terras daquela reserva no Sudoeste do Estado.

Assim, a professora hoje aposentada da UFPR, pós doutora em Antropologia, ajudou a salvar substantiva parte de, pelo menos, duas etnias cruelmente tratadas pela sociedade e pelos governos ao longo de dezenas de anos.

Ela é raridade de ser humano, vive meio esquecida num país fundamentalmente ingrato com seus cidadãos notáveis. Afinal, nada surpreendente, pois Cecília não é “influenciadora” das redes sociais, nem celebridade da mídia e/ou do mundo político e nunca foi do universo dos esportes, menos ainda, do “show business”.

LAUDO ANTROPOLÓGICO

Laudo pericial antropológico, para investigação da antiguidade da ocupação de terras indígenas no Paraná, da antropóloga social Cecília Maria Helm, feito a pedido da Sétima Vara da Justiça Federal de Curitiba, executado a partir de 1996, garantiu em 2006 decisão final do STF.

A decisão, sacramentada pelo então ministro Ayres Brito, reconheceu que os índios caingangue e guarani são os únicos com direito a ocupar as cobiçadas terras da Reserva Indígena de Mangueirinha. O documento foi essencial para por fim a processo de espoliação das duas tribos, identificado a partir de 1949.

Antes da decisão final, milhares de araucárias tombaram e foram vendidas ilegalmente, e atrocidades contra os índios aconteceram e se prolongaram por dezenas de anos. Trata-se de história ainda a ser contada em suas minúcias de perdas de vidas e violências contra os índios além da leniência e conivência de autoridades de todos os poderes com a barbárie e a espoliação de povos índios.

CAINGANGUE E GUARANI

A fama de violência de madeireiros, grupos políticos e grileiros de todo tipo, não amedrontou a mestra da UFPR cujo exaustivo levantamento acabou garantindo a salvação dessas duas culturas ancestrais, habitantes daquele território de 17 mil hectares.

Cecilia em trabalho de campo

A missão assumida pela mestra evitou que os índios locais, milhares, se dispersassem, expulsos de suas terras, e sofressem forte processo de assimilação pelo entorno. Mas é impossível dimensionar quantas vidas foram preservadas de serem ceifadas, a partir da perícia judicial, o exaustivo e detalhado trabalho de Cecília.

A salvação garantida pelo hercúleo trabalho da antropóloga – que de ônibus e carro percorreu milhares de quilômetros de Curitiba a Mangueirinha e vice-versa – foi se desdobrando. Ganhou as páginas da História ao gerar muitas salvaguardas para essas culturas milenares. Um exemplo apenas: agora a alfabetização das crianças caingangue e guarani é feita nas línguas das tribos. O português é uma espécie de língua franca entre os dois grupos étnicos, que na língua do país se comunicam também com os não índios em geral.

E foi a partir dessa nova realidade que a FUNAI e o MEC se socorreram de uma caingangue, amiga dileta de Cecília, Célia,60 anos, pedagoga, para fazer desse modelo por ela implantado, um padrão para as tribos indígenas do país. Hoje para os índios todos, a lei passou a ser escolas com educação bilíngue. Obrigatória.

SILÊNCIO RESTAURADOR

Pragmática, Cecília Maria “nunca se vestiu de mulher da terceira idade”, testemunham amigas suas. Pelo contrário, tem uma agenda que pode ser exemplar para idosos, pelo menos os de exigente formação cultural, como ela.

Assim, começa o dia ouvindo noticiário de emissoras de rádio e televisão, depois mergulha na leitura de alguns livros de sua preciosa biblioteca, de preferência com a chamada “leitura pesada”. Exemplo: nunca se cansa de ler o historiador Eric Hobsbawm.

Há tempo para tudo no dia a dia da mestra que se ufana de ainda ser vaidosa, comprar roupas de qualidade em lojas que fazem jus à fama, dando sequência, assegura, ao que a identificou ao longo da vida. A exceção são os sapatos que, agora, por usar bengala, substituiu por tênis.

Essa concessão à “vanitas” não altera em nada o tempo que dedica às filhas Cecília Beatriz, Cristiane Vieira Helm e Caroline Helm, todas mulheres profissionais universitárias “bem-sucedidas”. Os netos? Ela os quer por perto, mas entende o universo de cada um. No entanto a mesa, para jantar ou café, continua sendo o aglutinador do núcleo familiar que dela cuida e por ela mostra devoção.

Ah, guarda tempo para as amigas, dentre elas, a escritora Leonor Demeterco de Oliveira, a professora aposentada do Departamento de Genética da UFPR, Eleidi Freire Maia, Ione Arruda Gomm, e a também professora universitária Eliane Fontoura. Com amigas ou sozinha, não abre mão de jantar semanalmente em restaurantes “de qualidade”, requintados. Um toque de saudade muito forte a marca, quando fala da morte e Marise Manfredine Hapner: “era irmã, amiga, confidente”.

Cecília sabe se guardar, passando parte do dia num silêncio restaurador, com seus livros, revendo arquivos, diários de campo – centenas deles, testemunhas de cada passo do trabalho da antropóloga.

Cecilia e o marido Edison Helm (in memoriam)
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